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segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Carta 10 - Sobre aniversários, desejos e o Sol.

Meu querido, feliz aniversário!!!


Hoje faz um ano que você nasceu. Como passou rápido...ainda mais aqui de longe, sem ver você crescer a cada dia. Toda vez que te vejo parece que tomou um pouquinho mais de fermento. Será que eu estaria sendo muito repetitiva se dissesse que estou com saudades? Eu já te disse o que é saudade? Acho que sim. Aliás, nesse ano já te falei sobre tantas coisas né? Muitas vezes fiquei achando que fui dura demais com você. Às vezes fiquei pensando que deveria ter inventado histórias de contos de fadas para te poupar, prolongando mais tempo possível o seu encontro com o real. Por isso tentei te dizer como que em conta-gotas, de um jeito que não doesse tanto e que não fosse tão amargo.

domingo, 8 de dezembro de 2013

A devolução humana

O homem é um dos seres vivos que habitam a Terra. A Terra é o terceiro planeta do sistema solar, pertencente à Via Láctea, Galáxia que habitamos. Uma Galáxia está localizada no Universo, ou seja, no Universo existem várias Galáxias. Há muitas controvérsias sobre a origem do Universo. Uma das teorias, a mais famosa, é a do Big Bang, na qual tudo teria começado a partir de uma grande explosão. Tudo teria começado depois desta explosão, até mesmo os seres vivos que habitam qualquer parte do Universo. Em nossa Galáxia, estamos situados no planeta Terra. Nós quem? Ora, nós humanos. Se a Terra não é a mesma que já foi um dia, na origem de tudo, os humanos, que não se sabe desde quando estão por aí, também não são mais os mesmos. A isso chamamos de processo de “Evolução”. Em muitos casos, acredita-se que evoluir é caminhar para algo melhor, sempre. Este sentido está arraigado nesta palavra: “Como fulano é um sujeito evoluído”, “Aquele Beltrano não evolui”. Mas não necessariamente este sentido seja o melhor ou o mais adequado para falar sobre a evolução humana. Muitos são os pesquisadores que se dedicam a estudar este processo evolutivo, muitos são os que não chegam a conclusão nenhuma. Mas, a bem da verdade, não chegar a lugar nenhum não é algo ruim. Com a passagem do tempo, as coisas mudaram, o que não quer dizer que tenham melhorado ou piorado. Tudo é uma questão de ponto de vista. Assim, imaginem que em algum ponto da linha do tempo tenha surgido o homem. O Homem. Deste ponto até aqui, várias mudanças físicas, psicológicas e comportamentais ocorreram, de modo que enfim chegamos ao que eu chamo de “devolução humana”.
1.      Homo primitivus – foi o primeiro de todos os homens que viveu na face da Terra.  Andava sobre as quatro patas. Sua alimentação era baseada na ingestão de raízes e frutos.


2.      Homo erectus – evoluiu diretamente do Homo primitivus e passou a andar sobre duas pernas e não mais sobre quatro. Herdou do homo primitivus uma terrível dor na coluna, da qual se queixou todos os dias de sua vida. Para solucionar o problema, passava muito tempo deitado, pensando na vida. De tanto pensar, evoluiu para o homo neandethalis.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Carta 7 - Sobre a infância, a adolescência e a criminalidade líquida

Meu pequeno sobrinho,
Como estão as coisas por aí? A quantas anda o caldeirão de sensações do seu corpo? Não se preocupe, em breve a agitação passará, assim que você puder começar a falar. Mas até quando a gente é grandão por vezes, não raro, somos tomados de surpresa por esse caldeirão que exige de nós um trabalho imenso de elaboração. Na verdade essa separação entre vida adulta e infância, adolescência e etc. são divisões feitas por pessoas que resolveram medir alguma coisa que eu nem sei te dizer ao certo o quê. A essas alturas já deve ter entendido que muitas coisas são criadas pelos humanos, já estamos falando disso há tempos não é? Amor, saudade, solidão, amizade, intolerância. Pois é meu querido, infância, adolescência, vida adulta e senilidade são mais uma série de invencionices nossas. Está confuso? Eu vou tentar te explicar.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Cachorro procura dono perdido

Texto baseado em fatos reais
Tenho muitos amigos que gostam muito de cachorro. Nem tantos gostam de gato. Diariamente recebo fotos de cães que precisam de alguma coisa: um lar, a caridade alheia para sobreviver das doenças, etc. Quando achei que já tinha recebido tudo que é tipo de pedido de ajuda, hoje recebi com um estalo a foto de um cachorro procurando seu dono. Quase chorei. Eu fiquei imaginando como se teria perdido o seu dono. Foi esta a primeira pergunta que me veio à cabeça. Talvez estivessem passeando ambos. O cachorro bem senhor de si, sabendo a quem amava – seu cuidador – andando faceiro abanando o rabo orgulhoso de seu dono. Haveria de ter encontrado outros cachorros na rua, teria cheirado suas bundas e dito: “vejam, aquele ali é meu dono, estou passeando com ele”.

domingo, 17 de novembro de 2013

Do pó vieste e ao pó voltarás

E logo eu que sempre gostei tanto de livros...


Eu tenho o costume de caminhar olhando para o chão. Antes eu achava que era timidez, mas aprendi com Manoel de Barros que olhar para o chão é melhor, há coisas celestiais no chão, junto com os vermes, com a poeira. Também aprendi que mudar a ordem das palavras e seus sentidos não é doidice. Até inventei um pensamento assim logo que estava acordando ontem: “Como pedra, água e lógica”. Ainda não inventei um sentido pra essa frase. Manoel foi criado no mato e aprendeu a gostar das coisinhas do chão, antes que das coisas celestiais. Pensando nisso, eu resolvi fazer as pazes com as coisas celestiais. Conto o porquê. Outro dia virei a esquina de casa e, olhando para o chão, como de costume, vi aberta num pedaço quebrado da calçada, uma Bíblia. Ela estava na terra, aberta, no livro de Lucas. Eu parei. Olhei. Fotografei. E logo eu que sempre gostei tanto de livros...não consegui mover um passo na direção em que ela estava. As folhas finas se embaralhavam com o pouco vento que tinha, e meu pensamento viajou algumas léguas ao vento.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Carta 4 – Sobre o amor e a solidão, ou a solidão do amor

Meu querido,
Depois da última carta, fiquei pensando se peguei muito pesado com você ao falar desse buraco que nos constitui. Talvez seja ainda muito cedo para te dizer essas coisas, mas acredito que mesmo antes de você poder entender, de alguma forma já sente. Como? Bem, nem sempre que você tem fome sua mãe te atende imediatamente, não é? Já está percebendo que o leite dela e você não são uma coisa só? Meu pequeno, é assim mesmo que aprendemos isso, não fique bravo com a sua mãe, estou certa de que ela quer o melhor pra você. O que não quer dizer que ela vai acertar em tudo, tenha paciência.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Seu nome era Maria



            Engana-se elipticamente quem acredita ser este um texto sobre Maria, a Santa Mãe. Se era esta a intenção do leitor, pare imediatamente de ler. Conto a história de outra.

domingo, 27 de outubro de 2013

Emma B.



Não se pode dizer que era uma mulher de família. Digamos que esteja mais para uma mulher familiar. Nada poderia haver de mais familiar em uma mulher bem casada, mãe, que acordava todos os dias às seis da manhã. Olhava aquele que saía para trabalhar sempre no mesmo horário, com o mesmo beijo na testa. Quem sabe se uma nova paixão aplacaria essa falta? Ir ao shopping, ir às compras. Alisar, aumentar, ou enrolar os cabelos.

Mais do que amar, queria ser amada. O que ela mais amava era ser amada. Mas com um beijo na testa? O amor exige arrebatamentos, pensava. Não sabia que o amor é bicho esquisito, é objeto nunca esquecido, mas nunca alcançado. Amor é corpo? Amar é sempre pouco. Amar, amar, amar, até que o amor se torne porco. Um porco que saia correndo no meio do mato. Tentou algumas vezes, desistiu.

Pensou em morrer, mas não de amor. Não tinha por quem. Senta-se agora, todas as noites, na escadaria da igreja matriz. Adotou o nome de Emma Bovary. A saia curta, o batom coral a lhe queimar os lábios. Nada de beijos na testa. Vive de arroubos amorosos, vende amor, vende corpo. O dinheiro? Guarda no porco.

Isloany Machado, 29 de setembro de 2012.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Psicanálise e Literatura: Diálogos Necessários*

* Texto que apresentei durante o Seminário de Christian Dunker no Instituto de Psicologia da USP, dia 17/10/2013



Reiteradas vezes temos ouvido falar da importância do diálogo entre a Psicanálise e a Literatura. Esta relação para nós psicanalistas se tornou tão óbvia que esquecemos, por vezes, de pensar em suas causas. Certa vez uma amiga de outra área me perguntou por que havia tanta possibilidade de conexão entre as duas. Esta pergunta moveu do lugar aquilo que parecia ocupar uma posição de obviedade, e me coloquei a pensar nas relações. Desde Freud, a teoria psicanalítica tem sido elaborada com a constante recorrência a textos literários: Jensen (Gradiva); Sófocles (Édipo), que dá nome ao famoso complexo; Dostoievski (Irmãos Karamazov); Hoffmann (O homem da areia); Goethe; Schiller; Shakespeare; dentre outros. Em Lacan encontramos Marguerite Duras (O arrebatamento de Lol V. Stein - ela escreve sobre o que ele ensina); Shakespeare (Hamlet, O mercador de Veneza); Racine (A tragédia de Athalie); Paul Claudel; André Gide; Allan Poe; Rimbaud; James Joyce.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Carta 9 – Sobre as obrigações, o tempo, os dentes e as palavras.



Meu querido,

Como estão as coisas por aí? Seria redundância dizer que estou com saudades? Já soube que vários dentes nasceram! Ah, mas soube também que você começou a ir à escolinha. Queria ter visto você com a nova mochila em seu primeiro dia de aula. Dez meses já hein!!! Você está cada dia mais lindo. Me desculpe por ter passado tanto tempo sem te escrever. Mas é que tantas coisas aconteceram...

domingo, 6 de outubro de 2013

Futuro do pretérito mais que imperfeito

Para lembrarmos de Hans, o homem do mercedes amarelo que matou Macabéa.

 

Às vezes é difícil saber por onde começar uma história. Talvez possa começar dizendo quem sou. O que não é, ainda, uma tarefa fácil, já que muitas vezes o que achamos que somos não passa de um ledo engano. De qualquer modo, filosoficamente pensando ou não, me chamo Hans em homenagem a meu avô paterno, que era alemão. Alguns me chamam de gringo porque tenho os cabelos claros e a pele muito branca, e o tom dos meus olhos está entre o azul e o verde. Mas tudo isso é quase que pura imagem, não importa muito. Esse era eu. Agora já não sei mais. Aconteceu há muitos anos, mas é incrível como a memória consegue manter vivas algumas coisas, cenários impossíveis de esquecer. A cena se repete há 15 anos em meus pesadelos, como um ritornelo. E o que se perde a cada repetição? O que eu ganho com cada uma delas? Ganho náuseas e dores no corpo, ainda e sempre.

domingo, 29 de setembro de 2013

Primeiros aprendizados sendo professora


 
Desde o dia 11 de setembro deste ano estou aprendendo a ser professora. Esta data é um tanto catastrófica em nosso imaginário social, foi um dia marcado por ser desastroso. Entretanto, não posso dizer que meu primeiro dia de aula, não mais como aluna e sim como professora, tenha sido catastrófico. Tudo me leva a crer que estou construindo minha identidade como professora. Devo confessar que depois do primeiro dia de aula saí da Universidade meio que sem saber direito quem eu era, nem para onde ia. Socraticamente pensei, só sei que nada sei. Então, trata-se de um aprendizado. Desde este dia, já aprendi algumas coisas:

domingo, 22 de setembro de 2013

Carta de despedida




Querida mamãe,

Estou escrevendo para me despedir de você e de todos os meus queridos. Partirei esta madrugada em busca de uma pessoa. Penso que talvez não compreenda minha decisão, mas quero que entenda que nunca amei assim antes. Ela tem olhos tão sedutores, mas tão sedutores, que me fazem acreditar que ali estão todas as respostas do mundo. Mamãe, estou apaixonado! E que prazer encontro ao sentir o perfume de seus cabelos! Não posso mais viver longe dela. Eu andava por aí perdido neste mundo mamãe, sem saber que rumo tomar. Já havia perdido tudo que tinha, até mesmo meus mais ternos amigos. Eu vivia entorpecido, alcoolizado. Foi aí que ela surgiu. Mas não pense minha querida mãe, que você tem culpa em meu sofrimento. Cada um faz o que pode com o que tem da vida e eu sei que você me amou com tudo que podia. Então não chores com a minha partida, nem se culpe pelo fato de eu querer me lançar nos braços de outra mulher. Um dia você vai conhecê-la. Ela é tão doce. É uma promessa de gozo incalculável. Todo o meu ser pulsa por ela muito mais do que por qualquer outra coisa na vida. Chega a doer. Imagino que ao lado dela as horas todas passarão e persistirá um tempo despovoado e profundo, para usar as palavras de Cecília Meireles. Nesta madrugada eu me lançarei ao seu encontro num salto. Tomarei uma garrafa de whisky antes de encontrá-la. Calma mamãe, eu preciso ir embriagado porque sua beleza é tanta que me ofusca, não me é possível olhá-la assim tão sóbrio. Parto feliz e peço mais uma vez que não chores por mim. Se quiser, reze por mim, para que eu encontre as respostas que a vida não me deu, nesse amor tão grande que sinto por ela. Sei que as pessoas me julgarão por este ato aparentemente impensado, mas já pensei muito, hesitei, relutei. Não posso mais adiar este encontro. Diga a meu pai que não sou covarde, que é preciso muita coragem para deixar tudo por ela.

Com amor, seu filho.

Isloany Machado

Campo Grande, 24 de maio de 2012.

domingo, 15 de setembro de 2013

Açúcar é veneno

Outro dia estava com os olhos do avesso e uma cena brilhou diante de mim. Uma mulher estava sentada no ônibus e eu em pé. A visão que eu tinha era, portanto, de cima pra baixo. Eu não havia reparado nela até o momento em que um vendedor de cocadas entrou também. Ela perguntou o preço e comprou duas cocadas. Imediatamente guardou uma delas para alguém. Imaginei que não fosse para o marido, mas sim para o filho. Devia contar com aproximadamente 35 anos, mas aparentava mais. A pele estava manchada de sol. Nas unhas das mãos e dos pés trazia um esmaltezinho dourado que já estava desbotado. O das mãos estava carcomido até a metade das unhas por causa de algum sabão forte que tenha usado ao longo dos dias. Parecia mesmo que havia acabado de lavar roupa, porque os dedos ainda estavam meio enrugados. A blusa era de uma malha roxa e estava cheia de bolinhas pelas contínuas lavagens e pela pouca qualidade do tecido. Seus peitos eram murchos e da região abdominal pendia uma protuberância de gordura. Os cabelos estavam amarrados em um rabo-de-cavalo e na parte frontal da cabeça, dois chumaços estavam vigorosamente arrepiados, eletrizados, sem que ela demonstrasse qualquer preocupação. Usava um batonzinho rosa claro que não cobria a boca toda, dava pra notar que fora aplicado apressadamente. Prestei atenção nela enquanto comia a cocada, pois notava a satisfação em seu rosto. Parecia ser uma dessas pessoas cuja vida não é fácil, que precisa contar moedas para passar o mês. Então imaginei que teria hesitado antes de comprar a cocada, mas enfim pensara: “eu mereço afinal!”. Alguém que tenha muito dinheiro nem sonha em como é obter uma satisfação dessas, pois seus desejos não podem ser realizados com uma pequena carga de açúcar no sangue. Então, ela comia a cocada e eu observava a cena. Os farelos caíam e ela ficava inconformada, pois cada pedacinho devia ser fundamental. Observei que em seu colo estava pousava uma bolsinha média, branca, mas encardida de tão usada. Os farelos da cocada depositavam-se nela. Então a mulher rapidamente espantava-os de cima de sua bolsa. Não pude deixar de notar que esta trazia um logo metálico com as seguintes letras entrelaçadas: VH. E a estampa era um embaralhamento das letras V, C, I, T, R, R, O, H, G, U. Entendi o motivo pelo qual ela limpava tão cuidadosamente os farelos, pois mesmo não sendo original, há um valor afetivo implicado numa bolsa dessas. Ela continuava comendo a cocada e os farelos a cair. Segui pensando na satisfação do açúcar e lembrei que sempre ouvi meu pai dizendo que “açúcar é veneno!”. Então imaginava o pote de açúcar com aquela figura emblemática da caveirinha avisando de um grande perigo letal. Pensei nas palavras de meu pai e olhei de novo para a mulher. Temi que a qualquer momento ela pudesse cair dura no chão. Os minutos passavam e ela não caía. Então pensei que podia alterar a sentença do meu pai “açúcar é veneno” por “o açúcar, se consumido excessivamente, pode ser como um veneno para o corpo, ou seja, pode ser muito prejudicial em longo prazo”. Transformei uma metáfora em uma comparação. Benditas sejam as figuras de linguagem. Feito isso, comprei uma cocada e saltei do ônibus, pois era chegada a hora de minha descida.  

Isloany Machado

Escrito em 20 de junho de 2012.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

O presente




Para a família Carneiro

Só conheço, de perto, duas pessoas com mais de 90 anos. Uma delas é Manoel de Barros, que conta com mais de 90. Sim, eu o conheci pessoalmente, estive com ele por uns dez minutos e quase morri do coração. Eu precisava dizer a ele o quanto eu gostava do seu trabalho. Disse. Chorei. Disse. Chorei. Ele riu. A pele das mãos fininha, o cabelo branco, muito branco. E ria. A outra pessoa que conheci, não menos importante, é Ávido Carneiro, avô de Andréia Carneiro, minha amiga. Em agosto fez 90 anos e teve festa pra comemorar. Fui convidada. Ele havia lido meu livro Costurando Palavras e disse que queria conhecer a autora.

domingo, 1 de setembro de 2013

O não-ser do psicólogo


Não, não adivinhamos pensamentos.

Também não lemos cartas e tarôs, menos ainda a mão.

Não analisamos as pessoas o tempo todo.

Não apertamos os parafusos da cabeça de ninguém.

Não consertamos “crianças problemáticas”.

Não?

Não.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Duro de cair



Para Heder, com carinho.

A minha família é cheia de gente doida. Antes achava que isso não era normal, que eu também era doida por culpa da minha família. Demorei muitos anos pra perceber que todas as famílias são doidas e que, como diria Caetano, de perto ninguém é normal. Eu só fui entender isso quando fiquei longe da minha doida família. Agora sinto saudades. Talvez agora o tempo tenha cavado uma vala muito distante entre nós. Daqui eu continuo sim senhor a reproduzir as doidices familiares, com muito prazer, com muito gosto. Entendi que não preciso parar, desde que não seja nada muito mortífero. Pois foi pensando nisso que lembrei de vários casos de tragédias em minha doida família, algumas fatais, outras paralisantes, outras alienantes. E foi por isso que meu coração se encheu de alegria quando soube que um dos meus primos ia se formar em Direito. Não que isso seja uma raridade na família, há outros primos bem formados, mas este tem um lugar especial. Tomara que os outros não fiquem enciumados, mas tenho que dizer isto. Esse primo é só um ano, um pouco menos, mais novo do que eu. De modo que a diferença é tão pouca que eu mamei na teta da mãe dele, minha tia, no caso. 

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O céu dos cachorros




Juli Preta, desculpe a demora em falar com você. Antes não era possível porque as palavras fugiam e, além disso, eu achava que quando um cachorro morre, ele acaba. Mas a sua médica, quando nos deu a notícia de sua partida, disse: “De onde ela está, sabe que vocês fizeram tudo o que podiam por ela”. Desde esse dia estou às voltas com a ideia de que há um céu dos cachorros. E pode ser que aqueles que são bonzinhos como você vão para o céu dos cachorros. Quando pensei em te escrever, fiquei com medo de despejar algo muito muito triste, porque você não era triste, pelo contrário, eu nunca vi uma cachorra tão feliz como você. Mas é claro que eu preciso dizer que não foi fácil nem pra mim nem pro seu pai lidar com a sua partida. Arre. Dizer que estamos com saudade seria falar mais do mesmo. Agora essa ideia do céu dos cachorros não sai da minha cabeça. De todas as vezes que ouvi falar do céu, ninguém nunca disse que havia cachorro lá, e eu sempre perguntava “por que não?”.

domingo, 11 de agosto de 2013

Carta 8 – Sobre a presença da ausência, o indizível, a transitoriedade e a eternidade.




Meu pequeno,

Todas as vezes que você vem me visitar e vai embora, fica um buraco tão grande! Li um poeta que diz ser a saudade algo como a presença da ausência. Então pensei que tem muita presença de sua ausência aqui no meu peito. O seu cheirinho ficou na minha cama depois do último cochilo que você tirou aqui. Mas já deve estar cansado de tanto eu dizer das saudades que sinto, não é?

Na verdade estou às voltas faz muito tempo para falar de uma coisa indizível. E mesmo agora estou pensando como te dizer algo que nem mesmo eu sei definir. Meu querido, você ainda é muito jovenzinho. Vi que seus dentes estão começando a nascer e você quer usá-los. É a vida que segue crescendo em você Henrique! A vida, assim como o tempo, não para. E é sobre isso que eu queria falar com você, mas como dizer?

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Carta de amódio




Para minha mãe.

Um amor de mãe nasce com a pessoa? O amor de filho é menor que o de mãe? O amor fica e o ódio, bem, o ódio jogamos debaixo do tapete. Ele nos marca de outras formas, faz o peito ficar esmagado, traz culpa. Amor de mãe precisa ser, mas não nasce incondicional. Às vezes me pergunto se amor de filha também precisa ser assim, incondicional. Olho as outras pessoas. Pensando em tudo isso entendi que sinto amódio, mas por que é tão difícil te dizer?

domingo, 28 de julho de 2013

Um ano depois


A você que partiu tão cedo.

Meu querido,

Hoje faz um ano que você partiu, mas a saudade faz parecer mais.

Nós tivemos bastante tempo para descobrir coisas juntos, quando brincávamos no quintal da sua casa durante as férias, lembra? Você nunca foi lindo – a não ser para a sua mãe – , mas eu me orgulhava de você por outras coisas. Fazia uma sopa como ninguém, desde muito cedo. Teve que aprender a cozinhar, já que as mulheres de nossa família nunca foram muito chegadas ao fogão. Você era uma referência culinária para todas nós. Lembro com água na boca daquele porco assado que fez na última vez que nos vimos, estava supimpa. Enchia a boca para dizer “eu tenho um primo que cozinha muito bem”. Esses dias estávamos revirando as fotos antigas e vi você criança. Fotos de aniversário. Lembra dos bolos tortos que nossas mães faziam? Rimos disso.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

O melhor roubo da história

* Este conto ganhou o prêmio Ulisses Serra, da Academia Sul-mato-grossense de Letras, edição 2012. Foi isto o que me motivou a publicar o livro Costurando Palavras.
           
Eu não tenho vergonha, nem medo de dizer que fui ladrão. E, antes que alguém me julgue e condene, vou contar minha história. Não pense que delinearei aqui uma triste história de um pobre coitado que teve de roubar para viver, ou para dar leite aos filhos. Nada disso. A verdade é que eu iniciei minha carreira roubando chocolates no supermercado, ainda criança. Com o tempo fui desenvolvendo técnicas e minha mão tornava-se cada dia mais leve. Tinha tantos chocolates, não é possível que sentiriam a falta de unzinho na barriguinha de um menininho.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

O buraco do ar condicionado



Nem sempre a memória nos privilegia com aquilo que realmente aconteceu. De qualquer maneira, confio nos desvãos de uma memória longínqua, que soprou em meus ouvidos esta narração. Estive mastigando esta história durante dias a fio, mas contá-la é difícil. Juntar todas as peças é uma tarefa impossível, pois ao menos uma ficou faltando, extraviada quem sabe no quintal da casa inacabada. Sem delongas, vamos ao que interessa. Trata-se da história de um casal. E, por mais que falar de amor sempre pareça piegas, não é de amor que falarei.

domingo, 7 de julho de 2013

Esperando a Carta

De vez em quando cartas se perdem; esta deveria ter ido para o fundo do mar. Júlio Cortázar.


            Dizem que quando morreu, deixou uma carta escrita em um caderninho visto ao seu lado. Sumiu pouco tempo depois. Eu não cheguei a tempo. A voz ao telefone era de toalha áspera, seca. “Diga alguma coisa para ela.” A outra voz era de sirene, denunciavam uma boca escancarada de pranto. Não pude dizer nada. Nenhuma carta? Nenhuma explicação? “A culpa é dela, só pode ser dela!”.
            Havia uma carta. Se havia, decidi esperar por sua chegada. Alguém teria a bondade de postá-la nos correios. Todos os dias, por volta das três da tarde, levava uma cadeira de fio próximo à caixa de correspondências. Rivelino já me conhecia pelo nome. “Boa tarde senhora! Como vai?”. Alguma carta Rivelino? “Hoje não.” E lá se ia Rivelino pedalando sua bicicleta amarela. 

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Porque tudo aquilo que começa, um dia acaba


Só me dei conta de sua presença quando, depois de entrarmos no mesmo ônibus, ele quase caiu com uma freada brusca. Rapidamente peguei de suas mãos as duas sacolas que carregava com dificuldade por causa do peso. Do peso da idade mais que o das sacolas. Depois de passado o susto, ele me olhou agradecidamente e disse que antigamente carregava nas costas um saco de cimento, de um lado um saco de cal e do outro alguma coisa bem pesada também que agora já não consigo mais me lembrar. Agora já não podia nem com dez quilos. Não disse isso em tom de lamentação, mas de nostalgia. Continuou:

segunda-feira, 24 de junho de 2013

O palhaço



Olhava o palhaço e estava convicto de que havia algo de errado ali. Seus pais sentaram-se com ele na primeira fileira do circo, de modo que pôde olhar cada detalhe. Era a primeira vez que via um palhaço tão de perto, na verdade aquela figura sempre lhe causara uma espécie de medo inexplicado, daqueles que chamam fobia. Ninguém entendia como uma criança podia ter um medo assim de um palhaço, uma figura que só quer fazer rir. Sentia-se idiota por ter tanto medo. Evitava qualquer contato. Quando o carro de som passava anunciando a chegada do circo, escondia-se embaixo da cama durante horas. Seus pais insistiam em levá-lo, pois acreditavam que um homem precisa enfrentar seus medos desde sempre. Encolhia-se entre as pernas da mãe e virava o rosto diante da aparição da figura tragicômica, sentia o peito pular sob a camisa xadrez preferida dele.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Carta para Dona Crase


Caríssima Dona Crase,

Faz já muito tempo que estou para escrever-lhe esta carta. Só agora me encorajei. As pessoas que me conhecem bem, talvez desde a infância, já sabem que eu sou meio avessa a regras. Não gosto muito de formalidades, nem de ditaduras. O que não quer dizer que eu não tenha que me submeter a elas de vez em quando. Esta aversão estende-se para diversas coisas na minha vida. Não aceito verdades impostas, ando sempre no caminho torto da dúvida, não sem algum sofrimento. Também não gosto dos engessamentos de alguns tipos de escrita. Prefiro que as palavras corram soltas, livres, sem rima ou rumo.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Diálogo entre o personagem de Memórias do Subsolo e o Pequeno Príncipe



- Hei, pequeno príncipe, estamos aqui lado a lado nesta estante e eu não pude deixar de reparar no quanto és cheio de cores e, até certo ponto, otimista. Mas creio que sejas ingênuo demais para as coisas da vida.

- Por que o senhor me parece assim, tão rabugento?

- Sabe garoto, há muitas coisas que você precisa aprender. Se quiser, quando eu tiver tempo, posso lhe dizer algumas coisas.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

As lembranças e as coisas





Uma das lembranças que tenho da infância é uma história que minha mãe contava algumas noites em que eu não conseguia dormir. A história era sobre uma mulher que se chamava Filomena. Mamãe nunca me disse se era verdadeira, se era invenção dela ou se fora contada pra ela também, como aqueles contos que são reproduzidos em muitas e muitas gerações até se tornarem verdades. Vamos à história. A tal mulher morava sozinha havia muitos anos. A casa era habitada pelas lembranças dela. Havia muitas lembranças. As pessoas que haviam morado na casa já tinham ido embora.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Caso de amor entre a ponto de interrogação e o reticências


           Ela era um ponto de interrogação, bela, questionadora dada a natureza de sua pontuação. Ele era reticente. Incapaz de terminar sequer uma frase. Ela, de tão interrogativa que era, e ele, reticente, a partir daqui chamá-los-ei de: a ponto de interrogação e o reticências.
Quando ele a viu, seus olhos se encompridaram para ela que, sempre sedenta, bebia água naquele instante. Foram longos dias de olhares do reticências para a ponto de interrogação. Aposto que aquele ar de dúvida era o que mais lhe atraía, pois ele, apesar de reticente, queria dar a ela respostas.

sábado, 25 de maio de 2013

Comemorando os 20 mil acessos!!

Meus queridos amigos e seguidores do blog, agradeço imensamente pelo incentivo semanal que recebo de cada um que acessa, curte, comenta ou compartilha algum de meus textos. Tim-tim!!!

terça-feira, 21 de maio de 2013

Oração do obsessivo e Prece a Santa Histeria




ORAÇÃO DO OBSESSIVO

Ó senhor das causas impossíveis,

Bendita seja nossa neurose.

Não nos deixe realizar nosso desejo,

Nem agora e nem nunca na vida.

Não nos deixe contrair dívidas,

E faz com que nunca perdoemos àqueles que nos devem.

Olhai por nós, procrastinadores,

“Portadores” do falo,

E livrai-nos dos ratos,

Amém.
PRECE A SANTA HISTERIA
Santa Histeria, que nos estrutura,
Bendito seja o nosso sintoma
Deixe advir o nosso desejo.
Seja feita a nossa vontade, mesmo que não seja bem aquilo que queremos.
Não nos deixe cair na fogueira, no manicômio e no lítio.
Santa Histeria, mãe do feminino,
Olhai por nós, conversoras,
Que encarnamos a falta,
E livrai-nos da Outra,
Amém.
Isloany Machado, 05 de fevereiro de 2013.


segunda-feira, 13 de maio de 2013

Carta 6 – Sobre certezas, intolerâncias, deuses e guerras




Meu querido,

Estava com muita vontade de te escrever para saber como está. Aqui, de minha parte, estou com imensas saudades. Mas disso você já sabe, não é? Foi do que falamos na última carta. Saudades, amores, amizades, sentimentos humanos inventados para sublimar dores, ódios, perdas, solidões...Há mais sentimentos humanos, muitos mais, por ora são estes os que já conseguimos falar um pouco. Mas sabe Henrique, há uma coisa que foi inventada também, que eu nem sei se posso chamar de sentimento, mas essa coisa se chama intolerância. Vou tentar te explicar isso usando um exemplo.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Mães e filhas


Este ano resolvi me meter com a escrita. Então, no aniversário de cada uma das pessoas que eu mais amo, o presente foi um texto escrito por mim contando um pouco de nossa história. O aniversário da minha mãe está chegando e estou às voltas sem saber o que escrever. Espremi, espremi e nada. Daí pensei que poderia me inspirar olhando pra fora e não pra dentro. Comecei a observar mães e filhos em algumas cenas do meu cotidiano. Um dia vi uma menina de uns oito anos que estava perto de sua mãe no ônibus, a mulher sentada e a filha em pé. A mulher dizia para a menina que desgrudasse dela.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Super-heróis em crise



Nunca gostei muito das histórias de super-heróis, mas às vezes, para ter companhia do marido nos filmes românticos, dramáticos e cults, a gente acaba aprendendo a gostar de fazer companhia nos filmes de ação, aventura, ficção científica, etc. Os super-heróis passaram a fazer parte da minha vida dessa forma, não que eu nunca tenha ouvido falar deles, mas nunca dei muita importância. A única coisa que eu sabia sobre eles era o quão imbatíveis, invencíveis e corajosos eles são. Pelo menos eram durante nossa infância, ou melhor, eram até outro dia. Me lembro que há alguns anos assistimos um do super-homem cujo cabelo sequer despenteava enquanto ele voava no infinito. Mesmo com todos os conflitos de um Clark Kent, os super-heróis bancavam as próprias armaduras. Havia um momento em que o medo do humano era absolutamente substituído pela couraça da roupa heróica.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Carta para meu pai

 
Pai, hoje é dia de São José. Eu nem sabia disso, fiquei sabendo hoje e pensei: será que meu pai se chama José porque nasceu um dia depois do dia do Santo? Depois lamentei as lacunas que temos da história um do outro. Mas entenda que as lacunas não estão somente entre nós dois. Se quer saber, temos lacunas da história de nós mesmos. Uma coisa meio maluca. Você tem nome de santo. O nome do pai de Jesus. Quanta responsabilidade né? Eu não sabia que você tem nome de santo, nem nunca havia relacionado o seu nome ao do pai de Jesus. Até porque pra mim isso não faz diferença nenhuma. Quer saber o que não faz diferença pra mim? Santidades.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

O final da história




Esses dias estava lendo um texto pedagógico que falava da importância de se ter disciplina e organização dentro de casa, pois isto auxilia na boa educação para os filhos. Um dos exemplos citados foi: “não deixar livros espalhados pela casa”. Não pretendo fazer aqui uma crítica a qualquer teoria ou método pedagógico, quem sou eu para dizer qualquer coisa do tipo, mas essa história de não poder deixar os livros espalhados pela casa me magoou profundamente. Eu sempre gostei de livros em todos os lugares da casa. Tudo bem, minha mãe me dava broncas sim por causa disso, mas preciso explicar isso melhor.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

A angústia bate na aorta


Texto lido ao final do seminário em Dourados dia 06/04/2013, sobre "A constituição do sujeito e o Outro: o surgimento da angústia".

"Ser ou não ser, eis a questão."

Questão que assola os pensadores desde muito tempo.

Quem é o homem? Categoria geral.

Quem sou eu? É o que às vezes nos perguntamos, mesmo sem sermos filósofos.

Antes não perguntássemos. Talvez pudéssemos pensar como Macabéa, personagem de Clarice Lispector: “Já que sou, o jeito é ser”.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Carta 3 - Sobre palavras e seus desvãos





Meu pequeno sobrinho,

Da última vez falamos sobre o encolhe-estica do tempo e de outras coisas. Quando contei ao seu tio sobre o que falamos, ele inventou uma nova palavra sem querer, do “encolhe-estica do tempo” ele entendeu “encolística do tempo”. Assim, entre risos, batizamos com esta nova palavra as variações do tempo. Além de ser uma palavra nova, ela é rebuscada. Como vou te dizer isso? Palavra rebuscada é palavra difícil, que não se usa no dia-a-dia. Ouça: “A Encolística do Tempo”. Não te parece até mais chique? Sabe, as pessoas valorizam muito as palavras difíceis, porque saber palavra é uma forma de poder. Um dia você vai entender isso melhor.

segunda-feira, 25 de março de 2013

A vendedora de shampoo


 
Andava enfezada com a aparência do meu cabelo, sem vida, sem brilho, lambido demais. Isso deve acontecer depois que você passa anos usando o mesmo shampoo, pensei. Lembrei-me de quando comecei a usá-lo, da inveja que causava nas outras mulheres, do balanço quase novelesco dos fios, tão fortes. Mas com o tempo, tudo mudou. Me senti traída. Pensei que o fabricante se desinteressara de mim. Depois de muito falar disso no divã, decidi que iria deixá-lo, trocar de marca quem sabe. Buscar novos horizontes. Quando entrei na loja de cosméticos, uma moça muito bonita e maquiada veio me atender.

- Em que posso ajudá-la? Perguntou sorridente.

segunda-feira, 18 de março de 2013

A galinha no espelho

 
 O homem é um bípede implume. Platão
Apesar de possuírem um olhar que nos soa como vazio, já que parecem olhar para o nada, eu não seria capaz de dizer que uma galinha não tem sentimentos. Ainda que não possua o roça-roça do gato e o lambe-lambe do cão, uma galinha pode bem ser um animal de estimação, como tantas que vemos espalhadas pelos quintais de casas de bairro. Mesmo despertando, sem que precise se esforçar muito, a afeição das crianças, uma galinha sempre pode ser o alvo de uma faca afiada nas mãos de um adulto. Tenho a impressão que uma galinha olha para o nada para disfarçar que olha tudo, medida de proteção e sobrevivência. Uma galinha é um animal doméstico que precisa lutar dia após dia para sobreviver. Foi pensando em tudo isso que Cocota sempre buscou ser uma galinha diferente das outras. O que ela queria era ser vista como outra, como algo além de um pedaço de carne. Cocota se autodenominava galinhista, para se contrapor aos egocentristas – humanos que se acham muito melhores do que os outros animais e não têm o menor respeito pelo direito deles.

sábado, 9 de março de 2013

Carta 2 - Sobre o encolhe-estica do tempo e outras coisas


Meu pequeno sobrinho,

Veja como o tempo passa rápido! Hoje faz dois meses que você nasceu e, claro, tenho que dizer que ainda ontem falei com sua mãe pelo telefone para saber da notícia de sua gestação.

Sabe Henrique, o tempo é uma das coisas mais intrigantes desse mundo. Quando alguém que a gente gosta vai embora, o tempo estica. Quando uma pessoa que a gente ama está para chegar, e mesmo muito antes que ela nasça, o tempo é longo, mas quando ela chega o tempo encolhe, tudo passa muito rápido. Como posso te dizer isso de uma forma mais compreensível? Bem, imagine que você está com muita fome e sua mãe não te dá logo o leite. Não te parece uma eternidade a espera? Mas quando ela chega e você está mamando, não passa rapidinho? Então, é mais ou menos assim.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Sala de espera


Dedicado ao meu querido ginecologista


Sempre que vou ao ginecologista levo um livro para ler, pois tenho a impressão de que o tempo passa mais rápido. Às vezes me pego com o livro de cabeça pra baixo. Não devo mentir. Então, vamos lá. Sempre levo um livro para não ter que falar nada. Não é que eu seja metida ou coisa assim. Explico melhor. A sala de espera do meu ginecologista anda sempre lotada: moças, gestantes, idosas, meia-idade, dentre outras figuras. Todas elas falam ao mesmo tempo. Concluí que a sala de espera do ginecologista proporciona alguma catarse para minhas companheiras.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Pela primeira vez tiete*


*A história do dia em que conheci Manoel de Barros. Como dizia ele, “só dez por cento é mentira”.
 
 

            Confesso que não queria contar. Mais pelo ridículo da cena do que por causa de qualquer outra coisa. Eu nunca consegui ser tiete de nenhum artista famoso, nem na adolescência, época em que as meninas escolhem seus ídolos e estampam seus rostos em todas as paredes do quarto. Uma vez, aos treze anos até tentei seguir a tietagem de uma amiga que era muito fã de dois grupos musicais e de Leonardo Dicaprio. Minha mãe comprou um discman pra mim e mais os dois cds, decorei todas as músicas, mas, assim que minha amiga mudou de cidade, o discman ficou esquecido num canto. Quanto ao Dicaprio, comprei uma revista cuja capa estampava “Leonardo de A a Z”, no meio vinha um pôster dele, mas sequer colei na parede. Certa vez minha mãe viajou e encontrou no aeroporto um ator global, chegou feliz em casa dizendo que havia conseguido pra mim o autógrafo do ator fulano de tal, que eu nem sabia quem era. Assim foi que nunca tive a capacidade de me emocionar com nenhum artista.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

A Convenção Internacional das Traças


No ano de 2050 todas as traças do mundo decidiram fazer uma convenção. A primeira convenção internacional das traças – I CIT – foi realizada na cidade de Paris, na França. Esta cidade foi escolhida por ser historicamente a capital do conhecimento, em que muitos e muitos livros foram impressos. Desta forma, Paris possuía gigantes bibliotecas e lá nesta cidade habitava uma grande parte da população de traças. O motivo da realização de uma convenção devia-se ao fato de que, com a chegada de tantos aparelhos eletrônicos, tablets, notebooks, netbooks e etc, os livros impressos estavam sendo substituídos por e-books.

No ano 2000 havia uma traça velha à frente de seu tempo que profetizava o fim do papel: “Um dia, minhas caras, uma grande praga será instaurada em nossa sociedade e ela acabará com os livros, as revistas, os gibis, e tudo o que for feito de papel terá fim. Seus criadores dirão que é pra preservar o meio ambiente, mas isso será uma desculpa para que possam vender mais e mais sua praga descartável, que prejudica muito mais o meio ambiente do que a produção de papel. Nós traças morreremos de fome se não fizermos nada pra impedir!”. Todos riam da traça velha e diziam que estava louca enquanto se fartavam nas bibliotecas.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Corrida com o tempo


 

Para Leandro Laureti

Estive pensando sobre o tempo.

Pedi a ele que quando passasse, que viesse enfeitado, cheio de luzes, para que eu pudesse olhar minuciosamente, segundo a segundo.

Olhei para a cadeira ao lado e vi uma moça com os olhos distraídos, querendo que o tempo passasse logo. Estava apressada.

Um dia desejei que passasse rápido, num tempo longínquo em que passava o tempo brincando de verbo de ligação. Mas meu desejo foi curto. Em pouco tempo voltei a querer vê-lo de perto.

O peito estava agora atravessado com grande expectativa. Com medo que ele passasse rápido e eu sequer tivesse tempo de vê-lo passar.

Lá vinha o tempo a galope.  Sim, ele passaria rápido! Tentei manter os olhos muito abertos, não piscava, pois sabia que se trataria de um flash.  No minuto mesmo em que ele passou por mim, agarrei-o pelas orelhas e subi em seu lombo. O coração parecia ter se dividido em pequenos fragmentos e pulsava nas extremidades do corpo. 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Eu, a verdade, falo[1]


Dedicado à Santa Histeria, que é mais poderosa que São Recalque.

 A ela que nos obriga a ver com o corpo aquilo que os olhos não querem.

 

Dias atrás estava lendo Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago. Ainda estou. Não sei se um dia vou poder dizer que acabei de ler. E, aproximadamente, a pouco mais de uma semana, lia a parte que conta sobre o incêndio que acontece no manicômio em que os cegos estão confinados, com sua cegueira branca. Confesso que já estava tendo dificuldades com todas as misérias imagináveis num mundo em que de nada serve ter olhos se não é possível ver. A cada cena descrita, a cada lágrima de cada personagem vagando a esmo na solidão de si mesmo, chegando às raias da inumanidade, da imundície, da exploração, do desespero, por não ser possível ver, minha dificuldade aumentava.

domingo, 27 de janeiro de 2013

O melhor emprego do mundo




Outro dia fui à biblioteca devolver um livro. Era um compêndio de psiquiatria enorme e muito pesado, meus braços já estavam ficando moles de carregá-lo. Quando me encostei ao balcão para devolvê-lo encontrei um bibliotecário que devia contar com um pouco mais de 60 anos. Era um senhor de olhos azuis que brilhavam, mas notei que o brilho não era por causa da cor. Eram dois olhos contornados por uma rede de pequenas fendas, umas paralelas, outras entrecruzadas. Sobre seu nariz pousava uns óculos de aros escuros com o fio de silicone envolvendo a nuca do bibliotecário.

Lembrei que quando comecei a usar óculos, eu queria usar a cordinha, mas alguém me disse: “isso é coisa de velho!”. Achava o máximo deixar os óculos caídos despretensiosamente sobre o peito. Hoje penso que isso não é coisa de velho, é coisa de quem não pode ficar longe da possibilidade de ver o mundo pelo avesso, com mais nitidez. Eu estava falando do brilho dos olhos dele. Então, não vinha do azul, nem da juventude. O brilho vinha de uma gritante curiosidade pelo saber. Quando eu cheguei ele estava folheando “A história da loucura”, de Foucault. Havia uma pilha de livros devolvidos e o bibliotecário, sábio que era,

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Entrevista concedida ao CRP/MS



COSTURANDO PALAVRAS

Entrevista concedida ao CRP/MS – publicada na Edição III - 2012

Costuradora de palavras por opção. Essa é a definição que a psicóloga Isloany Machado faz de si mesma no perfil de seu blog. Não por acaso, o blog em questão foi batizado de “Costurando Palavras” (www.costurandopalavras.com.br), e nele, Isloany compartilha com os internautas questões relacionadas ao cotidiano sob uma perspectiva diferente, que ela costuma chamar “do avesso”. Segundo a psicóloga, os textos são contos, ficções curtas e cartas “abertas” à pessoas que considera importantes, e que fizeram diferença em sua trajetória, como o poeta da terra, Manoel de Barros.

Além disso, a atividade como psicóloga, conforme Isloany, a ajuda na escrita. “Acho que de tanto ouvir histórias e também de tanto falar das minhas (em análise), de ver as histórias sendo reescritas, recontadas várias e várias vezes, e a cada vez diferente, eu percebi que podia sair por aí inventando também outros contos”, revela.

CRP14- Como surgiu a ideia de criar o blog?

Isloany - Eu sempre gostei de escrever, mas nunca havia me arriscado a textos que não fossem sobre teoria, artigos ou outros trabalhos de graduação e pós-graduação. No início deste ano tive uma perda familiar e nos dias em que isso ocorreu, estava lendo um livro de Clarice Lispector chamado “Água Viva”. Algumas partes me chamaram muita atenção e, a partir disso, tive a ideia de escrever um texto sobre a perda sofrida em conexão com este livro, foi uma forma de aliviar a dor. Depois disso, comecei a ter outras ideias e então, meu esposo me disse: “Por que você não cria um blog?”. Inicialmente eu achei a ideia estranha, pois existem muitos e muitos blogs. Também fiquei com receio de não ter ideias suficientes para escrever mais, mas não foi isso o que aconteceu, pelo contrário, tem me impulsionado a escrever mais e mais. Comecei a gostar cada dia mais de escrever e os textos foram se avolumando, assim, de um grito de dor, a escrita tornou-se um novo amor.

 

CRP14 Que objetivo você pretendia alcançar como blog? Tinha em mente atingir um determinado tipo de leitor?

Isloany - O objetivo inicial era de escrever textos que tivessem conexão com a psicanálise, acho que poderia ser uma forma de falar mais levemente de conceitos que às vezes parecem muito difíceis, e assim divulgar a psicanálise lacaniana fugindo um pouco da escrita científica. Na verdade, era escrever para reinventar algumas coisas. Como os textos sempre tinham alguma pitada de psicanálise, o público que imaginei atingir foi de psicólogos e psicanalistas. Mas como a internet é um fenômeno pra mim ainda inexplicável em termos de expansão de informações, alguns textos acabaram sendo lidos por pessoas de outras áreas que vinham me dizer que gostavam de ler mesmo quando tratavam de coisas específicas de psicanálise. Muitas ideias começaram a brotar e comecei a escrever outros tipos de texto.

 

CRP14 - Como você definiria o tipo de texto que publica, são crônicas, contos...?

Isloany - Eu também me fiz esta mesma pergunta. Daí fui estudar teoria literária e descobri que alguns são crônicas (a maioria), pois tratam de questões do cotidiano sob outro olhar, que eu costumo chamar “do avesso”. Outros são contos, ficções curtas, que pudessem ser adequadas a um blog. Também escrevo cartas “abertas” a figuras que considero importantes, isso é uma maneira que encontrei de homenagear pessoas que fizeram diferença na minha trajetória.

 

CRP14 - Onde você busca inspiração para escrever os textos?

Isloany - Acho que uma das coisas fundamentais que sempre me deram inspiração é a leitura, que faz expandir as ideias, aumenta nossa capacidade de “viajar” por outras possibilidades. Tenho lido desde livros até bula de remédio. A outra coisa é a percepção de que toda história é inventada, então, posso escrever e reescrever do jeito que eu quiser, tanto as histórias dos outros quanto as minhas. Como dizia Manoel de Barros, “tudo o que não invento é falso”. Há também uma forcinha do inconsciente...tem dias que acordo com uma ideia depois de ter sonhado alguma coisa. Levanto, saio correndo, lavo os olhos e vou escrever.

 

CRP14 - De que forma a formação em Psicologia contribui nesse trabalho?

Isloany - A formação em Psicologia e, principalmente em Psicanálise que faço participando das atividades do Ágora Instituto Lacaniano e pelo Fórum do Campo Lacaniano de MS, me ajudaram a estabelecer um modo de estar no mundo. Isso quer dizer que a teoria psicanalítica não é apenas uma ferramenta que utilizo para trabalhar em meu consultório durante o horário de expediente e ponto. É mais do que isso, creio que seja uma forma de olhar o mundo, pelo avesso. O conceito fundamental da psicanálise é o inconsciente, que seria aquilo que está nos intervalos da razão cartesiana, pertence a uma outra lógica, tanto é que Lacan subverte o cogito cartesiano “penso, logo sou” por “penso onde não sou”, ou seja, é lá onde não pensamos, onde a razão resvala, que está o sujeito do inconsciente. Assim, deixando falar esse sujeito do inconsciente é que surgem besteiras literárias interessantes, a partir deste olhar o mundo pelo avesso da lógica cartesiana. Tem uma célebre frase de Clarice Lispector em que ela diz querer verdades inventadas, e eu acho lindo isso, e acredito que tem tudo a ver com o conceito de realidade psíquica descrito por Freud. Nós seres de linguagem, somos todos criadores de histórias, as palavras nos permitem isso, criar. E se nós criamos nossas próprias histórias, podemos também recriá-las, reescrevê-las. Não é isso um processo analítico/terapêutico? Cito mais uma vez Manoel de Barros: “escrever, escrever, escrever, até ficar diferente”.

 

CRP14 - E a atividade da escrita, também ajuda em seu trabalho como psicóloga?

Isloany - Acho que é o contrário, a atividade como psicóloga me ajuda na escrita. Acho que de tanto ouvir histórias e também de tanto falar das minhas (em análise), de ver as histórias sendo reescritas, recontadas várias e várias vezes, e a cada vez diferente, eu percebi que podia sair por aí inventando também outros contos.

Mas a atividade da escrita tem me ajudado sim em outra coisa: no curso de mestrado. Escrever ficção ajuda a “soltar” as palavras para a escrita científica.

 

CRP14 - Tradicionalmente, as pessoas não costumam associar a Psicologia com a Literatura. Você acredita que essa sua iniciativa é também uma forma de fazer a diferença dentro da profissão?

Isloany - Um dia uma amiga me perguntou por que eu achava que havia tantas conexões possíveis entre a psicanálise e a literatura. Respondi a ela o que penso: ambas, psicanálise e literatura falam das paixões humanas, ódio, desejos, sofrimento, entre outras coisas. Por isso é possível fazer tantas conexões. É claro que a psicologia, ou a psicanálise, são teorias que propõem métodos e técnicas de intervenção, há uma clínica, trata-se de ciência, mas é a ciência do avesso. E Freud recorreu muito à literatura para construir sua teoria. Ele citou poetas em seus escritos, utilizou a história de Édipo para teorizar sobre o famoso complexo que leva o nome deste personagem, escreveu sobre um livro do Schreber para falar de psicose. Freud ganhou um prêmio de literatura. Lacan falou de Hamlet, personagem de Shakespeare, falou também sobre o escritor James Joyce, dentre outros. Assim, a psicanálise influenciou muito também a literatura, principalmente da modernista em diante. Então acho que esta associação não somente é possível como é bastante utilizada.

E eu? Eu não fico dividida entre psicanálise e literatura, elas não são ciumentas, eu fico acrescentada por ambas, assim como meu trabalho. Escrevo em prol da psicanálise, da literatura, e de mim mesma, já que isso tem me ajudado muito a contornar aquilo que é incontornável. Se isso fizer diferença dentro da profissão, ficarei bem feliz.