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segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Carta 1 - Valsa da Vida*

*Inspirado no texto "Os ombros suportam o mundo" de Carlos Drummond de Andrade
 
Para meu sobrinho Henrique


 
 
Chega um tempo em que a vida é olhada de trás pra frente. Em que algumas ficções parecem absurdas demais.
Chega um tempo em que encontramos a ponta da cortina que encobre o real. Depois disso, descobrimos que somos mortais, estupidamente mortais.
Algumas vezes a cortina da vida se escancara em nossa frente e nós, desarvoradamente, tentamos puxá-la de volta. A cada minuto, a cada segundo.
O tempo passa, a poeira vai ficando cada vez mais grossa nos cantos, entre uma palavra e outra.
Reunimo-nos e tentamos renovar os sonhos, as crenças, os laços.
Fazemos promessas a nós mesmos, diante de testemunhas familiares.
F-A-M-I-L-I-A-R-E-S
A cada reencontro notamos como tudo é tão familiar.
Batemos de frente com tudo aquilo que é familiar, é velho conhecido, acostumado.
Às vezes é preciso ir para o estrangeiro, para tentar construir um outro, diferente.
Os laços se revelham para se renovar. 
Relançamos a vida, dançamos a valsa da infinitude, mas a ponta da cortina às vezes se prende aos nossos pés e caímos. Mas levantamos, é preciso dançar a valsa até o fim. É um dever.
Chega um tempo em que perdemos a fé, mas nem por isso ficamos tristes. As ficções se renovam também, criamos outras, novas, inéditas.
Acreditamos em algo para que os que vierem depois não percam a capacidade de criar.
Chega um tempo em que nossa prece diz pouco, e, sem saber pra quem, pede que nunca percamos a capacidade de nos reinventar.
Mas até que a prece fale pouco, o que queremos é que tudo se apresse. Gritamos até que a voz fique rouca. Dasarvoradamente pedimos que a prece se apresse.
 Ao ouvirmos os ecos de nossa voz, aprendemos então a nos reinventar. Não voltamos a acreditar nas velhas coisas, mas em outras.
Chega um tempo em que aprendemos a acreditar na vida, mesmo com a cortina lá, no canto empoeirado dos vãos das palavras.
Mesmo que sejamos estrangeiros sempre, há um'alíngua cujos verbos conjugamos familiarmente. Assim a vida se renova. A cada novo membro.
Chega um tempo em que, mesmo sabendo das impossibilidades de suprir o desamparo, ainda assim criamos um ninho bem feito de palavras para cada novo membro.
Seja bem-vindo ao nosso ninho Henrique! Desejo que faça peripécias com cada fiapo desse ninho, que o destroce e que você aprenda a voar, e a se reinventar sempre, criando outros ninhos, quantos forem necessários.
Isloany Machado, 26 de dezembro de 2012.
 
 

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