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segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Por que você?




Algumas coisas não têm explicação, não precisam ser explicadas. Não foi o que ouvimos esses dias? Rimos muito disso naquele contexto... Acho que o melhor é poder rir ao seu lado. Me parece verdadeira essa história de que algumas coisas não têm explicação, mas isso não me impede de devanear. Eu estava outro dia pensando e tentando quantificar o número de pessoas que vivem nesse mundo. Não consegui imaginar, mas imediatamente pensei que no meio de tanta gente eu escolhi você. Já sabe que eu não sou muito romântica, dificilmente escrevo sobre o amor. Lacan dizia que a relação sexual não existe. É uma maneira de dizer que dois não fazem um. Não há completude. Então, o amor também é construção, é ficção, nem por isso deixa de ser verdadeiro. Assim, você não é a tampa da minha panela, menos ainda a metade da minha laranja. Você não me completa. Ainda bem, pois se completasse, eu ia querer outra coisa. Você me descompleta e, assim, me permite voar. Voando eu consigo ouvir o sibilar do vento ao atravessar meu peito. Ouvindo o barulho do vento no vazio de mim mesma, consigo ouvir meus pensamentos inconscientes. Com isso posso pegar a caneta e escrever.

Não, você não é meu muso inspirador. Deixo esta expressão para os poetas. Mas eu não consigo mais imaginar como seria minha vida se não tivesse você para dividir as alegrias, os fracassos, as perdas, as conquistas, as laranjas e as contas. Sobretudo não saberia mais como é viver sem compartilharmos nossas solidões. Obrigada por juntar sua solidão com a minha. Mas você se lembra que isso de dividir e compartilhar foi desde o começo né? Na primeira vez que saímos, dividimos o X-salada e a tubaína. O que mais eu tinha a oferecer? E o que você tinha pra me dar? NADA.
O nada não é a ausência radical. O nada não deixa de ser uma presença. O nada é o que nos permite inventar, criar. Quando agradecemos alguém dizendo: “obrigada” e a pessoa responde: “De nada”, ela não está dizendo que não foi nada. Ela está dizendo que fez o possível, ou até um pouco mais. Peguei o nada que você me deu e me tornei uma pessoa melhor. Então, o nada que me deu é o que me repleta de palavras. Vargas Llosa disse que o escritor inventa histórias que não pôde viver. Por isso não falo de amor, porque esta é uma ficção que não preciso mais inventar. E quanto à pergunta inicial: “por que você?”, porque você se tornou minha morada.

Isloany Machado, 14/12/2012.

14 comentários:

  1. Precisamos esquecer Lacan para autenticidade conosco. Repetir Lacan, Sei, é maneira genunina de caçar rumo (aqui assim se diz). Mas silenciosamente se estaria revestindo toda, em vez de... como dizer? Não direi. Não quero ser rude. Mas o ensino freudo-lacaniano não 'costura palavra' para fazimento de sentido. Sentido, não há dele necessidade para harmonia sub sole.

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  2. Caro anônimo, realmente "o ensino freudo-lacaniano não costura palavra para fazimento de sentido", mas costurar palavras foi a maneira que eu encontrei para tentar ludibriar o Real. O sentido é volátil e depende da maneira como você arranja as frases. O Real é implacável, só podemos tentar enganá-lo. Citar Lacan é minha maneira de me revestir, assim como citar Llosa, Flaubert, Balzac, ou qualquer outro que tenha registrado suas palavras à tinta. Clarice Lispector disse que é preciso viver assim meio que de soslaio, eu poderia dizer, usando suas palavras, revestindo-se com palavras para lidar com as dores de existir. Why not? ;)

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  3. Adorei seu livro...Parabéns...Você relamente e tudo e um pouco mais do que sua criadora falou... Beijos, sucesso.

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  4. cláudia zanata,Sorriso Mt30 de dezembro de 2012 10:11

    Amei também seu texto "Por que você?". Esta semana meu namoro atingiu a maioridade, 14 anos de casada e 4 de namoro. E realmente amor é dividir tudo, é sempre buscar mais e ter muitas histórias para contar, sejam de tristezas, alegrias ou dificuldades. Nunca seremos completos e é isto que torna a vida possível.
    Obrigada, tomarei seu texto como meu presente para o aniversário de casamento deste 2012. Beijão, Cláudia

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  5. Um texto inspirador. Conseguiu colocar em palavras oque eu não havia conseguido formular ainda, mas havia sentido e vivenciado, do amor. Quando você cita o "nada" (adoro citar isso também, sob o nome de "vazio"), é como aquele papel em branco, que enfrentamos para colocar sentidos no mundo, e você preenche o seu papel de forma poderosa neste texto. Parabéns!

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  6. Confesso que fiquei curioso quando me dissestes que gostavas de escrever. Não gosto muito da internet, mas pus me a procurar o costurando palavras, amei, tens um jeito muito provocador de escrever, gosto disso. Parabens

    Paulo Sérgio tio de nei e da Elen

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    1. Olá Paulo! Que bom que vieste. Aprochegue-se e seja muito bem vindo. Obrigada pelas palavras.

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  7. Daqui de Maceió, sempre lendo seus textos...
    Continue a costurar as palavras, que por sinal fazes tão bem.

    Abraços
    Emanuella Velez

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    1. Emanuella, muito obrigada pelo elogio! Seja sempre bem vinda aqui!!!

      Abraço

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  8. Cláudia, estou virando fã dos textos! Muito lindo! E aposto que deve ser gratificante quando terminas um texto e vê que aquilo saiu de ti, e que transmite exatamente o que querias. Mais uma vez, obrigada! E o livro, quando será lançando no RS? Esperando ansiosamente!

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    1. Oi Clara, obrigada!!! Escrever tem me feito muito bem sim, como disse Manoel de Barros "delírios verbais me terapeutam". Em março vou lançar em Fortaleza, num evento que vou participar da Escola de psicanálise em que faço formação. Tenho feito assim,então, de repente se surgir uma oportunidade, ficaria muito feliz em ir ao RS!!De repente algum evento literário também, quem sabe?! Mas se vc tiver interesse em comprar, pode entrar em contato comigo no email: isloanymachado@gmail.com que eu te mando pelo correio, frete grátis!!! Abraço

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