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segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Balzac é melhor do que Prozac



Depois de ler Madame Bovary, quis saber que obra era aquela que inspirara Flaubert a criar uma personagem tão perfeitamente parecida com aquelas que deram origem à psicanálise. Dizem que foi influenciado pela literatura balzaquiana de A mulher de trinta anos. Fui então a ela, a essa tão famosa mulher de 30! Ao lê-la me deparei com uma mulher que sofria calada, não muito diferente de Ema Bovary, cujo marido somente soube de suas insatisfações a posteriori. Júlia, a marquesa d’Aiglemont, era infeliz no casamento, pois também se decepcionara com as qualidades do marido e com a desatenção dele para com ela.

O fato é que encontrei n’A mulher de trinta anos, o fantasma das mulheres belas, delicadas, finas, femininas e...insatisfeitas. Balzac é mais sutil do que Flaubert na descrição dos desejos e dos prazeres vividos pela mulher. Não é à toa que Madame Bovary, obra considerada realista, causou tanto espanto ao ser publicado. Balzac descreve as mulheres quase que como seres superiores cujo sofrimento as faz sublimes, pelo jeito Balzac parecia ser daqueles homens que veem beleza nas mulheres de semblante melancólico. Tenho que confessar que gostei mais de Ema do que de Júlia. Ema era uma mulher que se envolveu em relações devastadoras. Júlia, pelo que fica subentendido, também teve lá seus romances, mas era uma mulher contida. Ema morre de amor, Júlia chega à velhice e seus sentimentos não são tão bem explorados por Balzac, que se prendia mais aos aspectos concernentes à sua beleza.

Quando Flaubert estava em seu julgamento por causa da obra que publicara contando a história de Ema Bovary, foi interrogado sobre quem lhe teria inspirado tal mulher. Ao que ele respondeu: “Madame Bovary” sou eu! Fiquei a pensar nisso que ele teria dito, não sei se é verdade, mas supus que somente alguém que vivesse essa história na carne seria capaz de tamanha riqueza de detalhes, ou não. Já não sei mais. Mas fora os gostos pessoais, o que pude notar como fio condutor desses dois livros foi a questão do sofrimento e da insatisfação femininas. Nem as balzaquianas e nem as flaubertianas chegaram ao divã de Freud, mas foram exatamente essas mulheres que o inspiraram a tentar saber de que se trata neste sofrimento e nesta insatisfação.

Me lembrei de uma história familiar que ouvi certa vez, era assim. Uma senhora de aproximadamente 50 anos tinha seis filhas. Estas filhas se casaram e também tiveram filhos, o fato é que a cada vez que nascia uma menina, aquela senhora sentenciava: “Oh, meu deus! Mais uma menina pra sofrer nesta vida!”. Os anos passaram e todas as mulheres daquela família, com uma doce obediência puseram-se a sofrer por toda a vida. A que dera início a esta tradição familiar já morrera, mas sempre que nascia mais uma menina, as outras mulheres punham-se a dizer: “Como diria dona Fulana, ‘Mais uma menina pra sofrer nesta vida!’”. E assim era a tradição das mulheres desta família.

Depois que lembrei dessa história, bem como de ter lido dois grandes clássicos que falam sobre o feminino, depois de ter pensado nas mulheres do divã de Freud, e nas mulheres da atualidade, pensei que esta insatisfação é algo que as mulheres carregam há um bom tempo. É preciso dizer que obviamente há fatores sociais implicados na questão feminina, antes que alguma feminista me condene por minhas palavras. Mas quando imagino uma balzaquiana e uma mulher da atualidade vejo tantas diferenças em alguns aspectos, mas tantas semelhanças em outros.

As balzaquianas viviam às voltas com as obrigações conjugais, familiares, eram, por assim dizer, presas a muitas convenções sociais relacionadas ao casamento, que era pra vida toda, não trabalhavam fora de casa como os homens. As mulheres de hoje trabalham, têm seu próprio dinheiro, muitas não dependem em nada do cônjuge, estão às voltas com outras questões: diferenças salariais, assédio sexual no trabalho, violência doméstica, dentre outros. Algumas dependem financeiramente, mas hoje não estão mais tão presas, por exemplo, à obrigatoriedade de manter um casamento com o qual não estão satisfeitas. Mas continuam, por assim dizer, insatisfeitas com outras coisas. Como se aquela senhora da história que contei fosse uma grande mãe, uma Eva, como na metáfora bíblica, que lançou as sementes deste sofrimento. É como se mesmo àquelas mais realizadas, sempre faltasse uma coisinha, que ela denuncia com aquele traçozinho melancólico tão adorado por Balzac.

Freud morreu sem saber o que querem as mulheres e Lacan complicou mais ainda a situação ao dizer que é preciso saber o que quer A mulher, ou seja, é preciso tentar sabê-lo uma a uma. Isto implica que não há uma resposta para aqueles que tentarem encontrar a solução deste enigma. A mulher é uma esfinge de mil cabeças, não há como decifrá-las todas. E elas continuam a dizer com sua insatisfação: “(não) decifra-me ou te devoro!”. É o mesmo que dizer: “Não me dê o que te peço, porque não é isso o que quero!”. Balzac disse no século XVIII: “a mulher possui incontáveis atrativos e oculta-se sob mil véus; enfim, ela acalenta todas as vaidades”. Como sabemos, não há objeto que satisfaça o desejo, então aquele que se mete a querer satisfazê-lo, já não será mais desejado. Com tudo isso, descobri que ler Balzac é um prazer, muito melhor do que tomar prozac.
Isloany Machado, 14 de junho de 2012.

Um comentário:

  1. Só existe uma libido, e ela é fálica. Das/ Weib é um universal, não possui particularidade para ser desejada e sequer estatuto para desejar. Ela é quando muito causa do desejo macho, que deseja em vão. Não há desejo satisfeito. Há quereres que se baldam. Basta! A essa vida besta.

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