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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

A ciência moderna e o belo


Outro dia vi um moço com o cabelo cheio de cachinhos miúdos. A visão me chamou a atenção por seu aspecto diferente. Imediatamente avessei meu pensamento e em seguida fiquei tentando saber o porquê de aquele cabelo ter chamado tanto minha atenção. Lembrei que esses dias estava às voltas com a ciência moderna. Este modelo de ciência teve como ícone René Descartes, filósofo francês que propôs “purificar” o método do conhecimento científico. Os conceitos científicos tinham que ser “claros e distintos”, as paixões humanas foram relegadas a segundo plano: “meu espírito é um vagabundo que gosta de se perder e não poderia suportar que o prendam nos justos limites da verdade. Soltemos-lhe, pois, mais uma vez as rédeas e, dando-lhe todo tipo de liberdade, permitamos-lhe considerar os objetos que lhe aparecem externamente, para que, vindo mais tarde a retirá-la lenta e convenientemente e a detê-lo na consideração de seu ser e das coisas que encontra em si mesmo, ele se deixe depois disso mais facilmente governar e conduzir.” (DESCARTES, 1641/2008, p. 93). Era preciso governar este espírito vagabundo. Com a influência destes pressupostos, surgiu um leque de possibilidades teóricas que, em sua aplicação, varreram das ruas os loucos, os doentes, e tudo aquilo que destoasse da retidão proposta pela ciência moderna.

Daí, lembrando dessas questões, entendi meus motivos para olhar mais detidamente para o cabelo dele. Também por influência deste modelo de pensamento, estabelecemos o belo em nossa cultura. Explico já de que forma. Tais são os imperativos do belo:

1. Se você tem o nariz calombudo, é preciso extirpar o calombo com uma cirurgia plástica! Deixá-lo reto!

2. Se perdeu um dente, coloque um postiço! Não é possível lidar com os buracos!

3. Se os dentes são tortos, meta-lhe ferros ortodônticos! Não se pode conviver com dentes tortos!

4. Se os peitos são pequenos, metemo-lhes silicone! Se são muito grandes, a faca! O mesmo para as nádegas. Têm que ser proporcionais.

5. Os excessos da barriga, lipoaspiramos, para que fique reta!

6. Para a coluna torta, colete ortopédico que corrige a postura!

7.  Nas mulheres, mais que nos homens, os cabelos têm que ser retos, não podem ser crespos!

8. Se há rugas, estique-as! A pele tem que estar lisa, reta!

9. Se os cabelos estão brancos, pinte-os! A velhice não pode ser denunciada!

            Assim é que o belo comporta aquilo que é reto, claro, e muito distinto em nossos ideais propostos pela modernidade. Mas a ciência não contava com as explosões do que foi varrido para debaixo do seu tapete! Podemos tentar tapar os buracos, desentortar os dentes e a coluna, retificar o nariz, a barriga e os cabelos, mas depois de fazê-lo, sempre desejamos outra e outra coisa, e sofremos, e nos angustiamos com os vazios que persistem. O desejo é soberano. Não estou dizendo isso tudo para afirmar o que é certo ou errado, ou o que eu acho belo ou feio, não se trata disso. É que eu sempre ouço críticas à psicanálise dizendo que só considera o indivíduo, exclui o social, etc. Mas cada um carrega em sua história traças de uma época. Notei agora que cometi um lapso feliz, escrevi “cada um carrega em sua história TRAÇAS de uma época”, ao invés de dizer TRAÇOS. Decidi não corrigir porque é assim que o inconsciente se manifesta. O ato falho é um ato bem-sucedido: uma história carrega traços e traças. História é história, não separamos individual e social. O individual não passa de um recorte que cada um faz a partir de seu desejo inconsciente. Uma pessoa pode chegar à clínica com um sofrimento muito grande por causa de um nariz torto, ou com os deboches que ouviu sempre por causa de um cabelo crespo, por exemplo. É claro que os motivos não são únicos, mas os ideais do belo também cruzam alguns sintomas. Aí está a influência dos ideais da ciência moderna em nossa clínica. Não se pode compreender um indivíduo se não trabalharmos tal qual um arqueólogo, como diria Manoel de Barros, escavando e escovando palavras.

Bibliografia Consultada

Barros, Manoel de. Memórias Inventadas: As Infâncias de Manoel de Barros. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2010.

DESCARTES, René. Discurso do Método: Meditações. São Paulo: Martin Claret, 2008.



Isloany Machado, 22 de maio de 2012.

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