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segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Madagascar, um ensaio sobre o desejo



Outro dia uma pessoa riu quando eu disse que adorava filmes infantis. Digo de novo: adoro filmes infantis! Aprendo muito com eles, inclusive sobre psicanálise. Esses dias, assisti o último da trilogia Madagascar: Os procurados. Para quem não assistiu nenhum dos três, vou fazer um breve resumo. As personagens principais moram num zoológico, nada mais, nada menos que o Central Park, em Nova York/EUA, e são: Melman (uma girafa macho, hipocondríaca), Alex (um leão vaidoso, estrela mor do zoológico), Glória (o hipopótamo, fêmea e graciosa, mais corajosa do que os machos) e Marty (uma zebra macho, cujo maior desejo é sair do zoológico e conhecer a natureza).

            Toda a história começa com o aniversário de Marty que, na hora de fazer o pedido ao cortar o bolo, pede para sair do zoológico e conhecer a natureza. Na primeira oportunidade, literalmente cavada pelos pinguins moradores do zoológico também, Marty, movido por seu desejo, foge. Seus amigos temem por sua segurança e vão atrás dele. São apreendidos pela guarda local e, devidamente acomodados em caixotes, são mandados de volta para o zoológico. Algo dá errado no caminho e eles caem no mar. Todos sobrevivem, mas vão parar na ilha de Madagascar.

            Acontece que nenhum dos quatro conhecia a natureza antes e agora precisam lutar para sobreviver na selva, arranjar o próprio alimento e essas coisas que os animais selvagens fazem. De todos, o único que está feliz, muito feliz, é Marty, afinal seu desejo estava se realizando. Os outros três estão apavorados. Alex, o único carnívoro, tem sua civilidade/animalidade colocada em xeque. No zoológico comia bifes que eram lançados para ele diariamente, mas agora, até seus melhores amigos são possibilidades de comida fresca. Alex enfrenta um conflito ético em relação à sua dieta alimentar. Ele não é um assassino, mas por outro lado, precisa comer carne. Seus amigos tentam remediar a situação oferecendo-lhe peixes. Depois de enfrentar muitas dificuldades na ilha, percebem que não é isso o que querem. O desejo evanesce quando se alcança o objeto desejado. Saem da ilha de Madagascar com um avião trazido pelos pinguins.  

 No segundo, os bravos animais retornam às suas origens. Eles “caem” de avião na África, onde encontram seus pares. Mais do que isso, retornam literalmente às origens, conseguem ter recordações da infância e de suas histórias familiares. Alex, por exemplo, consegue recordar-se de como foi raptado por caçadores que o venderam e assim, descobre como se separou de seu pai e foi parar no zoológico. No encontro com seus pares, cada um deles deveria agora estar feliz, pois ficariam identificados com outros iguais a eles, mas não é o que acontece.

Eles acabam ficando mimetizados entre os outros, que são muito diferentes deles. Alex é o que mais sente a perda da posição de destaque que ocupava no zoológico, lá ele era Rei. O que havia se tornado? Mais um entre outros e, para piorar a situação, era um leão com excesso de conflitos éticos que não sabia caçar, rugir para assustar de verdade. Ele não passava de um leão dançarino, um bobo. Além de tudo, Alex precisa se confrontar com a queda de sua posição narcísica. De Rei, ele é reduzido a um resto, um nada. Seus amigos, sem saber como consolá-lo, fazem na areia uma escultura reproduzindo o zoológico Central Park, mas não é a mesma coisa. O objeto está perdido desde sempre e todo o resto será mera representação satisfatória. Mais uma vez a decepção, pois não é isso o que querem.

            No terceiro estão tentando a todo custo retornar para o Central Park, pois acreditam que lá é o lugar deles, alucinam o objeto perdido. No caminho de volta pra “casa”, passam pela França, pegam carona com o trem de um circo que só tem animais, não tem humanos. Estão todos – os quatro mais os animais do circo – à mercê do próprio fracasso. Este circo já foi bastante famoso, mas uma fatalidade ocorreu com o tigre (o grande astro do circo). Vejam que os felinos são os maiores astros da trilogia.

O Tigre atravessava argolas incandescentes com mestria. No espetáculo, as argolas começavam grandes e iam diminuindo até não passarem de um pequeno anel, pelo qual o tigre passava com o louvor do público. Mas como sua ambição era grande, um dia colocou uma argola muito pequena e besuntou-se de azeite para poder escorregar pela argolinha com mais facilidade. Pelo excesso de azeite e por causa da argola incandescente, o tigre teve o corpo queimado e nunca mais conseguiu superar o fracasso diante do público. Há um conflito narcísico também com este pobre felino. Depois deste episódio, o circo começou a perder público até quase falir.

No encontro com os quatro viajantes, algo reacende nos circenses, talvez desejo pelo desejo do outro, não sei, mas conseguem reerguer o circo. Todos participam dos espetáculos e o tigre volta a fazer seu número, substituindo azeite por condicionador de cabelo. Agora estarão os quatro satisfeitos? Não. Eles querem retornar ao zoológico, a casa deles. Querem retornar àquele paraíso de gozo, perdido com a partida para a natureza. Atravessam a Europa e, não me perguntem como, chegam ao Central Park. Tudo está escuro e o lugar lhes parece bem menor do que se lembravam. Enfim, estão em casa, felizes e satisfeitos? Não. Mais uma vez, não é isso. Eles entram em apuros e são resgatados por seus amigos circenses, passam a viver com eles, viajando por vários lugares. Uma vez ouvi dizer que um sujeito desejante é um sujeito viajante, que está sempre com as malas prontas para uma nova partida. Assim foi que aprendi com esta trilogia infantil que sempre seremos estrangeiros em qualquer morada. É melhor que sejamos viajantes, sempre em busca de desejar, e não de realizar o desejo, pois este, ah, este não se realiza nunca!

Isloany Machado, 13 de outubro de 2012.

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