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segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Diálogo de mim comigo mesma sobre Cem anos de solidão


Virei a última página do livro e senti que esfarelava em minhas mãos depois da ventania que aquela história causou em mim. Ventos tão fortes e devastadores que não pude deixar de me perguntar:

- Isloany, onde é que você esteve durante todo o tempo em que não leu Cem anos de solidão? O que fez da sua vida até agora? Disse mim.

- Eu só queria ter fugido da devastação, mas algumas coisas são inevitáveis na vida. Ler este livro, por exemplo, é uma das coisas indispensáveis, apesar de meus olhos terem se enchido de poeira depois do vendaval. Afirmei comigo mesma.

- Isloany, não há justificativa plausível para o fato de nunca tê-lo lido. Onde mesmo você estava? Por onde andou? Esbravejou mim com os olhos vermelhos de raiva.

- Provavelmente eu estive debruçada em livros de psicanálise tentando entender as neuroses, cujo núcleo é o romance familiar. A família é o núcleo da neurose, você sabia? Entendi isso depois de alguns anos desfiando e descosturando as linhas com as quais costurei minhas histórias familiares. Mas bem que Freud dizia que um artista sempre chega antes que o psicanalista. Isso e muitas outras coisas ficaram nítidas para comigo mesma depois de ler esta obra prima de Gabriel García Marquez.

- Ler este livro e não falar dele é o mesmo que nunca ter lido. Murmurou mim depois que terminei de ler.

- Eu preciso mesmo dizer? Foi o que perguntei, ainda relutante, pois o coração estava dilacerado ao fim da história daqueles cem anos.

- Você quer que te ajude? Mim perguntou já com os olhos mais brandos e complacentes para comigo mesma.

- Sim, eu gostaria muito, pois sozinha não conseguiria dizer todas as coisas que gostaria em relação a ele. Respondi.

- Façamos o seguinte: eu pergunto e você responde, pode ser?

- Ok. Assim ficará melhor.

Mim: Conte-nos, comigo mesma, de que se trata esta obra chamada Cem anos de solidão.

Comigo mesma: Este livro é do escritor colombiano Gabriel García Marquez, um clássico da literatura mundial que ganhou prêmio Nobel de literatura em 1982. Ele conta a história de uma linhagem familiar que teve sete gerações. A origem de tudo se deu a partir do casamento entre dois primos: José Arcádio Buendía e Úrsula Iguarán. Úrsula não queria casar com o primo, pois achava que seus filhos nasceriam com rabo de porco. Mesmo assim, tiveram três filhos (segunda geração): José Arcádio (que vai embora de casa junto com uns ciganos que andavam pelo povoado esporadicamente), Aureliano Buendía (batizado com o nome do avô paterno, torna-se um Coronel e apoia o partido liberal) e Amaranta (uma dona de casa que nunca quis se casar em por quem os homens literalmente morriam). Depois de muitos anos adotaram, meio sem querer, Rebeca, que passou a ser como irmã de Amaranta e Aureliano. Mas não de José Arcádio, que havia ido embora e, quando volta, não reconhece Rebeca como irmã e casa-se com ela.

            A terceira geração foi composta por Arcádio (filho de José Arcádio com Pilar Ternera), Aureliano José (filho de Aureliano também com Pilar Ternera) – ou seja, são primos-irmãos. Além dos dois, Aureliano Buendía, o coronel, teve mais 17 filhos com mulheres diferentes, mas eles foram todos mortos.

            A quarta geração foi composta por Remédios, a bela (que era a mulher mais bela que a Terra já conheceu e subiu aos céus de corpo e alma, sem mácula); e os gêmeos José Arcádio Segundo e Aureliano Segundo – todos filhos de Arcádio com Santa Sofía de La Piedad.

            A quinta geração foi formada pelos filhos de Aureliano Segundo com Fernanda del Carpio: Renata Remédios (uma moça que se apaixonou por um operário e o romance foi proibido por sua mãe, Fernanda, que, ao descobrir que a filha se encontrava às escondidas com Maurício Babilônia, manda-a para um convento, sem saber que Remédios estava grávida); José Arcádio (mandado a Roma para se tornar Papa, mas sai do seminário assim que chega lá. Anos depois, quando volta pra casa, só farreia e pensa eroticamente em Amaranta, da primeira geração que cuidou dele na infância); e Amaranta Úrsula (uma moça que vai estudar na Europa, mas seu sonho é voltar para o vilarejo Macondo, fundado por José Arcádio Buendía, no qual toda a sua família viveu).

            A sexta geração foi representada por Aureliano Babilônia, filho de Renata Remédios e Maurício Babilônia. Quando sua mãe foi enviada ao convento, a família não sabia que estava grávida e quando o menino nasceu, mandaram-no para a casa da família. Quem o recebeu foi sua avó Fernanda, que escondeu o segredo do restante da família e por pouco não o matou afogado para se livrar dele. Trancafiou o menino num quarto até ser visto por seu avô, Aureliano Segundo. Tornou-se um rapaz ensimesmado a vida toda, até que se apaixonou por Amaranta Úrsula, que era sua tia, apesar de não saberem disso. Viveram uma paixão fulminante e tiveram Aureliano, o representante da sétima e última geração, que nasceu com rabo de porco.

            O livro trata de relações incestuosas que perpassam todas ou quase todas as gerações, entre primos e entre tias e sobrinhos. E há sempre a ameaça de que alguma criança nasça com rabo de porco. Úrsula, a matriarca, acompanha todas as gerações, pois morre muito depois dos cem anos. Ela sabia que fazia parte de uma “família de loucos” e impressionava-se com as repetições de seus descendentes. A certa altura da vida, Úrsula fica cega, mas mesmo assim, não consegue deixar de ver.

            Os que carregam o nome de Arcádio são mais vigorosos e brutos, enquanto os Aurelianos são mais pensativos e inteligentes. As mulheres despertam amores irracionais nos homens, que literalmente morrem por elas. O patriarca da família, José Arcádio Buendía, teve um grande amigo, Melquíades, que era cigano e morou um tempo na casa deles. Este homem escreve nuns pergaminhos a história dos Buendía, mas a escrita é feita em uma língua absolutamente desconhecida e alguns Aurelianos tentam decifrar, sem saber de que se trata.

            É somente Aureliano Babilônia quem consegue decifrar o que está escrito e percebe, tarde demais, que aquela era a história de sua família, e que ele se enamorara e tivera um filho com sua tia (morta no parto). A criança é devorada por formigas e ele, Aureliano Babilônia, é destruído pela ventania que carrega todo o vilarejo de Macondo. Há uma característica que marca todos os Buendía: o olhar solitário, a solidão. São cem anos de solidão.

Mim: Por que esta história te chamou tanta atenção?

Comigo Mesma: Isso tudo que contei sobre o livro não traduz nem 10% da riqueza que está contida nas palavras, em cada um delas, escritas pelo autor. É fantástico todo o delineamento que faz da trama familiar, das personagens paralelas que também são fundamentais na história. Tenho medo de não conseguir expressar todas as emoções que senti durante a leitura.

Mim: O que isso tudo tem a ver com Psicanálise?

Comigo Mesma: Como eu disse, a obra marca o romance familiar, as repetições, o peso do nome, mas marca, sobretudo, a solidão e o desamparo do ser humano. Este é o verdadeiro rabo de porco que nasce em cada um dos descendentes. Há solidão sozinha e solidão compartilhada, mas somente há solidões, na vida e na morte.

Mim: Bom, ficamos por aqui. Obrigada pela colaboração. Você teria mais alguma coisa a dizer para as pessoas?

Comigo Mesma: Que não deixem de ler esta obra fantástica; que não achem este resumo suficiente para contar esta história lindíssima de Cem anos de solidão; que entendam que a literatura evoca lágrimas e sorrisos, evoca por vezes nó na garganta, mas se faz indispensável, na medida que traduz a complexidade do humano teorizado pela filosofia, pela psicanálise, e por qualquer outra que se lance na tentativa de explicar qualquer coisa do que é demasiado humano: a solidão. Como alguém me disse uma vez, não se permitam morrer sem ter lido este livro.



Isloany Machado, 20 de novembro de 2012.

4 comentários:

  1. Oi Islo,e como o texto traz a complexidade das relações humana.bjs

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  2. Gostei muito,não vou me permitir morrer sem ler esse livro,rsrsrsrsrsrsrsr!

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  3. Bom dia Isloany,
    Cheguei até aqui por um compartilhamento que minha sobrinha também Psicologa fez de seu texto "Porque a Psicanalise" lá no face, li e cheguei até este post, onde você fala do Livro Cem Anos de Solidão. Li este livro há uns 30 anos atras, na primeira leitura, não foi muito fácil interpreta-lo, mas "apesar de..." gostei demais mesmo sem entender, por isso reli todo o livro novamente, é realmente um livro apaixonante, perde quem nunca o leu. Tenho o livro já bem velhinho guardado com muito carinho e sempre que possível, volto a ler novamente...Gostei de ter estado aqui e ler seus posts. Deixo o comentário aqui, porque nada entendo de psicologia, mas do livro como já li, ficou mais fácil comentar.
    Deixo abraços com carinho
    Marilene
    Marilene Folhas Flores e Sutilezas

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