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segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Diálogo de mim comigo mesma sobre Cem anos de solidão


Virei a última página do livro e senti que esfarelava em minhas mãos depois da ventania que aquela história causou em mim. Ventos tão fortes e devastadores que não pude deixar de me perguntar:

- Isloany, onde é que você esteve durante todo o tempo em que não leu Cem anos de solidão? O que fez da sua vida até agora? Disse mim.

- Eu só queria ter fugido da devastação, mas algumas coisas são inevitáveis na vida. Ler este livro, por exemplo, é uma das coisas indispensáveis, apesar de meus olhos terem se enchido de poeira depois do vendaval. Afirmei comigo mesma.

- Isloany, não há justificativa plausível para o fato de nunca tê-lo lido. Onde mesmo você estava? Por onde andou? Esbravejou mim com os olhos vermelhos de raiva.

- Provavelmente eu estive debruçada em livros de psicanálise tentando entender as neuroses, cujo núcleo é o romance familiar. A família é o núcleo da neurose, você sabia? Entendi isso depois de alguns anos desfiando e descosturando as linhas com as quais costurei minhas histórias familiares. Mas bem que Freud dizia que um artista sempre chega antes que o psicanalista. Isso e muitas outras coisas ficaram nítidas para comigo mesma depois de ler esta obra prima de Gabriel García Marquez.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Madagascar, um ensaio sobre o desejo



Outro dia uma pessoa riu quando eu disse que adorava filmes infantis. Digo de novo: adoro filmes infantis! Aprendo muito com eles, inclusive sobre psicanálise. Esses dias, assisti o último da trilogia Madagascar: Os procurados. Para quem não assistiu nenhum dos três, vou fazer um breve resumo. As personagens principais moram num zoológico, nada mais, nada menos que o Central Park, em Nova York/EUA, e são: Melman (uma girafa macho, hipocondríaca), Alex (um leão vaidoso, estrela mor do zoológico), Glória (o hipopótamo, fêmea e graciosa, mais corajosa do que os machos) e Marty (uma zebra macho, cujo maior desejo é sair do zoológico e conhecer a natureza).

            Toda a história começa com o aniversário de Marty que, na hora de fazer o pedido ao cortar o bolo, pede para sair do zoológico e conhecer a natureza. Na primeira oportunidade, literalmente cavada pelos pinguins moradores do zoológico também, Marty, movido por seu desejo, foge. Seus amigos temem por sua segurança e vão atrás dele. São apreendidos pela guarda local e, devidamente acomodados em caixotes, são mandados de volta para o zoológico. Algo dá errado no caminho e eles caem no mar. Todos sobrevivem, mas vão parar na ilha de Madagascar.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Uma Senhorita Aranha que não sabia fazer teia


Senhorita aranha precisava de uma casa, já estava bem grandinha e decidira sair da moradia da família. Escolheu um bom lugar, sem excesso e nem falta de luz. Esta senhorita nascera com um defeito que fazia toda a diferença em sua vida: não podia fazer teia porque não podia produzir fios. Como poderia fazer sua casa então? Com toda a inteligência que lhe era possível, senhorita aranha pegou essa primeira frase “como vou fazer minha casa?” e lançou de um lado a outro. Pronto, sua ideia dera certo. Tudo o que tinha em mãos eram as frases que dizia, e resolveu usá-las para construir sua casa.

Lançada a primeira frase, agora ela só precisava montar a teia. Senhorita aranha lembrou-se de uma cena de sua infância e falou: “a mamãe é só minha!”. Pegou em seguida e lançou sobre a outra frase. Pensou mais uma: “você não sabe fazer teia”. Foi jogando uma sobre a outra numa verdadeira chuva de frases. “Não era pra você ter nascido, sua feia”; “você pode ser o que quiser”; “por que você está chorando?”; “você vai sair de casa?”; “tem certeza disso?”; “eu acho que não vai dar conta”; “ahahahaha, vai morar embaixo da ponte”; “uau, como você é linda”; “se não fosse tão cascudo, eu ia querer namorar você”; “não sabe fazer teia, mas é bonitinha”; “que aranha exótica”.

E assim, senhorita aranha construiu sua casa. Algumas palavras que ela usou se entrecruzaram em diversas frases. Eram pontos de nó nos quais ela sempre tropeçava, mas davam firmeza para a estrutura como um todo. Havia também os buracos, como em toda teia. Às vezes admirava-se com sua construção. Ela queria mesmo era ter feito uma teia que se parecesse um tecido mais fechado, em que se sentisse mais segura para caminhar sem correr o risco de cair nos vãos. Então ela falava, falava, falava, tentando aperfeiçoar sua casa e eliminar os buracos, mas o que ela percebia era que eles estavam sempre lá, por mais que ela falasse e lançasse as muitas frases.

Com o tempo, senhorita aranha, que não era boba nem nada, percebeu que uma teia assim com espaços estre frases e outras também capturava mais facilmente seu alimento. Acomodou-se melhor em sua teia ao perceber que sem os buracos não poderia sustentar-se.


Isloany Machado, 23 de maio de 2012.