Aqui você encontrará textos sobre psicanálise, literatura e meus escritos literários.

Precisa de revisão ortográfica? Venha para a Oficina do Texto: Clique aqui!

Leia aqui o texto que inspirou o nome do Blog!

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

O palito premiado



Nunca acreditei muito na sorte. Lembro que na infância, a única vez que ganhei alguma coisa foi quando concorri a uma bola de vôlei. Fiquei feliz por ganhar o prêmio, mas a bola estava furada. Nós enchíamos de manhã e, à tarde, já estava murcha. Tudo bem, eu não gostava de vôlei. Ah, sim, participei ainda de vários outros sorteios e rifas, mas sempre era outro que ganhava. Passei a achar que não era uma pessoa de sorte, no sentido estrito da palavra.

            Foi no começo do ano passado que tudo mudou. Estava no intervalo de aula com alguns colegas quando um picolezeiro apareceu em nossa frente. Estava muito calor e cada um de nós tomou a primeira rodada de picolés. Tudo correu bem. Foi na segunda rodada que tive a surpresa: havia tirado o palito premiado. Até então, eu achava que essa história era uma lenda urbana, assim como os contos de fadas, as histórias de vampiros e magos. Surreais. Mas eis que o palito pulava na minha frente. Olhei ao redor procurando o picolezeiro, mas ele sumira, exatamente como fazia o mestre dos magos, da caverna do dragão. Puf! E sumiu.

            Fiquei mais uma vez frustrada, pois não pude requerer meu prêmio: mais um picolé. Junto comigo estava também outro colega que havia achado o palito premiado. Ficamos os dois a olhar para o horizonte. Onde havia se metido o sujeito? Decidimos então guardar os palitos para o próximo dia de aula. Ele voltaria, dado o calor que nos assolava por aqueles dias. Eu carregava na bolsa um estojo de canetas, bastante roto, e guardei o palito nele. Meu colega pediu que guardasse o dele também. Até o final do curso, o picolezeiro nunca mais voltou. Assim, fiquei com dois palitos premiados, o que significava o dobro de sorte.

            E eu, que nunca acreditei em sorte, comecei a notar que algumas coisas muito boas começaram a acontecer. Um dia, comprei uma rifa por uma bagatela e ganhei um prêmio lindo, que ainda demoraria anos pra poder comprar. Muitas coisas aconteceram, fui chamada em concursos que havia feito há tempos, passei na seleção do mestrado, voltei pra capital, conheci Manoel de Barros pessoalmente, passei a ter tempo para pensar, dizer bobagens.

Mas bem no começo deste ano aconteceu uma tragédia em minha família. Uma vida interrompeu-se bruscamente. Todos carregamos um grande ponto de interrogação no meio do peito, que ainda está com a ferida muito aberta e dolorida. Lembrei que carregava dois palitos premiados no estojo, ainda. Então peguei os dois e coloquei lado a lado. Olhei bem pra eles e disse: Qual é, palitos premiados? Por que isso foi acontecer? Vocês não eram meus parceiros nessa? Por que ele tinha que ir embora? 

Enchi os palitos de perguntas, mas eles não foram capazes de me responder. Pra quem mais eu poderia perguntar? Olhei para o céu e só vi nuvens brancas. Olhei de novo para os palitos, que era o que eu tinha de mais certo naquele momento, mas eles não me diziam nada além de: “vale um picolé de fruta”. E como esse silêncio me incomodou. Olhei para o lado e vi um livro. Abri e li que temos que viver de soslaio, obliquamente, para não darmos de cara com a vida. A autora dizia querer verdades inventadas. Verdades inventadas? Avessei.

Li em um texto de Lacan que fazer análise é escrever sem caneta. E eu notei que cada vez que contava e recontava uma história na análise, ela saía diferente. Foram ficando tão diferentes, mas tão diferentes, que eu já não as reconhecia. Em muitas delas eu fiz mudança de gênero: da tragédia pra comédia. Algumas tragi-cômicas. Não sou muito dada a romances. Mas o que fazer diante de uma tragédia tal como a morte de um familiar? Até então, escrevia sem caneta. Mas o vazio que esta perda me causou não podia ser suplantado sem tinta, sem papel.

Eu sei que o vazio é necessário e sem fim. Onde acaba um buraco? Não sou corajosa como Alice para tentar ir até o final dele em busca do coelho branco. O coelho do tempo. Mas sei que ele – o vazio – está aí, persiste. Então, algumas histórias podiam ser escritas sem caneta, mas essa não. Escrevi à tinta. Alguma coisa mudou desde então. As palavras me envolveram, passaram a coçar minhas orelhas na hora de dormir, a descalçar minhas sandálias quando chego em casa. As palavras lambem minhas feridas. Se antes eu as expulsava boca afora para algum lugar entre as quatro paredes da sala da analista, agora elas voltavam pra mim de um outro jeito. Pelo dedão do pé.

Ainda bem que eu guardei os palitos premiados. Não me deram respostas, mas minha revolta com eles fez com que eu abrisse o livro e aprendesse que é preciso inventar as verdades, mais do que isso, é preciso escrevê-las.

           

Isloany Machado, 03 de outubro de 2012.

Um comentário:

  1. Triste e lindo ao mesmo tempo...Como eu queria poder, a tinta, falar...LINDO DEMAIS, TRISTE DEMAIS

    ResponderExcluir