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segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O famigerado número cinco



Outro dia me coloquei a vasculhar lembranças. O processo de vasculhamento foi motivado depois de eu ter escrito o número cinco em um pedaço de papel à toa, uma lista de supermercado talvez. O caso é que eu sempre tive dificuldade em escrever o número cinco. Não sei onde está a falha, se na falta de treino com caligrafias numéricas, se na minha preguiça mesmo, ou na pressa que tenho quando vou escrever qualquer coisa. De modo que meu cinco sempre se pareceu com outra coisa que não fosse cinco, talvez um S, talvez o desenho de uma minhoca retorcida, não sei.

Mas eu nunca havia me dado conta do caso até o fatídico dia. Cursava ensino médio e o professor de física dividiu a turma em grupos “homogêneos”. Ele acreditava que nós adolescentes éramos todos iguais. A divisão foi motivada por um seminário que ele estava propondo que fizéssemos. A proposta era assim: “Vocês querem fazer um seminário?”. Bem, na verdade a proposta era assim: “Vocês vão fazer um seminário!”.

Os grupos foram divididos. Nem de longe consigo me lembrar a matéria de que se tratava. Na verdade eu era péssima também em física. Das exatas, o que salvava era a matemática, pois a memória era boa para fórmulas. “Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá, seno a cosseno b, seno b, cosseno a.” Mas eis que na física, nunca consegui entender/calcular onde cairia a bolinha que o aviãozinho havia soltado a não sei quantos metros de altura e não sei em que velocidade.

Chegado o dia do seminário de física, fiquei responsável pela resolução demonstrativa de um exercício na lousa. Estava tremelicando de medo do professor. Fiz o exercício e fiquei até bem satisfeita com a calma que demonstrei, cheguei a pensar que pudesse estar começando a entender alguma coisa. Os olhos do professor eram implacáveis e hoje, impagáveis. Nosso grupo apresentou, depois outros. Ao final veio a avaliação oral do professor. Foi quando fiz a grande e, quiçá, a mais importante autodescoberta.

 Ele começou a esbravejar, segundo minhas lembranças, como louco. Gritava e dizia que tudo estivera uma grande m...meleca. Apenas um único grupo se salvou das ácidas críticas do professor. Nem me lembro o que este grupo específico fez que mereceu tantos elogios. O fato é que na hora da avaliação do meu grupo, depois de esculhambar cada um de meu colegas, ele fez com que todos olhassem para o exercício resolvido no quadro. Estava correto. Mas o número cinco...

“Minha filha, onde foi que você aprendeu que ISSO é um número cinco? ISSO, pra mim é um S e, se você escrever esse S na MINHA prova, EU TE DOU ZERO!!!”. Berrou o professor. Tremi da cabeça aos pés, um nó formou-se em minha garganta, mas não chorei. Foi assim que descobri que não sabia fazer o número cinco. Entrei em crise de existência, pois tudo o que calculara até ali não fizera sentido nenhum. Fora uma farsa! Uma tremenda farsa! Não se pode somar o dois com o S. Descobri que escrevera nas minhas continhas copiadas da lousa desde a primeira série: “Calcule quanto é 2+S”. Eu respondia alegremente “2+S= 7”. ESTAVA ERRADO! Porque não se pode somar maçãs com cadeiras, não se pode somar números e letras. Desaprendi tudo.

Eu sempre somei a letra S com todos os outros números. Me senti fracassada. Todo o meu edifício matemático ruiu, pois havia um problema estrutural: se 5 não é = a S, logo 5 ≠ S. Teria que estudar tudo de novo. Mas era muito tempo perdido já, então, a partir daquele dia, tentava escrever corretamente o número cinco, mas era tarde demais. Abandonei as exatas e optei pelas humanas. Anos e anos longe dos números, eis que um belo dia fui estudar Lacan e me deparei com fórmulas de letras e números...só então pude rir da parvoíce do professor de física, pois é perfeitamente possível misturá-los. Lá estava o S para todo lado, ou seria o cinco?


Isloany Machado, 03 de agosto de 2012.

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