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segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Carta a Dom Quixote




Estimado cavaleiro errante, bravo Dom Quixote de La Mancha. É com muito pesar que lamento tê-lo conhecido tantos anos depois de tua tão heroica e aventureira vida vivida nos idos de 1605. Desejaria ter sido contemporânea tua para ter a honra de conhecer uma pessoa tão valorosa e sincera como tu foste. Há apenas dez minutos terminei de ler o livro que conta sobre tuas aventuras como cavaleiro errante, em companhia de Sancho Pança. Em vários momentos ri das parvoíces de Sancho, mas ele também foi um homem muito valoroso, pois mesmo quando todos diziam que tu estavas louco, ele não te abandonou sequer um minuto, mesmo em teu leito de morte.

            Sabe Cavaleiro da Triste Figura, apesar de terem se passado muitos séculos, o mundo ainda não permite que sonhemos. Na verdade, os sonhadores continuam sendo chamados de loucos, assim como em vida tu foste. As pessoas “sãs” não suportam as divagações daqueles que acreditam que é preciso lutar contra as injustiças desse mundo. Continuam a troçar com todos os que sabem um tantinho a mais sobre o real. Tu, digníssimo cavaleiro, carregavas contigo a certeza de que tua missão era a de levar um pouco de alento para os corações que sofrem com as mazelas humanas.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O famigerado número cinco



Outro dia me coloquei a vasculhar lembranças. O processo de vasculhamento foi motivado depois de eu ter escrito o número cinco em um pedaço de papel à toa, uma lista de supermercado talvez. O caso é que eu sempre tive dificuldade em escrever o número cinco. Não sei onde está a falha, se na falta de treino com caligrafias numéricas, se na minha preguiça mesmo, ou na pressa que tenho quando vou escrever qualquer coisa. De modo que meu cinco sempre se pareceu com outra coisa que não fosse cinco, talvez um S, talvez o desenho de uma minhoca retorcida, não sei.

Mas eu nunca havia me dado conta do caso até o fatídico dia. Cursava ensino médio e o professor de física dividiu a turma em grupos “homogêneos”. Ele acreditava que nós adolescentes éramos todos iguais. A divisão foi motivada por um seminário que ele estava propondo que fizéssemos. A proposta era assim: “Vocês querem fazer um seminário?”. Bem, na verdade a proposta era assim: “Vocês vão fazer um seminário!”.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Declaração Universal dos Avessos Humanos



Considerando que o desprezo e o desrespeito pelos avessos humanos resultam em atos bárbaros que ultrajam a inconsciência da humanidade,

Considerando fundamental que os avessos humanos sejam protegidos pela liberdade de fala, para que o homem não seja compelido, como último recurso, à rebelião contra a tirania e a opressão racional,

Considerando essencial promover o desenvolvimento de relações amistosas entre as instâncias psíquicas,

Considerando que uma compreensão comum desses avessos é da mais alta importância para o pleno cumprimento desse compromisso,

A teoria psicanalítica proclama:

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

O palito premiado



Nunca acreditei muito na sorte. Lembro que na infância, a única vez que ganhei alguma coisa foi quando concorri a uma bola de vôlei. Fiquei feliz por ganhar o prêmio, mas a bola estava furada. Nós enchíamos de manhã e, à tarde, já estava murcha. Tudo bem, eu não gostava de vôlei. Ah, sim, participei ainda de vários outros sorteios e rifas, mas sempre era outro que ganhava. Passei a achar que não era uma pessoa de sorte, no sentido estrito da palavra.

            Foi no começo do ano passado que tudo mudou. Estava no intervalo de aula com alguns colegas quando um picolezeiro apareceu em nossa frente. Estava muito calor e cada um de nós tomou a primeira rodada de picolés. Tudo correu bem. Foi na segunda rodada que tive a surpresa: havia tirado o palito premiado. Até então, eu achava que essa história era uma lenda urbana, assim como os contos de fadas, as histórias de vampiros e magos. Surreais. Mas eis que o palito pulava na minha frente. Olhei ao redor procurando o picolezeiro, mas ele sumira, exatamente como fazia o mestre dos magos, da caverna do dragão. Puf! E sumiu.