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segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Sobre a técnica da Psicanálise


A psicanálise é ciência do avesso.

Quando um paciente nos procura ele traz uma frase, é a sua “queixa”. O analista deve pegar a frase e virá-la do avesso. Toda frase comporta buracos entre uma palavra e outra, enfie o dedo no buraco da frase e vire. Desta forma o paciente poderá ficar com um ponto de interrogação sobre os motivos que o levaram a procurar a psicanálise. Em geral ele chegará não só com uma frase, mas com um emaranhado delas. O analista precisa ser paciente, pois com o tempo poderá revirar uma por uma. A partir dos primeiros avessamentos, nas entrevistas iniciais, se o paciente pensar que este outro lado é possível e que foi ele quem avessou as frases, transforma sua queixa em demanda de análise. Na interpretação, o analista poderá utilizar algumas técnicas. Uma delas é a citação, na qual ele deverá lançar luz sobre as palavras do paciente. Com uma lanterna, ou algo mais forte, isso depende do estilo do analista, deverá destacar do próprio discurso do paciente alguma frase atravessada.
O analista pode mudar alguma vírgula de lugar, ou outra pontuação da frase. Outro tipo de interpretação é a escansão, nesta o analista esquarteja a palavra, secciona de forma a possibilitar o advento de outra significação. Também o analista trabalha com o corte, ele interrompe a frase no meio, mas esse corte não é aleatório, ele é feito depois de alguma palavra importante na história do paciente, que aponte para suas repetições, por exemplo. Na interpretação dos sonhos e na interpretação em geral, depois que o paciente recebe a instrução de que fale sem censurar o que vier à cabeça, o analista catará palavras: as repetidas, as falhadas, as engraçadas, e outras muitas. São muitos os emaranhados de frases, por isso o tempo de uma análise, em geral, é longo. O analista não pode ter pressa e querer desemaranhar pelo paciente, caso faça isso correrá o risco de emaranhar mais ainda. Quanto à posição do analista, ele fará este trabalho de catador, escandidor, esquartejador, iluminador de palavras, mas em momento algum deverá colocar palavras suas nas frases do paciente, caso faça isso, estará dando seus sentidos e a análise é pra que o paciente reescreva sua história com seus próprios significantes e não com os do analista. É importante saber que o paciente às vezes pede palavras emprestadas, mas quando o analista não o faz, causa angústia no paciente, que tenta se agarrar nas palavras, mas escorrega pelos vãos que existem entre uma e outra, nos avessos. E dos buracos sai a angústia. O analista não deverá estancá-la e nem deixar que se torne uma hemorragia. Mas dos mesmos buracos que sai a angústia, sai também o desejo. E depois de muitos avessamentos, o paciente poderá construir novas frases, que comportarão ainda avessos, mas com eles há que se lidar sempre. O processo é interminável, mas depois de um tempo as palavras estarão mais gastas e as angústias menores. Ao fim se descobre que não há um fim, os buracos são infindáveis. Mas agora o paciente já sabe muitas coisas sobre seus lados direito e avesso, e sabe da parte que lhe cabe em suas construções sintáticas, morfológicas, fonéticas, gramaticais, enfim, sintomáticas. Mestre d’alíngua própria, ele constrói novas possiblidades. Também é importante destacar que neste processo, o analista já está do avesso ou em processo e, a partir disso aprende a avessar as frases dos outros. O analista é um despensador da ciência.

Isloany Machado, 22 de maio de 2012.

13 comentários:

  1. Islô..quanto lirismo..mas aviso: você é uma bígama! Amante das letras e da Psiquê e nunca conseguirá amar apenas uma delas..Dina Islô e suas duas paixões!

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    1. Zélia, vou parafrasear nada mais nada menos que Tchekhov: Sou casada com a psicanálise, mas a literatura é minha amante. Neste caso, sou trígama, porque no meio disso tudo tem o marido também! =D

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  2. Que texto ótimo, é bem isso mesmo!

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  3. Do jeito que vc fala parece tão simples... entretanto não conheço nada mais complexo (ainda ) =)

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    1. Anônimo, consegue conceber algo muito complexo e ao mesmo tempo simples? Trata-se das regras da linguagem, o que é simples, mas ao mesmo tempo, na psicanálise as regras são da língua de cada inconsciente, daí o complexo. Resta desemaranhar...e para isso, o desejo é o que manda!

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    2. Concebo até o último período da última frase... mas eu apenas acabei de "nascer", embora tenha muita pressa em entender.

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  4. Este texto foi escrito depois da leitura do blog da Isloany. Brinquei com as palavras dela.

    Eu escritor

    Uma página meu desafio.
    As frases meu universo.
    Cato as palavras, esquartejo-as, corto.
    Interrompo uma frase no meio
    Mas, num corte não aleatório.
    Enfio o dedo no buraco da frase e viro-a do avesso,
    Reviro-as uma por uma, lanço luz sobre elas.
    O outro lado será possível,
    Depois dos primeiros avessamentos?
    Agarro-me às palavras,
    Mas elas escorregam pelos vãos;
    As repetidas, as falhadas,
    As engraçadas, enfim, todas.
    Vai a primeira desvirada, depois outra,
    Outra mais...enfim, dezenas.
    - tem frase avessada na memória...
    Estarão gastas as palavras?
    Fica um ponto de interrogação.
    Não só numa frase
    Mas, no emaranhado delas.
    São muitos os emaranhados,
    Pedirei palavras emprestadas,
    reescreverei a história.

    Isi Caruso
    24/09/2012

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  5. Adoro suas palavras e interpretações!

    Stéfanie Melo

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Costumo dizer que os procedimentos iniciais é a psicanálise enquanto ciência - como um investigador da metapsicologia humana mensurando através das entrevistas iniciais e avaliação psicológica. Já a terapêutica, o trabalho com os conflitos do cliente e, principalmente o manejo clínico, é a arte da psicanálise

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  8. Texto maravilhoso...objetivo e esclarecedor, mesmo sendo a psicanálise tão complexa! PARABENS

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