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segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Sobre a técnica da Psicanálise


A psicanálise é ciência do avesso.

Quando um paciente nos procura ele traz uma frase, é a sua “queixa”. O analista deve pegar a frase e virá-la do avesso. Toda frase comporta buracos entre uma palavra e outra, enfie o dedo no buraco da frase e vire. Desta forma o paciente poderá ficar com um ponto de interrogação sobre os motivos que o levaram a procurar a psicanálise. Em geral ele chegará não só com uma frase, mas com um emaranhado delas. O analista precisa ser paciente, pois com o tempo poderá revirar uma por uma. A partir dos primeiros avessamentos, nas entrevistas iniciais, se o paciente pensar que este outro lado é possível e que foi ele quem avessou as frases, transforma sua queixa em demanda de análise. Na interpretação, o analista poderá utilizar algumas técnicas. Uma delas é a citação, na qual ele deverá lançar luz sobre as palavras do paciente. Com uma lanterna, ou algo mais forte, isso depende do estilo do analista, deverá destacar do próprio discurso do paciente alguma frase atravessada.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Angústia no ônibus



Dia desses estava às voltas com o texto “Angústia”, de Anton Tchekhov. Ele conta a história do cocheiro Iona Potapov, que não sabe a quem confiar sua tristeza. Potapov perdeu um filho e está angustiado com isso, pois nem sabe exatamente o que aconteceu. Quando seu primeiro passageiro sobe, Iona vira-se e move os lábios, “sem dúvida, quer dizer algo, mas apenas uns sons vagos lhe saem da garganta”. O passageiro lhe pergunta “o quê?” e ele diz que perdeu um filho. “De quê?”, mas Iona não sabe exatamente. Acha que foi febre, conta que ele passou três dias no hospital e morreu, certamente pela vontade de deus. Em seguida o passageiro muda de assunto. “Depois, torna a olhar algumas vezes para o passageiro, mas este fechou os olhos e parece pouco disposto a ouvir.” Iona fica com a palavra entalada.

Momentos depois chegam alguns rapazes muito animados e lhe solicitam uma corrida. Durante uma brecha na grande algazarra que fazem os moços, Iona diz: “Esta semana... assim, perdi meu filho!”. E o que ouve como resposta é somente: “Todos vamos morrer”. Depois de alguns minutos um dos rapazes lhe pergunta se é casado e ele responde: “Agora, só tenho uma mulher, a terra fria... O túmulo, quer dizer!... Meu filho morreu, e eu continuo vivo... Coisa esquisita, a morte errou de porta... Em vez de vir me buscar, foi procurar o filho...”, e volta-se novamente para contar como morreu o filho, mas chegavam ao destino. Ele fica então sozinho, “torce o corpo e entrega-se à angústia... Considera já inútìl dirigir-se às pessoas. Mas, decorridos menos de cinco minutos, endireita-se, sacode a cabeça, como se houvesse sentido uma dor aguda e puxa as rédeas...”.