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quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Carta a Manoel de Barros - Ensinagens e aprendimentos



Caro Manoel,

            Outro dia estava lendo alguns de seus poemas e confesso que fiquei muito emocionada com os aprendimentos que tive. Vou te dizer o porquê. Eu estou fazendo mestrado e às vezes fico muito angustiada, pois quanto mais estudo, mais eu desaprendo. Assim, mais eu sei o quão pouco sei. Minha preocupação é com o fato de que terei que usar doutamente as palavras para escrever minha dissertação. Por enquanto o que faço é escrever da minha deser[ta]ção. Você não pode imaginar a alegria que senti ao reler seu texto justo neste momento.

            Quando eu era criança, meu pai dizia que tínhamos que estudar muito, ler, fazer faculdade, mestrado, doutorado. Eu muitas vezes senti vontade de "cuspir" o doutorado de lado. No final das contas, depois de ouvir os conselhos de meu pai, eu e minha irmã, assim como nas suas poesias, inventávamos brinquedos com as palavras, subvertíamos a ordem das letras, das sílabas, das palavras de uma frase. Daí li no seu poema o seguinte: “A gente inventou um truque pra fabricar brinquedos com palavras. O truque era só virar bocó.” Eu não sabia que eu e minha irmã já sabíamos virar bocó desde aquele tempo. E a gente ouvia sempre alguém dizer que um fulano, de tanto estudar, tinha ficado bocó. Será que meu pai sabia que ser doutor faz da gente bocó?

            Foi muito grande o alívio que senti ao lê-lo porque percebi que estou no caminho certo: “A sensatez me absurda.” E adquiri muitos aprendimentos com você ao perceber que estudar só me serve se for pelo avesso da ciência, na medida em que me faça mais bocó. Aqui em casa estamos cultivando a insensatez. Eu hoje acordei pelo avesso: coloquei para aquecer no micro-ondas uma caneca vazia e no café da manhã o que tomei foram 300ml de risada. Ler você é alivioso nesses momentos: “O despropósito é mais saudável do que o solene”. Inventei um brinquedo assim: toda palavra torta me conserta e me concerta de araras.

            Pois, estou às voltas com a ciência. Às vezes me sinto idiótica e preciso escrever “delírios verbais”, como diz você, eles também “me terapeutam”. Descobri com suas ensinagens que gosto mesmo é de ser bocó e vou utilizar algumas de suas definições: “Bocó é gente sem pensa. Bocó é sempre alguém acrescentado de criança. Bocó é um que gosta de conversar bobagens profundas com as águas. Bocó é aquele que fala sempre com sotaque das suas origens. É sempre alguém obscuro de mosca. É alguém que constrói sua casa com pouco cisco. Bocó é aquele que olhando para o chão enxerga um verme sendo-o”.

            Eu estudo uma tal de psicanálise, é uma teoria que só se compreende quando vira bocó, pois é preciso ser “acrescentado de criança” e saber construir a própria casa “com pouco cisco”. Sabe Manoel que, em seu surgimento, a psicanálise causou muitas controvérsias entre os que queriam defini-la como sendo ou não ciência. Freud defendeu sua teoria do inconsciente com unhas e dentes para dizer que não podia ser outra coisa que não ciência, mas quanto mais ele estudava e teorizava, mais notava que as produções do inconsciente surgiam quando a gente virava bocó, pois é preciso falar “sempre com sotaque das suas origens”, como disse você, e é quando saímos do discurso douto que produzimos as bobagens mais fantásticas, que contam sobre quem somos. Mas Freud era muito polido e conviveu bem com os homens de suspensório.

 Lacan, psicanalista posterior a Freud, disse algo muito parecido com aquilo que li no seu poema: “as palavras possuem no corpo muitas oralidades remontadas e muitas significâncias remontadas”, e que é preciso “atrapalhar as significâncias, desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos”. Lacan não era polido como Freud e estava se lixando com a ciência, lembrei-me dele quando li no seu texto que, para limpar das palavras alguma solenidade você usa bosta! Lacan bagunçou as significâncias: “O sujeito não é aquele que pensa. O sujeito é aquele que engajamos, não para dizer tudo – não se pode dizer tudo – mas a dizer besteiras. É com essas besteiras que vamos fazer a análise, e que entramos no novo sujeito que é o do inconsciente. É justamente na medida em que ele não quer mesmo mais pensar, o homenzinho, que se saberá talvez um pouco mais dele, que se tirará algumas consequências dos ditos.” (LACAN, 1985, p. 33). Então Manoel, dizer besteiras em análise é virar bocó. Você não disse que bocó é gente “sem pensa”?

            Fico, dessa forma, muito aliviada por aprender com você mais uma porção de coisas sobre a desimportância da ciência. Só consigo conviver com a importância dos conceitos a partir das suas desimportâncias, de seus avessos. Imagino que meu pai soubesse que quanto mais a gente estudasse, mais deveria virar bocó e que isso seria bom, pois, caso contrário, perderíamos a capacidade de olhar para o chão, daríamos mais importância a uma Usina Nuclear do que para o “cu de uma formiga”. Sabe Manoel, as pessoas nada querem saber sobre o cu da formiga, preocupam-se com coisas importantes que, no fim, não lhes respondem nada, e seguem angustiadas. Às vezes sinto vontade de berrar: “Hei!!! Olhem para o chão!!! Olhem o mundo pelo avesso!!!” Mas não dá pra avessar o mundo assim goela abaixo, há pessoas que avessam, outras não. Bem, enquanto isso, sigo fazendo meu trabalho, sabendo que “a ciência pode classificar e nomear os órgãos de um sabiá mas não pode medir seus encantos” e  sempre lembrando que o saber apenasmente me serve na medida em que me faça cada vez mais bocó. Manoel, obrigada por tantas ensinagens, sobretudo aquelas sobre nada.

Isloany Machado

 Campo Grande, 03 de maio de 2012. 

Textos Utilizados:

Barros, Manoel de. Livro sobre nada. In: Poesia Completa. São Paulo: Leya, 2010.

Barros, Manoel de. Memórias Inventadas: As Infâncias de Manoel de Barros. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2010.

Lacan, Jacques. O Seminário, livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.

17 comentários:

  1. Fantástico! Desaprender é arte pra poucos...

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  2. ah, isloany, não sei como não li antes! é um desaprendizado de primeira grandeza e, como de criança eu aprendi que o sol é uma estrela de quinta grandeza, vc pode imaginar que seu texto me alumiou quatro vezes mais. menina, que lindeza. seu texto é silencioso e me dá medo, pq depois de velho eu descobri que tenho medo da imensidão. tenho muito medo da imensidão. lembro agora de uma música que a clara nunes cantou, uma ciranda para crianças: as coisas devem ser bem grandes pra formiga pequenina, a rosa um lindo palácio e o espinho uma espada fina... talvez isso seja um pouco do meu imenso. fiquei emocionado e talvez tenha ouvido sua voz (me lembro dela ainda...rs). enquanto vc segue costurando palavras, eu, filho de uma costureira, sigo costurando movimentos no meu corpo para desimportantizar o imenso. beijo de afeto.

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    1. Fredyson, que lindo! Pois se o Sol, diz a Ciência, é uma estrela de quinta, nós podemos colocá-la na posicão que quisermos...pra mim é de primeira! Olhar para as desimportancias não tem idade! Sempre ainda é cedo! Beijos saudosos.

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  3. Belíssimo texto!! E não é belíssimo de coisa arrumadinha, cama bem-feita ou trilho-de-trem como uma tese acadêmica; é belo de uma liberdade xexelenta, daquelas que erram por aí com meia num pé e "ar-condicionado de dedão" no outro, uma meia não é uma inteira, afinal, nem quer e nem precisa ser (ainda mais quando envolve o abandono estúpido de uma certa refrescância! ;) Seu texto é um ilegítimo texto de bocó porque o legítimo bocó só poderia deixar de sê-lo diante de uma legitimidade. Parabéns!

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    1. Obrigada pelo comentário Carlos! Adorei o "ar-condicionado de dedão".

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  4. Parabéns! Fantástico o seu texto! Amo Manoel de Barros e sua simplicidade! Um abraço.

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    1. Valeu Leandro! Em breve estará com ele impresso nas mãos :D

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  6. Lindeza😍😍😍😍😍😍😍😍😍😍😍😍😍😍😍😍😍😍😍😍😍😍😍😍😍 levando comigo. Tem face? Quero postar trechos te citando.

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    1. Oi! Tenho face sim. Só me achar lá ;)

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    2. Oi! Tenho face sim. Só me achar lá ;)

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