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segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Anúncio no jornal

 

Senhor Pereira pegou o jornal depois que todos na casa já dormiam. Vasculhou as páginas de classificados rapidamente a avistou um anúncio que dizia:

PsiVâniaAmar – atendo adolescentes, adultos e casais. Tel: 9988-XXXX.
 
              Afoito que estava, pegou o telefone e discou o número anunciado. Depois de alguns instantes, uma voz feminina, até meio rouca, segundo o seu julgamento, atendeu.

- Alô?

- Oi?! Eu gostaria de saber quanto é que você cobra para atender um adulto com animação de adolescente?

- Como é o caso? Adulto ou adolescente? Não entendi.

- Meu bem – disse com a voz melosa – é quase adolescente.

- Prefiro marcar um horário para fazermos uma entrevista inicial. Depois combinamos o valor.

- Nossa minha querida, quanta cerimônia. Você não pode dizer o valor?

- Eu prefiro avaliar primeiro, pois não sei a princípio se vou precisar de algum material extra.

- Ah, você gosta de brinquedinhos?

- Como é? Mas não disse que era adolescente? O máximo que usarei serão alguns jogos.

- Está bem, minha flor. O que você quiser. Adoro joguinhos também.

- Gostaria de saber quem foi que me indicou? Como ficou sabendo do meu trabalho?

- Foi pelo anúncio do jornal. E então, me diga aí seu endereço.

- Ah, sim. É rua Felizberto Miranda, 1980, Jardim Madalena. Tem preferência por algum horário?

- Pode ser amanhã às 23h?

- Às onze da noite? Mas que coisa é essa? Eu atendo em horário comercial!

- Logo se vê que é uma profissional discreta. Então me diga que horário tem disponível na parte da manhã?

- Você está com sorte, tenho uma vaga às 10h.

- Então nos vemos amanhã. Me aguarde. Disse ele, bem faceiro por ter escolhido uma profissional experiente, quase sem horário disponível. Isso significava, segundo seu julgamento, que teria bons momentos de prazer.

            Dormiu feliz e na expectativa pelo dia seguinte. Acordou cedo para ter tempo suficiente de tomar banho demoradamente, fazer a barba e perfumar-se. Apanhou o carro e foi em direção ao endereço que havia anotado. Já estava em polvorosa. Começou a ficar impaciente, pois não estava encontrando o local. Resolveu ligar.

- Alô?

- Oi, minha linda. Eu não estou encontrando seu endereço. Tem algum ponto de referência?

- Ah, sim. Me desculpe por não ter falado ontem. Fica meio escondido mesmo.

- É melhor assim, prefiro que não me vejam.

- Na esquina há uma farmácia com a fachada verde chamada Vitalis.

- Ah, já passei por ela. Vou retornar e em alguns instantes estou aí. Um beijo.

- (!).

            Foi acompanhando a numeração da rua: 1750, 1892, 1899, 1900, 1950, 1980. Deu um risinho de canto de boca ao encontrar. Era uma casa bastante discreta e ele achou até pomposa. Devia ser uma profissional de luxo. Tocou o interfone e, depois de alguns segundos, viu o cliente anterior saindo por uma porta lateral. A porta abriu automaticamente, ele entrou. Deu de cara com uma mulher de uns 35 anos - era mais velha do que ele imaginara – discretamente vestida com um tailleur cáqui, o que ele não achou nem um pouco atrativo. Havia fantasiado algo completamente diferente.

- O senhor é o pai?

- Pai?

- Sim, me desculpe, mas eu havia entendido que o atendimento era para um adolescente. Devo ter entendido errado. Entre. Pode sentar-se naquela poltrona.

            Ele deu uma olhada panorâmica pela sala e achou que não parecia um ambiente adequado para os serviços prestados pela moça. Resolveu sentar-se, pode ser que ela tivesse algum fetiche diferente.

- Então – disse ela – o que o motivou a procurar o atendimento?

- Sabe o que é, linda. É que eu tenho muito apetite sexual.

- Mas acredita ser isso uma questão para o senhor? Isso atrapalha muito a sua vida?

            Ele estava achando a conversa meio estranha, principalmente depois que ela colocou uns óculos de aro escuro. Olhou para o lado e avistou uma coleção de livros com a capa preta e precisou apertar os olhos para ler “Sigmund Freud”. Ele sabia que esse tal de Freud falava de sexualidade. Empolgou-se ao pensar que a moça era uma especialista na coisa: “mas que sorte eu tive em ler este anúncio!”. Mas já estava ficando impaciente com a distância entre eles. Levantou-se e aproximou-se dela.

- O senhor está com algum problema?? Exclamou ela, ao perceber o olhar luxurioso dele.

- Acho que você pode resolver todos os meus problemas, minha delícia!

- O que foi que o senhor disse?! Ponha-se já para fora daqui!!! Agora!!! Berrou ela.

            Ele pensou em insistir, mas rapidamente desistiu, pois aquela mulher estava lhe parecendo muito excêntrica. Além do mais, pelo chiquê do lugar, deveria cobrar uma fortuna por um programa. Saiu meio estabanado porta afora e não reparou na pequena e discreta placa no muro cujo letreiro dizia:

Ψ Psicanalista Vânia Amaral
           
             Foi embora praguejando a perda de tempo. Enquanto isso, a psicanalista lá dentro do consultório ainda estava indignada com a atitude do paciente: “Mas que transferência erótica! E assim na primeira sessão?”. Sacou um dos livros de capa preta e abriu no texto “O amor de transferência”.

Isloany Machado, 06 de agosto de 2012.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Uma cadela muito esperta


Há alguns dias estava tendo aula de psicanálise e o professor citou Pessoa: “é preciso ir ao rabo das coisas”. Imediatamente pensei na minha cadela. July é preta lustrosa, seu nome completo é July Preta. Sua mãe era da raça labrador e morreu de diabete. O pai era de uma raça enrugada. July Preta nasceu com cara de paisagem. Mas por que pensei nela diante da citação do professor? “É preciso ir ao rabo das coisas”. Todas as noites, July corre atrás do próprio rabo. Até o dia em que eu ouvi esta frase de Pessoa achava que July, com aquela cara de paisagem, era uma tola que corria atrás do rabo para chamar nossa atenção, ou porque não tinha mais o que fazer na sua vida monótona de olhar a rua pelas frestas do portão. Ela tem mania de bolinha, “nisso ela se parece com todos os outros cachorros”, dirão os outros donos de cachorros. Mas July Preta praticamente tem uma bolinha acoplada na boca. Ela pode estar dormindo ou fazendo qualquer outra coisa, mas sempre que nos vê, imediatamente acopla a bendita bolinha na boca. Depois dessa aula descobri que o ritual noturno de July – correr atrás do próprio rabo – é uma busca incansável pelo sentido da própria vida. E com aquela cara de boba! Pensei também em Safira, a outra cadela que tivemos e infelizmente já se foi. Quando ganhamos Safira, ela já não tinha rabo. Mesmo assim corria atrás de si mesma, mas notava nela uma espécie de expressão melancólica, sabia fazer cara de coitada pra mostrar sua falta, de rabo. Safira tinha muitos momentos felizes, brincava de bolinha, de lutinha, mas não podia morder o próprio rabo. Se um dia ela tentou, não o encontrou e desistiu de procurar, porém carregou esta perda estampada em sua cara de piedade. July Preta e Safira, quase opostas. Depois de pensar no rabo delas, pensei nas pessoas. Em seguida pensei na psicanálise para pensar nas pessoas. Já perdemos o rabo quando entramos no universo da linguagem. Algumas pessoas carregam, assim como Safira, uma tristeza, um luto pela perda do rabo, mas não querem mais correr atrás de si em busca de respostas. Outras pessoas são como a July, incansáveis na busca. Ela tem o rabo e mesmo assim corre atrás dele, pois sabe que as respostas não estão nele, ou na coisa em si, dito de outro modo. Algumas pessoas buscam o rabo perdido exclusivamente na religião, outras no trabalho e outras em outros lugares. Há um tipo de pessoas que, lá no fundo, sabem que perderam o rabo, daí buscam um analista e lá em seu consultório fazem o ritual da July: correm atrás de si buscando o sentido. “É preciso ir até o rabo das coisas”. Eu diria ainda que é preciso ir até o rabo para perceber que somos todos como Safira. Acrescentaria que há certa ética em ir até o rabo, mesmo sem encontrá-lo. É preciso entender que buscar sempre, é assumir uma postura diante do mundo, para questionar as certezas. Assim é o discurso da histeria: a busca. Citarei Manoel de Barros para falar desse discurso de forma poética: “Do lugar onde estou já fui embora”. A partir dessa aula, nunca mais achei que July Preta seja tola. Pelo contrário, sempre que posso me junto a ela no quintal de casa assim que inicia seu ritual noturno de corrida incessante atrás do rabo.  




   

Isloany Machado, 30 de maio de 2012.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Carta a Manoel de Barros - Ensinagens e aprendimentos



Caro Manoel,

            Outro dia estava lendo alguns de seus poemas e confesso que fiquei muito emocionada com os aprendimentos que tive. Vou te dizer o porquê. Eu estou fazendo mestrado e às vezes fico muito angustiada, pois quanto mais estudo, mais eu desaprendo. Assim, mais eu sei o quão pouco sei. Minha preocupação é com o fato de que terei que usar doutamente as palavras para escrever minha dissertação. Por enquanto o que faço é escrever da minha deser[ta]ção. Você não pode imaginar a alegria que senti ao reler seu texto justo neste momento.

            Quando eu era criança, meu pai dizia que tínhamos que estudar muito, ler, fazer faculdade, mestrado, doutorado. Eu muitas vezes senti vontade de "cuspir" o doutorado de lado. No final das contas, depois de ouvir os conselhos de meu pai, eu e minha irmã, assim como nas suas poesias, inventávamos brinquedos com as palavras, subvertíamos a ordem das letras, das sílabas, das palavras de uma frase. Daí li no seu poema o seguinte: “A gente inventou um truque pra fabricar brinquedos com palavras. O truque era só virar bocó.” Eu não sabia que eu e minha irmã já sabíamos virar bocó desde aquele tempo. E a gente ouvia sempre alguém dizer que um fulano, de tanto estudar, tinha ficado bocó. Será que meu pai sabia que ser doutor faz da gente bocó?

            Foi muito grande o alívio que senti ao lê-lo porque percebi que estou no caminho certo: “A sensatez me absurda.” E adquiri muitos aprendimentos com você ao perceber que estudar só me serve se for pelo avesso da ciência, na medida em que me faça mais bocó. Aqui em casa estamos cultivando a insensatez. Eu hoje acordei pelo avesso: coloquei para aquecer no micro-ondas uma caneca vazia e no café da manhã o que tomei foram 300ml de risada. Ler você é alivioso nesses momentos: “O despropósito é mais saudável do que o solene”. Inventei um brinquedo assim: toda palavra torta me conserta e me concerta de araras.

            Pois, estou às voltas com a ciência. Às vezes me sinto idiótica e preciso escrever “delírios verbais”, como diz você, eles também “me terapeutam”. Descobri com suas ensinagens que gosto mesmo é de ser bocó e vou utilizar algumas de suas definições: “Bocó é gente sem pensa. Bocó é sempre alguém acrescentado de criança. Bocó é um que gosta de conversar bobagens profundas com as águas. Bocó é aquele que fala sempre com sotaque das suas origens. É sempre alguém obscuro de mosca. É alguém que constrói sua casa com pouco cisco. Bocó é aquele que olhando para o chão enxerga um verme sendo-o”.

            Eu estudo uma tal de psicanálise, é uma teoria que só se compreende quando vira bocó, pois é preciso ser “acrescentado de criança” e saber construir a própria casa “com pouco cisco”. Sabe Manoel que, em seu surgimento, a psicanálise causou muitas controvérsias entre os que queriam defini-la como sendo ou não ciência. Freud defendeu sua teoria do inconsciente com unhas e dentes para dizer que não podia ser outra coisa que não ciência, mas quanto mais ele estudava e teorizava, mais notava que as produções do inconsciente surgiam quando a gente virava bocó, pois é preciso falar “sempre com sotaque das suas origens”, como disse você, e é quando saímos do discurso douto que produzimos as bobagens mais fantásticas, que contam sobre quem somos. Mas Freud era muito polido e conviveu bem com os homens de suspensório.

 Lacan, psicanalista posterior a Freud, disse algo muito parecido com aquilo que li no seu poema: “as palavras possuem no corpo muitas oralidades remontadas e muitas significâncias remontadas”, e que é preciso “atrapalhar as significâncias, desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos”. Lacan não era polido como Freud e estava se lixando com a ciência, lembrei-me dele quando li no seu texto que, para limpar das palavras alguma solenidade você usa bosta! Lacan bagunçou as significâncias: “O sujeito não é aquele que pensa. O sujeito é aquele que engajamos, não para dizer tudo – não se pode dizer tudo – mas a dizer besteiras. É com essas besteiras que vamos fazer a análise, e que entramos no novo sujeito que é o do inconsciente. É justamente na medida em que ele não quer mesmo mais pensar, o homenzinho, que se saberá talvez um pouco mais dele, que se tirará algumas consequências dos ditos.” (LACAN, 1985, p. 33). Então Manoel, dizer besteiras em análise é virar bocó. Você não disse que bocó é gente “sem pensa”?

            Fico, dessa forma, muito aliviada por aprender com você mais uma porção de coisas sobre a desimportância da ciência. Só consigo conviver com a importância dos conceitos a partir das suas desimportâncias, de seus avessos. Imagino que meu pai soubesse que quanto mais a gente estudasse, mais deveria virar bocó e que isso seria bom, pois, caso contrário, perderíamos a capacidade de olhar para o chão, daríamos mais importância a uma Usina Nuclear do que para o “cu de uma formiga”. Sabe Manoel, as pessoas nada querem saber sobre o cu da formiga, preocupam-se com coisas importantes que, no fim, não lhes respondem nada, e seguem angustiadas. Às vezes sinto vontade de berrar: “Hei!!! Olhem para o chão!!! Olhem o mundo pelo avesso!!!” Mas não dá pra avessar o mundo assim goela abaixo, há pessoas que avessam, outras não. Bem, enquanto isso, sigo fazendo meu trabalho, sabendo que “a ciência pode classificar e nomear os órgãos de um sabiá mas não pode medir seus encantos” e  sempre lembrando que o saber apenasmente me serve na medida em que me faça cada vez mais bocó. Manoel, obrigada por tantas ensinagens, sobretudo aquelas sobre nada.

Isloany Machado

 Campo Grande, 03 de maio de 2012. 

Textos Utilizados:

Barros, Manoel de. Livro sobre nada. In: Poesia Completa. São Paulo: Leya, 2010.

Barros, Manoel de. Memórias Inventadas: As Infâncias de Manoel de Barros. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2010.

Lacan, Jacques. O Seminário, livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.