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terça-feira, 12 de junho de 2012

Porque só se ama uma vez


Aquela mulher de pele parda, cabelos e olhos escuros, dialogava com a outra, de pele branca, mas encardida, o cabelo amarelado imitando o estilo das ladies. A parda tinha uma pintura forte na face como a de quem vai pra guerra. Nos olhos havia um largo risco preto que passava do limite do olhar. Na boca, um rosa vivo que ultrapassava os lábios e alcançava os dentes, amarelos. Ela contava pra amiga sobre uma grande decepção amorosa na qual sofrera agressões físicas. A amiga se identificava, soltava exclamações e ditos de indignação. Tinha arranjado um outro namorado, mas disse isso sem muito entusiasmo, fato estampado na falta de brilho das palavras. Foi então que se explicou: “é que na verdade dizem que a gente só ama, AMA mesmo, uma vez na vida”. Então por que se pintara como se estivesse indo pra guerra? Fiquei a pensar na sentença que saíra tão descrente de sua boca: “Só se ama uma vez na vida”. Avessei a frase e comecei a pensar. Freud dizia que nosso grande e inesquecível amor era por aquela pessoa que nos deu os primeiros cuidados: nossa mãe ou a pessoa que tenha feito esse papel. Ela nos olhou primeiro, nos tocou, nos alimentou. Então só tínhamos olhos pra ela e claro que queríamos o mesmo de sua parte: que só tivesse olhos para nós. Mas não é assim que a coisa funciona, via de regra. Há algo que ela deseja além de nós, há outros amores em sua vida. Somos barrados neste amor irrealizável, portanto. Freud disse ainda que os meninos dissolviam esse amor pra sempre e esqueciam o fato de os olhos dela se voltarem para outra direção, mas as meninas carregavam esse amor frustrado com um amargor na boca. Mas é este amor frustrado que nos permite também desejar outras coisas, essa barra nos ensina que é preciso catar os cacos e seguir adiante. Sempre com a presença da ausência deste objeto amoroso, que perdemos. Há mulheres que se exasperam com a possibilidade de que seu homem olhe para o lado, têm ciúmes até mesmo de uma atriz de televisão. Há homens que não suportam que seu objeto de amor tenha vida própria. Esperneiam, batem, ferem, matam, por amor. Mas se é fato que nesta vida só se ama uma vez, todos os outros amores carregarão a cicatriz daquela primeira desilusão. Passaremos a vida a buscar um substituto, mas nenhum chegará aos pés daquele primeiro, genuíno. Mas o que foi mesmo esse primeiro amor? Foi a necessária marca para nos lembrarmos de que somos seres faltantes, barrados, castrados, a manquejar vida afora. O amor é o significante que vem suprir essa desilusão humana. Busquemos o amor, sempre e sempre, ainda que saibamos de seus desencontros. Esse amor não é necessariamente por pessoas, pode ser por muitas outras coisas. Mas amar, ainda que impreciso, é preciso, para citar o poeta. Ainda que nessa vida só tenhamos amado, AMADO mesmo, uma vez, foi a impossibilidade desse primeiro amor que nos fez desejar outras coisas, nos fez buscar sempre. Fiquei com vontade de dizer para a moça com face pintada que não desistisse de procurar, que a pintura de seus olhos e boca não era vã. Queria dizer que se ela manca de um lado e encontrasse alguém que manca do outro, estaria com o caminhar quase completo. Mas quase, porque ninguém é todo, mesmo quando se está a dois. No fim das contas ela estava certa de manter a sua pintura de guerra, pois no amor somos como soldados feridos, sangrantes: só conseguimos sobreviver quando nos abraçamos e caminhamos juntos no retorno do front.



Isloany Machado.

Campo Grande, 20 de maio de 2012.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Lamentações de um piolho morto


Bom dia, senhoras e senhores.

Aqui quem vos fala é um piolho, um piolho morto. Decidi manifestar-me porque aqui do além, onde agora habito, me lembrei que quando era adolescente li um livro que me impressionou muito, naquela época eu morava na cabeça de uma menina, Raquel, que amava os livros e eu acompanhava suas leituras do alto de sua cabeça. Ela não deixava sua mãe me matar porque adorava quando eu lhe fazia cócegas atrás das orelhas, sarrista que era, sempre que ficava intrigada dizia: “estou com um piolho atrás da orelha”. Ríamos muito. Então um dia li junto com ela a história de um tal Brás Cubas, que escreveu o livro depois de morto e conta sua vida de trás pra frente. Inspirado nele é que hoje resolvi me lamentar. Pois, sou um piolho morto. Quando Raquel decidiu entrar na faculdade, achou que não lhe cabia mais carregar um piolho na cabeça e me pediu gentilmente que fosse embora. Arrumei minhas malas, coloquei meu chapéu e minhas botas e saí. Ela chorou e eu também. Errando pelas ruas avistei uma menina de uns nove anos. Apaixonei-me por seus cabelos, que eram muito parecidos com os de Raquel, crespos e volumosos. Ah, como eu adorava me perder naquele vai-e-vem de seus fios. Fazia de escorregador alguma mecha displicente que caía em sua testa. Raquel se sabia amada com a minha presença. Decidi que habitaria aquela nova cabeçorra linda cuja dona se chamava Lisa. Com o passar dos dias, notei que a menina não era alegre como Raquel. Todas as manhãs, antes de ir pra escola, sua mãe nos emplastrava, a mim e aos cabelos de Lisa com um creme enjoadamente cheiroso e fazia duas pitucas no alto da cabeça, uma de cada lado. Lisa gritava “ai!”, mas sua mãe ignorava e dava uns solavancos dizendo que parasse quieta. Eu ia pra escola sufocado e bem esticado no meio dos fios que cercavam meu corpo e não me deixavam mover sequer as mãos. Eu não podia acompanhar as lições de Lisa. Quando chegava em casa, ela soltava as amarras e brincávamos a tarde toda, daí sim podia ler alguma coisa, nas frases de para-choque de caminhão que suas amigas postavam no facebook. Lembro-me de uma assim: “Dias melhores virão, chamam-se sábados, domingos e feriados”; e outra assim: “Gata, eu não sou coxinha de rodoviária, mas só tenho óleos pra você.” Ficava impressionado com a capacidade de síntese da sociedade ultramoderna. Na época de Raquel a gente passava as tardes lendo Machado, Alencar, Lispector, enfim, c’est la vie[1]. Um dia a mãe de Lisa ficou muito irritada ao arrumar seus cabelos e esbravejou: “sábado vamos dar um jeito nisso!” Cutuquei Lisa e disse a ela: “ufa, até que enfim sua mãe se deu conta de que é melhor deixar a gente em paz!”. Mas sábado foi o dia fatídico. O dia de minha morte. Estão pensando que a malvada mãe de Lisa me matou à unha? Nada disso. Ela levou a filha em um salão de beleza: “quero que você faça um alisamento nela”. Eu não entendi nada, Lisa pôs-se a chorar. Enquanto lavavam a cabeleira, eu me agarrava como de costume aos fios, mas depois da lavagem, uma mulher de cabelo vermelho-fogo, com uma parte da raiz preta, veio com um enorme pincel e besuntou os cabelos de Lisa. O produto não era o mesmo que sua mãe usava, o creme enjoado de tão cheiroso, era algo que fedia a esgoto, terrível! Fui ficando meio zonzo, mas resisti bravamente, afinal, não queria desertar daquela cabeça à que me apegara já tanto. Os piolhos também amam. Sem que eu pudesse me recuperar perfeitamente do produto, a mulher veio com um aparelho que parecia uma prancha, ouvi quando disse à sua assistente: “ligue a chapinha na tomada”. Separou uma mecha de cabelo e pranchou, vi fumaça saindo! Pensei em fugir, mas antes que houvesse tempo de avisar Lisa, a mecha de cabelo em que eu estava foi tomada pelas mãozinhas balofas da mulher. Fui então assado entre as duas chapas metálicas. Assim se deu minha morte. À época de meus pais, os piolhos morriam por causa de um produto com o qual lavavam a cabeça das crianças. Na de meus avós, socavam álcool nas cabeças piolhentas. Nunca imaginei que meu fim seria desta forma: literalmente chapado. Morri muito jovem e lamento por isso. Agora Lisa está com os cabelos lisos, tão lisos que nem os tic-tacs agarram os fios, acabou-se o trabalho de sua mãe, que agora economiza o tempo de ajeitar os cabelos e gasta postando frases filosóficas no facebook. A última que me lembro de ter lido em seu mural era assim: “Gente que faz você ficar com pulgas atrás da orelha? Enfia minhocas na sua cabeça? Cria grilos e te fala cobras e lagartos? Minha filha, isso não é gente não, é uma praga! DEDETIZA!”.





Isloany Machado

Campo Grande, 01 de junho de 2012.



[1] É a vida.