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quarta-feira, 2 de maio de 2012

A arte de costurar palavras

Há uns anos tenho aprendido a arte de costurar palavras. Quando fui pela primeira vez ao ateliê estava com uma bagagem enorme cheia de retalhos e de palavras soltas, alguns carretéis de linha, revistas com moldes, muitos pontos de interrogação e duas agulhas. Imaginei que a costureira fosse me ensinar primeiramente fazendo a costura para que eu pudesse observar e aprender. Mas não, o que ela fez foi e dizer: “costure!”. Confesso que fiquei um tanto apavorada, pois não sabia sequer colocar a linha na agulha. Ela me disse para costurar aleatoriamente as palavras, mas era muito difícil, então eu pegava as revistas e costurava as palavras de um jeito que ficava tudo muito repetitivo. Um dia ela me disse para jogar fora as revistas moldes: “Já chega de repetir os modelos! Vamos fazer um novo, que seja criação sua.” Me angustiei, chorei e, apesar dos meus apelos, ela não colocava a mão na agulha. Esse é o estilo dela, mas já ouvi dizer que em alguns ateliês, não hesitam em meter a mão e costurar pelo aprendiz. Em alguns momentos, quando eu estava lá costurando e costurando, ela jogava um ponto de exclamação ou de interrogação no meio, às vezes mudava a vírgula que eu havia costurado junto com as palavras lá no início, ou ainda arrancava as aspas do lugar dizendo que as palavras eram minhas e que não era mais necessário usar as aspas. Para encerrar um encontro ela fazia cortes no meio da minha costura, pegava a tesoura sem dó e retalhava uma frase que eu costurara com tanta dificuldade. Diversas vezes ela jogou reticências no meio do meu trabalho, e isso quebrava o rumo da costura. E eu tinha que recomeçar, escolher outras palavras, umas novas, outras que precisaram ser tiradas lá do fundo da bagagem. Ela muitas vezes perguntou por que eu não usava os retalhos que estavam já há muito esquecidos, pois isso ajudaria a compor minhas costuras, mas eu tinha dificuldade de achar que um retalho pudesse servir pra alguma coisa. O que eu queria mesmo era criar um vestido de gala, pomposo, mas com o tempo fui percebendo que um vestido costurado com palavras simples e entremeado de retalhos poderia ficar muito original. Percebi que de vestidos de gala o mundo da moda já está cheio e que eu poderia sair dali não só como uma costureira que reproduzisse os modelos que as pessoas quisessem, mas que poderia ser uma estilista. Eu poderia costurar imprimindo meu estilo, minha marca. Eu tenho lições de costura ainda, pois quero me formar para atuar não só como costureira das minhas palavras, mas também quero auxiliar pessoas que queiram fazer esta arte. Mas hoje já saio por aí costurando palavras e faço peças inéditas, faço invencionices com as palavras. Entendo que se ela tivesse costurado para que eu copiasse, não teria adiantado nada, eu seria uma costureira copiadora do estilo dela. A arte de costurar palavras é árdua, mas cada peça montada com a própria marca vale à pena.
Campo Grande, 27 de abril de 2012.

18 comentários:

  1. lindo seu texto!! Realmente um estilo...suave de apresentar algo que nem sempre é leve.

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  2. Gostei muito do texto... bonito... simples...cheirando a poesia!

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Parabéns pelo texto.Gostei demais. Realmente "ESCREVER É A ARTE DE COSTURAR PALAVRAS".

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    1. Obrigada Raísa! Seu comentário fez uma rima :)

      ABraços

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  6. Estou encantada com seus textos. *-* Parabéns! Que nunca lhe falte inspiração e que as palavras sejam sempre afáveis com você. :)Beijinhos.

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    1. Obrigada querida. Que bom que gostou!!!

      Abraços

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  7. Isloany Machado, achei seu blog por acaso (grato acaso), pois estou encantada com seus textos, é bonito de se vê, gostoso de lê....uma verdadeira arte! Parabéns!

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Obrigada Nelma! Seja bem-vinda ao Costurando Palavras :)

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  8. Parabéns Isloany pela forma como você consegue escrever incentivando que nós entendamos cada ponto de costura do seu texto! Gosto muito dos textos!

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  9. Que lindeza você, a costura e as palavras!

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  10. Seu texto é ótimo, tem o "comando interno" muito parecido com o que também me dirige - não sei se o algorítimo, a busca da forma, ou a finalização sempre inexistente, a que me remete a remendar, e virar um patchwork e ver um pathwork. Será?
    Fiquei encantado com seu blog, com a relação com psicanálise, ou o que a psicanálise vai nos jogando a traçar nosso próprio caminho.
    Espero frequentar com mais frequência o seu blog. Nunca segui um blog e fiz um verdadeiro derrame de blogs por aí. E exatamente quando estou impelido a novamente escrever, acho o seu blog. Costumo celebrar este encontro como os sinais falados por Jung - não sei se é de seu gosto.
    Bom, enorme prazer. Muito obrigado por toda esta maravilha. Abração
    Érico

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    1. Obrigada, Érico! Tenho postado com uma frequência muito menor, mas te desejo boas vindas!

      Abraço

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