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quarta-feira, 16 de maio de 2012

O Analista e o Mestre dos Magos

            Outro dia estava conversando com meu marido sobre a psicanálise e ele me perguntou alguma coisa sobre a teoria que não me lembro exatamente o que era, mas, diante da minha resposta ele disse: “Por que é que vocês psicanalistas sempre falam por enigmas? Nunca respondem o que a gente pergunta! Parecem uma sociedade secreta! Humpf! Vocês parecem o Mestre dos Magos da caverna do dragão, falam enigmas e depois desaparecem!”. Com certa dose de imaginação fértil e com uma pitada de tempo livre, coloquei-me a pensar sobre o que ele havia dito e conclui que tinha razão. Explico o porquê fazendo um paralelo entre a resposta do analista e a do mestre dos magos.
            Antes abro parêntesis para dizer que o mestre dos magos é um personagem do desenho “Caverna do Dragão” cujo enredo é, em linhas gerais, o seguinte: Cinco adolescentes e uma criança estão em um parque de diversões e resolvem entrar num brinquedo chamado “caverna do dragão”. Esse brinquedo é uma espécie de passeio por um submundo cheio de fantasmas e monstros, o detalhe é que esses seis personagens ficam perdidos nesse submundo e não conseguem voltar pra casa. Cada episódio é uma nova tentativa de voltar e, nesse percurso, precisam enfrentar os monstros, matá-los. A única pessoa que os “auxilia” é o mestre dos magos que, supostamente saberia o caminho de volta, mas ele apenas aparece em alguns momentos, não como um guia, mas como um portador de enigmas a serem decifrados pelos adolescentes. Quando mais precisam, o mestre evanesce, some. A busca pelo caminho de volta é incessante, mas eles nunca conseguem encontrá-lo e dão voltas e mais voltas nesse lugar perdido.
            Voltamos ao paralelo entre a análise e a caverna do dragão. As pessoas que chegam à análise nos perguntam: “O que eu tenho? Quanto tempo isso vai demorar? O que devo fazer?”, assim, é como se dissessem: “Mostre-nos o caminho, mestre dos magos”. Às vezes o mestre respondia que havia encontrado um caminho que os levaria de volta pra casa, mas não os guiava até lá, pelo contrário, fazia enigmas: “Eu localizei uma nave capaz de levar vocês para casa. A resposta está com as crianças perdidas”. Vejam, “a resposta está com as crianças perdidas”, o que poderia ser mais parecido com o que sabemos em psicanálise sobre a criança perdida? Em outras palavras, sobre aquilo que é da sexualidade infantil e que sofre ação do recalque, causando-nos desconhecimento, estranhamento. Por isso, o analista interpreta com enigmas, para que o analisante possa decifrar seu próprio inconsciente. A resposta não está com o analista/mestre dos magos, mas sim naquele saber que não se sabe: o inconsciente. Para Lacan, “A interpretação – aqueles que a usam se dão conta – é com frequência estabelecida por um enigma. Enigma colhido, tanto quanto possível, na trama do discurso do psicanalisante, e que você, o intérprete, de modo algum pode completar por si mesmo.” (LACAN, 1992, p. 38).
            Assim, uma interpretação por enigmas, ou que aponte para a raiz do desejo do analisante, coloca o analista no lugar de objeto a. Para Lacan, “o analista, se faz de causa do desejo do analisante” e em seguida pergunta: “O que quer dizer essa coisa estranha?”, responde dizendo que “o próprio analista tem que representar aqui, de algum modo, o efeito de rechaço do discurso, ou seja, o objeto a.” (1992, p. 45). O analista/mestre dos magos deve, em seu trabalho, representar nada mais que o lugar de rechaço do discurso: o objeto a que seja causa de desejo do analisante para que este possa encontrar o caminho de um desejo inédito.
            Mas é claro que isso não é algo tranquilo em um processo analítico. Não raras vezes os analisantes se angustiam e, tal como o personagem Éric – o histérico que passa todos os episódios a reclamar e apontar para a falta do mestre dos magos – dizem: “Ora, já vem ele com essas histórias de novo!”. Éric se exaspera com os enigmas do mestre dos magos, bem como com seus sumiços. Assim é com o analista: “Por que você nunca responde o que eu pergunto?”, “Me diga, o que eu devo fazer?”, “Eu não suporto os seus silêncios”. O sumiço do mestre dos magos poderia estar em paralelo, desta forma, com o silêncio do analista ou também com o corte de sessão, momento em que o sentido evanesce. Assim, nem o analista nem o mestre dos magos (apesar do título de mestre) encarnam o discurso da mestria, ou seja, não ocupam o lugar de um saber absoluto. Enquanto os adolescentes acreditavam que ele sabia o caminho de volta pra casa, suponho que ele não soubesse de nada.
            No desenho, até hoje há controvérsias quanto ao último episódio, se eles chegaram ou não ao seu objetivo de voltar pra casa. Em psicanálise, voltar pra casa é apenas uma parte do processo. O mais importante é que, ao dar voltas e mais voltas para encontrar O caminho, se descubra que ele não existe, o que se encontra é a busca constante, isso pode apontar para a construção de UM novo caminho. Não se volta pra casa, porque não há mais uma casa, pois algo se perdeu para sempre. Há que se construir uma nova morada. E este poderia ser o último episódio da caverna do dragão. Mas “lembrem-se: às vezes, olhando para trás, vocês podem ver mais claramente o que está adiante”. (MAGOS, 1994).

Isloany Machado
Campo Grande, 30 de abril de 2012.




Bibliografia Consultada:

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 17: O Avesso da Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1992.

MAGOS, Mestre dos. Caverna do Dragão. 1994.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

A arte de costurar palavras

Há uns anos tenho aprendido a arte de costurar palavras. Quando fui pela primeira vez ao ateliê estava com uma bagagem enorme cheia de retalhos e de palavras soltas, alguns carretéis de linha, revistas com moldes, muitos pontos de interrogação e duas agulhas. Imaginei que a costureira fosse me ensinar primeiramente fazendo a costura para que eu pudesse observar e aprender. Mas não, o que ela fez foi e dizer: “costure!”. Confesso que fiquei um tanto apavorada, pois não sabia sequer colocar a linha na agulha. Ela me disse para costurar aleatoriamente as palavras, mas era muito difícil, então eu pegava as revistas e costurava as palavras de um jeito que ficava tudo muito repetitivo. Um dia ela me disse para jogar fora as revistas moldes: “Já chega de repetir os modelos! Vamos fazer um novo, que seja criação sua.” Me angustiei, chorei e, apesar dos meus apelos, ela não colocava a mão na agulha. Esse é o estilo dela, mas já ouvi dizer que em alguns ateliês, não hesitam em meter a mão e costurar pelo aprendiz. Em alguns momentos, quando eu estava lá costurando e costurando, ela jogava um ponto de exclamação ou de interrogação no meio, às vezes mudava a vírgula que eu havia costurado junto com as palavras lá no início, ou ainda arrancava as aspas do lugar dizendo que as palavras eram minhas e que não era mais necessário usar as aspas. Para encerrar um encontro ela fazia cortes no meio da minha costura, pegava a tesoura sem dó e retalhava uma frase que eu costurara com tanta dificuldade. Diversas vezes ela jogou reticências no meio do meu trabalho, e isso quebrava o rumo da costura. E eu tinha que recomeçar, escolher outras palavras, umas novas, outras que precisaram ser tiradas lá do fundo da bagagem. Ela muitas vezes perguntou por que eu não usava os retalhos que estavam já há muito esquecidos, pois isso ajudaria a compor minhas costuras, mas eu tinha dificuldade de achar que um retalho pudesse servir pra alguma coisa. O que eu queria mesmo era criar um vestido de gala, pomposo, mas com o tempo fui percebendo que um vestido costurado com palavras simples e entremeado de retalhos poderia ficar muito original. Percebi que de vestidos de gala o mundo da moda já está cheio e que eu poderia sair dali não só como uma costureira que reproduzisse os modelos que as pessoas quisessem, mas que poderia ser uma estilista. Eu poderia costurar imprimindo meu estilo, minha marca. Eu tenho lições de costura ainda, pois quero me formar para atuar não só como costureira das minhas palavras, mas também quero auxiliar pessoas que queiram fazer esta arte. Mas hoje já saio por aí costurando palavras e faço peças inéditas, faço invencionices com as palavras. Entendo que se ela tivesse costurado para que eu copiasse, não teria adiantado nada, eu seria uma costureira copiadora do estilo dela. A arte de costurar palavras é árdua, mas cada peça montada com a própria marca vale à pena.
Campo Grande, 27 de abril de 2012.