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quarta-feira, 4 de abril de 2012

A Louca e o Exílio


Eu sabia que ela era louca. Desde criança eu já sabia. Dizem que enlouqueceu quando foi mãe pela segunda vez. Não parava de lavar roupa, de madrugada, no frio. Quando sabia notícias dela, era porque estava vindo pra cá. Pra perto, mas era um perto esquisito, porque não a via chegar. Eu sabia da loucura dela só por ouvir os comentários. Aquilo me assustava: “mãe, por que ela é louca?”. Ela sempre foi diferente, desde criança, “se metia na conversa dos adultos, falava difícil, usava as palavras muito corretamente”. Soube que seu pai se irritava com ela. Era “chorona”. Me lembro de tê-la visto várias vezes depois do exílio, sem estar completamente “normal”. “Escondam as facas, as tesouras! Lá vem ela!”. O que não consigo me esquecer é da imagem de seus olhos esbugalhados. Só sabia que ela estava voltando ao normal quando os olhos ficavam murchos, talvez por efeito das pílulas que ela tomava. “Precisam convencê-la a continuar tomando os comprimidos!”. Depois do exílio ela voltava pra casa e, alguns dias depois, quando estava dormente, retornava pra sua casa com a bagagem tilintante de bolinhas coloridas. Eu ouvia dizer que quando chegava lá, alguém dizia: “a verdade te libertará!” e as bolinhas coloridas iam pelo ralo. Alguns meses depois, o retorno ao exílio, e o ciclo reiniciava: depressa esconder facas e tesouras; olhos esbugalhados; bolinhas coloridas; olhos murchos; dormência; retorno; “a verdade te libertará!”. Um dia resolvi ir junto com minha mãe visitá-la no exílio. Me pareceu que os olhos iam saltar. Nesse dia eu vi algo que jamais antes tivera contato, pois somente estivera com ela no retorno do exílio. O que vi foi uma boca nua, trêmula, sem nenhuma linha que contivesse a branquidão amarelecida de seus dentes. Procurei naquele buraco que me pareceu infinito, a humanidade dela: “Mãe, por que ela está sem dentes?”. Não consigo dizer o que mais tinha em volta desse vazio que foi me deparar com a nudez daquele ser humano tão desprotegido do encontro com o real da vida. Ela delirava: “Sabe que eu não como a comida daqui porque eles colocam células humanas? [...] Minha filha, eu vi você e estava voando!”. Depois fiquei pensando como aquilo parecia o relato de um sonho bom, já sonhei várias vezes que estava voando e lembro a sensação gostosa que tive, mas estava de olhos fechados, realizando desejo assim, pelo sonho, com imagens disfarçadas, distorcidas. E ela? Ela via! Imagino que ver tudo seja duro demais pra suportar. Será que era por isso que tinha os olhos arregalados? Ela não podia não ver tudo. Saí de lá com as pernas bambas. Minha mãe não disse nada, nem eu. Mudas seguimos durante o caminho todo, que era longo. O exílio era muito, muito distante da cidade. Era lá onde os loucos ficavam e, alguém que determina onde devem ser esses lugares, decidira que tinha que ser longe das pessoas normais. Depois fiquei pensando, será que era mesmo tão longe ou longe era o lugar onde estavam meus pensamentos enquanto lembrava a cena que acabara de ver? Isso não importa mais. Muitos anos depois tive que aprender a ouvir outros discursos delirantes, e a saber que em cada um havia uma verdade nua e crua, arregalada, desdentada. Estão acabando com os exílios, as famílias têm ficado mais perto de seus “doentes”. Não os chamem de doentes, o limiar entre o “normal” e o “patológico” é tão tênue. Trata-se de algo tão assustador porque faz-nos deparar com um real sem disfarces, sem contornos, sem recalque. Nos intimidamos diante de olhos que veem mais longe do que os nossos. Por que isso é tão difícil de suportar? O difícil de suportar na loucura não é apenas o ritual do “escondam as facas e as tesouras!”, o mais árduo é se deparar com a possibilidade de ruptura desse véu posto diante de nossos olhos pelo recalque, que se evidencia no outro. Ainda bem que restaram os sonhos: até hoje sonho que estou voando...



Campo Grande, 29 de março de 2012.

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