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segunda-feira, 26 de março de 2012

Filosofia aos 60


            Ontem foi aniversário do meu pai. Ele completou 60 anos de idade. Desde quando eu era criança, sempre o ouvi dizer que seu sonho era fazer o curso de Direito, e resolveu fazer agora, aos 60. Por que não fez antes? Não sei, mas isso não importa e é uma pergunta que tem a ver com a minha pressa e não a dele. Então ontem, quando falava com ele ao telefone, para dar os parabéns, me disse que está tendo a disciplina de filosofia e que não está gostando. Eu sorri e disse a ele que é algo muito abstrato mesmo. Daí me lembrei que quando comecei a faculdade, de Psicologia e não Direito, aos 17, também não fazia muito sentido pra mim. Começou a fazer sentido há pouco tempo. Então fiquei pensando o que os grandes filósofos teriam a ensinar a meu pai. É claro que não estou descartando a importância de saber as bases daquilo que se escolhe por ofício, mas talvez não haja muita coisa que os filósofos disseram na teoria que meu pai já não tenha vivido na prática e nas marcas que o tempo deixou nele. Então, se por um lado não fez muito sentido pra mim aos 17, talvez pela imaturidade e prepotência da juventude, pode ser que para ele não faça sentido complicar tanto com palavras o que teve que aprender a simplificar com a vida. Chamam de “epistemologia”. Um nome bem chic, mas quando ouvi pela primeira vez, podia jurar que tinha alguma coisa a ver com comida de passarinho: “alpiste-mologia”. E eu aprendi com a “filosofia” de meu pai, que trabalhar nunca é vergonhoso, ainda que seja pra vender bananas de porta em porta. Não foi Max Weber que disse “o trabalho enobrece o homem”? Também aprendi com ele que estudar é muito importante e que não fazemos isso só porque acumular títulos pode trazer status, mas porque é a única coisa que levamos dessa vida. Nunca saberemos tudo, por isso, nunca podemos parar de estudar. E não é de Sócrates a célebre “só sei que nada sei”? Também me parece que foi Sócrates que falou sobre a virtude, que é a mais importante de todas as coisas e que é preferível sofrer injustiça do que cometê-las. Meu caro Sócrates, foi meu pai quem me ensinou que o mais importante na vida é termos “palavra”. Eu o vi algumas vezes sendo injustiçado, mas não me lembro de tê-lo visto sendo injusto com alguém e foi com ele que aprendi a ter palavra, a não fugir dos meus compromissos jamais, faça chuva ou sol. E Kant com sua filosofia moral? Com os reinos dos fins, imperativos categóricos e etc? Foi meu pai quem me mostrou em ato que não devemos fazer ao outro aquilo que não queremos que façam conosco. Também com suas críticas, me ensinou que sempre devemos duvidar das verdades prontas, e assim, lançou em mim a semente da dúvida cartesiana. É claro que meu pai não é perfeito, fazia negócios mirabolantes, que muitas vezes deixavam minha mãe muito brava, certo dia chegou em casa com um eletrodoméstico usado, que não funcionou, nunca. É pai, essa foi péssima mesmo. Ah, mas ele nunca negou pouso em nossa casa para alguém que precisasse de acolhida, mesmo nesses tempos em que não se pode confiar em ninguém, e com isso me ensinou que devemos acreditar nas pessoas, até que se prove o contrário. Não foi Rousseau quem disse que "o homem é bom por natureza. É a sociedade que o corrompe"? Não sei se concordo com isso.  Teve também seus fracassos obviamente e, mesmo que nesses momentos possa ter se sentido envergonhado diante das filhas (suposição minha), talvez não soubesse que o que um pai transmite a um filho deve ser sempre algo da ordem de um fracasso, de uma falta. E quando eu achei que já tinha aprendido tudo o que podia com meu pai, porque há 10 anos não moramos juntos, ele resolve fazer, aos 60, a faculdade que sempre sonhou. E me surpreendo com mais uma, ou algumas lições dessa filosofia paterna: “não ceder de seu desejo”, a bela fórmula do psicanalista Lacan, em outras palavras, não abrir mão de seus desejos, custe o que custar. Aprendi que mesmo custando caro, maior ainda é o preço que se paga por nos acovardarmos diante do que almejamos. E isso é da ordem de uma ética, a ética do dever, do desejo. Entendo que viver é um dever e ter contentamento diante de nossas escolhas deve suplantar o trágico do real da vida. Mais uma coisa ainda: aprendi que o sujeito não envelhece. Esse sujeito do desejo não tem idade. Sempre ainda é cedo. E daí é claro que eu acordaria inspirada com essa frase na cabeça: “filosofia aos 60”. Então, o que posso dizer a meu pai diante do seu “não tô gostando da matéria de filosofia”? Pois o que digo é que ele não fica muito atrás com o saber dos grandes filósofos, que na verdade usaram palavras difíceis para dizer algo que meu pai descomplicou pra mim, mesmo sem saber.  

Campo Grande, 21 de março de 2012.




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