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segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Carta 1 - Valsa da Vida*

*Inspirado no texto "Os ombros suportam o mundo" de Carlos Drummond de Andrade
 
Para meu sobrinho Henrique


 
 
Chega um tempo em que a vida é olhada de trás pra frente. Em que algumas ficções parecem absurdas demais.
Chega um tempo em que encontramos a ponta da cortina que encobre o real. Depois disso, descobrimos que somos mortais, estupidamente mortais.
Algumas vezes a cortina da vida se escancara em nossa frente e nós, desarvoradamente, tentamos puxá-la de volta. A cada minuto, a cada segundo.
O tempo passa, a poeira vai ficando cada vez mais grossa nos cantos, entre uma palavra e outra.
Reunimo-nos e tentamos renovar os sonhos, as crenças, os laços.
Fazemos promessas a nós mesmos, diante de testemunhas familiares.
F-A-M-I-L-I-A-R-E-S
A cada reencontro notamos como tudo é tão familiar.
Batemos de frente com tudo aquilo que é familiar, é velho conhecido, acostumado.
Às vezes é preciso ir para o estrangeiro, para tentar construir um outro, diferente.
Os laços se revelham para se renovar. 
Relançamos a vida, dançamos a valsa da infinitude, mas a ponta da cortina às vezes se prende aos nossos pés e caímos. Mas levantamos, é preciso dançar a valsa até o fim. É um dever.
Chega um tempo em que perdemos a fé, mas nem por isso ficamos tristes. As ficções se renovam também, criamos outras, novas, inéditas.
Acreditamos em algo para que os que vierem depois não percam a capacidade de criar.
Chega um tempo em que nossa prece diz pouco, e, sem saber pra quem, pede que nunca percamos a capacidade de nos reinventar.
Mas até que a prece fale pouco, o que queremos é que tudo se apresse. Gritamos até que a voz fique rouca. Dasarvoradamente pedimos que a prece se apresse.
 Ao ouvirmos os ecos de nossa voz, aprendemos então a nos reinventar. Não voltamos a acreditar nas velhas coisas, mas em outras.
Chega um tempo em que aprendemos a acreditar na vida, mesmo com a cortina lá, no canto empoeirado dos vãos das palavras.
Mesmo que sejamos estrangeiros sempre, há um'alíngua cujos verbos conjugamos familiarmente. Assim a vida se renova. A cada novo membro.
Chega um tempo em que, mesmo sabendo das impossibilidades de suprir o desamparo, ainda assim criamos um ninho bem feito de palavras para cada novo membro.
Seja bem-vindo ao nosso ninho Henrique! Desejo que faça peripécias com cada fiapo desse ninho, que o destroce e que você aprenda a voar, e a se reinventar sempre, criando outros ninhos, quantos forem necessários.
Isloany Machado, 26 de dezembro de 2012.
 
 

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Por que você?




Algumas coisas não têm explicação, não precisam ser explicadas. Não foi o que ouvimos esses dias? Rimos muito disso naquele contexto... Acho que o melhor é poder rir ao seu lado. Me parece verdadeira essa história de que algumas coisas não têm explicação, mas isso não me impede de devanear. Eu estava outro dia pensando e tentando quantificar o número de pessoas que vivem nesse mundo. Não consegui imaginar, mas imediatamente pensei que no meio de tanta gente eu escolhi você. Já sabe que eu não sou muito romântica, dificilmente escrevo sobre o amor. Lacan dizia que a relação sexual não existe. É uma maneira de dizer que dois não fazem um. Não há completude. Então, o amor também é construção, é ficção, nem por isso deixa de ser verdadeiro. Assim, você não é a tampa da minha panela, menos ainda a metade da minha laranja. Você não me completa. Ainda bem, pois se completasse, eu ia querer outra coisa. Você me descompleta e, assim, me permite voar. Voando eu consigo ouvir o sibilar do vento ao atravessar meu peito. Ouvindo o barulho do vento no vazio de mim mesma, consigo ouvir meus pensamentos inconscientes. Com isso posso pegar a caneta e escrever.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Balzac é melhor do que Prozac



Depois de ler Madame Bovary, quis saber que obra era aquela que inspirara Flaubert a criar uma personagem tão perfeitamente parecida com aquelas que deram origem à psicanálise. Dizem que foi influenciado pela literatura balzaquiana de A mulher de trinta anos. Fui então a ela, a essa tão famosa mulher de 30! Ao lê-la me deparei com uma mulher que sofria calada, não muito diferente de Ema Bovary, cujo marido somente soube de suas insatisfações a posteriori. Júlia, a marquesa d’Aiglemont, era infeliz no casamento, pois também se decepcionara com as qualidades do marido e com a desatenção dele para com ela.

O fato é que encontrei n’A mulher de trinta anos, o fantasma das mulheres belas, delicadas, finas, femininas e...insatisfeitas. Balzac é mais sutil do que Flaubert na descrição dos desejos e dos prazeres vividos pela mulher. Não é à toa que Madame Bovary, obra considerada realista, causou tanto espanto ao ser publicado. Balzac descreve as mulheres quase que como seres superiores cujo sofrimento as faz sublimes, pelo jeito Balzac parecia ser daqueles homens que veem beleza nas mulheres de semblante melancólico. Tenho que confessar que gostei mais de Ema do que de Júlia. Ema era uma mulher que se envolveu em relações devastadoras. Júlia, pelo que fica subentendido, também teve lá seus romances, mas era uma mulher contida. Ema morre de amor, Júlia chega à velhice e seus sentimentos não são tão bem explorados por Balzac, que se prendia mais aos aspectos concernentes à sua beleza.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Sobre Madame Bovary




Esses dias estive às voltas com um primor de livro chamado Madame Bovary, de Gustave Flaubert. Um clássico da literatura francesa do ano de 1857, século XIX, portanto. Quando lançado, causou desconforto e foi acusado de atacar a moral e a religião. Flaubert foi processado por isso, mas o fato é que o livro acabou ganhando ibope ainda mais.  Considerado como sendo de literatura realista, teria sofrido influência de Honoré de Balzac em A mulher de trinta anos. Madame Bovary conta a história de Ema, uma moça camponesa que estudou num convento, mas não tinha vocação para freira. Era bela, de cabelos longos e olhos grandes, ambos negros. Ela era graciosa e inteligente, sabia de música, de literatura, de bordados, da vida parisiense, e de tudo que uma moça estudada poderia saber à época. Morava com seu pai em uma fazenda até casar-se com Carlos Bovary, um jovem médico viúvo que se encanta por ela. Ema queria viver um grande amor, mas depois de casada, não se reconhece nas grandes personagens que lera nos romances e se decepciona. Seu marido era um homem simples que trabalhava muito e a adorava, tanto que a colocava num pedestal. Ema queria mais! Ela queria que sua vida fosse pulsante, queria ser arrebatada por uma vida tão intensa que a sufocasse de amor, queria ser amada com paixão. Ela se apaixona por outros homens e não apenas uma vez, mas ao não sentir mais a máxima expressão do amor, há sempre desencanto e o desejo mantém-se insatisfeito. Mas eu fiquei encantada com a quantidade de questões possíveis e passíveis de enxergar nesta obra.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

A ciência moderna e o belo


Outro dia vi um moço com o cabelo cheio de cachinhos miúdos. A visão me chamou a atenção por seu aspecto diferente. Imediatamente avessei meu pensamento e em seguida fiquei tentando saber o porquê de aquele cabelo ter chamado tanto minha atenção. Lembrei que esses dias estava às voltas com a ciência moderna. Este modelo de ciência teve como ícone René Descartes, filósofo francês que propôs “purificar” o método do conhecimento científico. Os conceitos científicos tinham que ser “claros e distintos”, as paixões humanas foram relegadas a segundo plano: “meu espírito é um vagabundo que gosta de se perder e não poderia suportar que o prendam nos justos limites da verdade. Soltemos-lhe, pois, mais uma vez as rédeas e, dando-lhe todo tipo de liberdade, permitamos-lhe considerar os objetos que lhe aparecem externamente, para que, vindo mais tarde a retirá-la lenta e convenientemente e a detê-lo na consideração de seu ser e das coisas que encontra em si mesmo, ele se deixe depois disso mais facilmente governar e conduzir.” (DESCARTES, 1641/2008, p. 93). Era preciso governar este espírito vagabundo. Com a influência destes pressupostos, surgiu um leque de possibilidades teóricas que, em sua aplicação, varreram das ruas os loucos, os doentes, e tudo aquilo que destoasse da retidão proposta pela ciência moderna.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Diálogo de mim comigo mesma sobre Cem anos de solidão


Virei a última página do livro e senti que esfarelava em minhas mãos depois da ventania que aquela história causou em mim. Ventos tão fortes e devastadores que não pude deixar de me perguntar:

- Isloany, onde é que você esteve durante todo o tempo em que não leu Cem anos de solidão? O que fez da sua vida até agora? Disse mim.

- Eu só queria ter fugido da devastação, mas algumas coisas são inevitáveis na vida. Ler este livro, por exemplo, é uma das coisas indispensáveis, apesar de meus olhos terem se enchido de poeira depois do vendaval. Afirmei comigo mesma.

- Isloany, não há justificativa plausível para o fato de nunca tê-lo lido. Onde mesmo você estava? Por onde andou? Esbravejou mim com os olhos vermelhos de raiva.

- Provavelmente eu estive debruçada em livros de psicanálise tentando entender as neuroses, cujo núcleo é o romance familiar. A família é o núcleo da neurose, você sabia? Entendi isso depois de alguns anos desfiando e descosturando as linhas com as quais costurei minhas histórias familiares. Mas bem que Freud dizia que um artista sempre chega antes que o psicanalista. Isso e muitas outras coisas ficaram nítidas para comigo mesma depois de ler esta obra prima de Gabriel García Marquez.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Madagascar, um ensaio sobre o desejo



Outro dia uma pessoa riu quando eu disse que adorava filmes infantis. Digo de novo: adoro filmes infantis! Aprendo muito com eles, inclusive sobre psicanálise. Esses dias, assisti o último da trilogia Madagascar: Os procurados. Para quem não assistiu nenhum dos três, vou fazer um breve resumo. As personagens principais moram num zoológico, nada mais, nada menos que o Central Park, em Nova York/EUA, e são: Melman (uma girafa macho, hipocondríaca), Alex (um leão vaidoso, estrela mor do zoológico), Glória (o hipopótamo, fêmea e graciosa, mais corajosa do que os machos) e Marty (uma zebra macho, cujo maior desejo é sair do zoológico e conhecer a natureza).

            Toda a história começa com o aniversário de Marty que, na hora de fazer o pedido ao cortar o bolo, pede para sair do zoológico e conhecer a natureza. Na primeira oportunidade, literalmente cavada pelos pinguins moradores do zoológico também, Marty, movido por seu desejo, foge. Seus amigos temem por sua segurança e vão atrás dele. São apreendidos pela guarda local e, devidamente acomodados em caixotes, são mandados de volta para o zoológico. Algo dá errado no caminho e eles caem no mar. Todos sobrevivem, mas vão parar na ilha de Madagascar.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Uma Senhorita Aranha que não sabia fazer teia


Senhorita aranha precisava de uma casa, já estava bem grandinha e decidira sair da moradia da família. Escolheu um bom lugar, sem excesso e nem falta de luz. Esta senhorita nascera com um defeito que fazia toda a diferença em sua vida: não podia fazer teia porque não podia produzir fios. Como poderia fazer sua casa então? Com toda a inteligência que lhe era possível, senhorita aranha pegou essa primeira frase “como vou fazer minha casa?” e lançou de um lado a outro. Pronto, sua ideia dera certo. Tudo o que tinha em mãos eram as frases que dizia, e resolveu usá-las para construir sua casa.

Lançada a primeira frase, agora ela só precisava montar a teia. Senhorita aranha lembrou-se de uma cena de sua infância e falou: “a mamãe é só minha!”. Pegou em seguida e lançou sobre a outra frase. Pensou mais uma: “você não sabe fazer teia”. Foi jogando uma sobre a outra numa verdadeira chuva de frases. “Não era pra você ter nascido, sua feia”; “você pode ser o que quiser”; “por que você está chorando?”; “você vai sair de casa?”; “tem certeza disso?”; “eu acho que não vai dar conta”; “ahahahaha, vai morar embaixo da ponte”; “uau, como você é linda”; “se não fosse tão cascudo, eu ia querer namorar você”; “não sabe fazer teia, mas é bonitinha”; “que aranha exótica”.

E assim, senhorita aranha construiu sua casa. Algumas palavras que ela usou se entrecruzaram em diversas frases. Eram pontos de nó nos quais ela sempre tropeçava, mas davam firmeza para a estrutura como um todo. Havia também os buracos, como em toda teia. Às vezes admirava-se com sua construção. Ela queria mesmo era ter feito uma teia que se parecesse um tecido mais fechado, em que se sentisse mais segura para caminhar sem correr o risco de cair nos vãos. Então ela falava, falava, falava, tentando aperfeiçoar sua casa e eliminar os buracos, mas o que ela percebia era que eles estavam sempre lá, por mais que ela falasse e lançasse as muitas frases.

Com o tempo, senhorita aranha, que não era boba nem nada, percebeu que uma teia assim com espaços estre frases e outras também capturava mais facilmente seu alimento. Acomodou-se melhor em sua teia ao perceber que sem os buracos não poderia sustentar-se.


Isloany Machado, 23 de maio de 2012.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Carta a Dom Quixote




Estimado cavaleiro errante, bravo Dom Quixote de La Mancha. É com muito pesar que lamento tê-lo conhecido tantos anos depois de tua tão heroica e aventureira vida vivida nos idos de 1605. Desejaria ter sido contemporânea tua para ter a honra de conhecer uma pessoa tão valorosa e sincera como tu foste. Há apenas dez minutos terminei de ler o livro que conta sobre tuas aventuras como cavaleiro errante, em companhia de Sancho Pança. Em vários momentos ri das parvoíces de Sancho, mas ele também foi um homem muito valoroso, pois mesmo quando todos diziam que tu estavas louco, ele não te abandonou sequer um minuto, mesmo em teu leito de morte.

            Sabe Cavaleiro da Triste Figura, apesar de terem se passado muitos séculos, o mundo ainda não permite que sonhemos. Na verdade, os sonhadores continuam sendo chamados de loucos, assim como em vida tu foste. As pessoas “sãs” não suportam as divagações daqueles que acreditam que é preciso lutar contra as injustiças desse mundo. Continuam a troçar com todos os que sabem um tantinho a mais sobre o real. Tu, digníssimo cavaleiro, carregavas contigo a certeza de que tua missão era a de levar um pouco de alento para os corações que sofrem com as mazelas humanas.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O famigerado número cinco



Outro dia me coloquei a vasculhar lembranças. O processo de vasculhamento foi motivado depois de eu ter escrito o número cinco em um pedaço de papel à toa, uma lista de supermercado talvez. O caso é que eu sempre tive dificuldade em escrever o número cinco. Não sei onde está a falha, se na falta de treino com caligrafias numéricas, se na minha preguiça mesmo, ou na pressa que tenho quando vou escrever qualquer coisa. De modo que meu cinco sempre se pareceu com outra coisa que não fosse cinco, talvez um S, talvez o desenho de uma minhoca retorcida, não sei.

Mas eu nunca havia me dado conta do caso até o fatídico dia. Cursava ensino médio e o professor de física dividiu a turma em grupos “homogêneos”. Ele acreditava que nós adolescentes éramos todos iguais. A divisão foi motivada por um seminário que ele estava propondo que fizéssemos. A proposta era assim: “Vocês querem fazer um seminário?”. Bem, na verdade a proposta era assim: “Vocês vão fazer um seminário!”.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Declaração Universal dos Avessos Humanos



Considerando que o desprezo e o desrespeito pelos avessos humanos resultam em atos bárbaros que ultrajam a inconsciência da humanidade,

Considerando fundamental que os avessos humanos sejam protegidos pela liberdade de fala, para que o homem não seja compelido, como último recurso, à rebelião contra a tirania e a opressão racional,

Considerando essencial promover o desenvolvimento de relações amistosas entre as instâncias psíquicas,

Considerando que uma compreensão comum desses avessos é da mais alta importância para o pleno cumprimento desse compromisso,

A teoria psicanalítica proclama:

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

O palito premiado



Nunca acreditei muito na sorte. Lembro que na infância, a única vez que ganhei alguma coisa foi quando concorri a uma bola de vôlei. Fiquei feliz por ganhar o prêmio, mas a bola estava furada. Nós enchíamos de manhã e, à tarde, já estava murcha. Tudo bem, eu não gostava de vôlei. Ah, sim, participei ainda de vários outros sorteios e rifas, mas sempre era outro que ganhava. Passei a achar que não era uma pessoa de sorte, no sentido estrito da palavra.

            Foi no começo do ano passado que tudo mudou. Estava no intervalo de aula com alguns colegas quando um picolezeiro apareceu em nossa frente. Estava muito calor e cada um de nós tomou a primeira rodada de picolés. Tudo correu bem. Foi na segunda rodada que tive a surpresa: havia tirado o palito premiado. Até então, eu achava que essa história era uma lenda urbana, assim como os contos de fadas, as histórias de vampiros e magos. Surreais. Mas eis que o palito pulava na minha frente. Olhei ao redor procurando o picolezeiro, mas ele sumira, exatamente como fazia o mestre dos magos, da caverna do dragão. Puf! E sumiu.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Sobre a técnica da Psicanálise


A psicanálise é ciência do avesso.

Quando um paciente nos procura ele traz uma frase, é a sua “queixa”. O analista deve pegar a frase e virá-la do avesso. Toda frase comporta buracos entre uma palavra e outra, enfie o dedo no buraco da frase e vire. Desta forma o paciente poderá ficar com um ponto de interrogação sobre os motivos que o levaram a procurar a psicanálise. Em geral ele chegará não só com uma frase, mas com um emaranhado delas. O analista precisa ser paciente, pois com o tempo poderá revirar uma por uma. A partir dos primeiros avessamentos, nas entrevistas iniciais, se o paciente pensar que este outro lado é possível e que foi ele quem avessou as frases, transforma sua queixa em demanda de análise. Na interpretação, o analista poderá utilizar algumas técnicas. Uma delas é a citação, na qual ele deverá lançar luz sobre as palavras do paciente. Com uma lanterna, ou algo mais forte, isso depende do estilo do analista, deverá destacar do próprio discurso do paciente alguma frase atravessada.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Angústia no ônibus



Dia desses estava às voltas com o texto “Angústia”, de Anton Tchekhov. Ele conta a história do cocheiro Iona Potapov, que não sabe a quem confiar sua tristeza. Potapov perdeu um filho e está angustiado com isso, pois nem sabe exatamente o que aconteceu. Quando seu primeiro passageiro sobe, Iona vira-se e move os lábios, “sem dúvida, quer dizer algo, mas apenas uns sons vagos lhe saem da garganta”. O passageiro lhe pergunta “o quê?” e ele diz que perdeu um filho. “De quê?”, mas Iona não sabe exatamente. Acha que foi febre, conta que ele passou três dias no hospital e morreu, certamente pela vontade de deus. Em seguida o passageiro muda de assunto. “Depois, torna a olhar algumas vezes para o passageiro, mas este fechou os olhos e parece pouco disposto a ouvir.” Iona fica com a palavra entalada.

Momentos depois chegam alguns rapazes muito animados e lhe solicitam uma corrida. Durante uma brecha na grande algazarra que fazem os moços, Iona diz: “Esta semana... assim, perdi meu filho!”. E o que ouve como resposta é somente: “Todos vamos morrer”. Depois de alguns minutos um dos rapazes lhe pergunta se é casado e ele responde: “Agora, só tenho uma mulher, a terra fria... O túmulo, quer dizer!... Meu filho morreu, e eu continuo vivo... Coisa esquisita, a morte errou de porta... Em vez de vir me buscar, foi procurar o filho...”, e volta-se novamente para contar como morreu o filho, mas chegavam ao destino. Ele fica então sozinho, “torce o corpo e entrega-se à angústia... Considera já inútìl dirigir-se às pessoas. Mas, decorridos menos de cinco minutos, endireita-se, sacode a cabeça, como se houvesse sentido uma dor aguda e puxa as rédeas...”.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Anúncio no jornal

 

Senhor Pereira pegou o jornal depois que todos na casa já dormiam. Vasculhou as páginas de classificados rapidamente a avistou um anúncio que dizia:

PsiVâniaAmar – atendo adolescentes, adultos e casais. Tel: 9988-XXXX.
 
              Afoito que estava, pegou o telefone e discou o número anunciado. Depois de alguns instantes, uma voz feminina, até meio rouca, segundo o seu julgamento, atendeu.

- Alô?

- Oi?! Eu gostaria de saber quanto é que você cobra para atender um adulto com animação de adolescente?

- Como é o caso? Adulto ou adolescente? Não entendi.

- Meu bem – disse com a voz melosa – é quase adolescente.

- Prefiro marcar um horário para fazermos uma entrevista inicial. Depois combinamos o valor.

- Nossa minha querida, quanta cerimônia. Você não pode dizer o valor?

- Eu prefiro avaliar primeiro, pois não sei a princípio se vou precisar de algum material extra.

- Ah, você gosta de brinquedinhos?

- Como é? Mas não disse que era adolescente? O máximo que usarei serão alguns jogos.

- Está bem, minha flor. O que você quiser. Adoro joguinhos também.

- Gostaria de saber quem foi que me indicou? Como ficou sabendo do meu trabalho?

- Foi pelo anúncio do jornal. E então, me diga aí seu endereço.

- Ah, sim. É rua Felizberto Miranda, 1980, Jardim Madalena. Tem preferência por algum horário?

- Pode ser amanhã às 23h?

- Às onze da noite? Mas que coisa é essa? Eu atendo em horário comercial!

- Logo se vê que é uma profissional discreta. Então me diga que horário tem disponível na parte da manhã?

- Você está com sorte, tenho uma vaga às 10h.

- Então nos vemos amanhã. Me aguarde. Disse ele, bem faceiro por ter escolhido uma profissional experiente, quase sem horário disponível. Isso significava, segundo seu julgamento, que teria bons momentos de prazer.

            Dormiu feliz e na expectativa pelo dia seguinte. Acordou cedo para ter tempo suficiente de tomar banho demoradamente, fazer a barba e perfumar-se. Apanhou o carro e foi em direção ao endereço que havia anotado. Já estava em polvorosa. Começou a ficar impaciente, pois não estava encontrando o local. Resolveu ligar.

- Alô?

- Oi, minha linda. Eu não estou encontrando seu endereço. Tem algum ponto de referência?

- Ah, sim. Me desculpe por não ter falado ontem. Fica meio escondido mesmo.

- É melhor assim, prefiro que não me vejam.

- Na esquina há uma farmácia com a fachada verde chamada Vitalis.

- Ah, já passei por ela. Vou retornar e em alguns instantes estou aí. Um beijo.

- (!).

            Foi acompanhando a numeração da rua: 1750, 1892, 1899, 1900, 1950, 1980. Deu um risinho de canto de boca ao encontrar. Era uma casa bastante discreta e ele achou até pomposa. Devia ser uma profissional de luxo. Tocou o interfone e, depois de alguns segundos, viu o cliente anterior saindo por uma porta lateral. A porta abriu automaticamente, ele entrou. Deu de cara com uma mulher de uns 35 anos - era mais velha do que ele imaginara – discretamente vestida com um tailleur cáqui, o que ele não achou nem um pouco atrativo. Havia fantasiado algo completamente diferente.

- O senhor é o pai?

- Pai?

- Sim, me desculpe, mas eu havia entendido que o atendimento era para um adolescente. Devo ter entendido errado. Entre. Pode sentar-se naquela poltrona.

            Ele deu uma olhada panorâmica pela sala e achou que não parecia um ambiente adequado para os serviços prestados pela moça. Resolveu sentar-se, pode ser que ela tivesse algum fetiche diferente.

- Então – disse ela – o que o motivou a procurar o atendimento?

- Sabe o que é, linda. É que eu tenho muito apetite sexual.

- Mas acredita ser isso uma questão para o senhor? Isso atrapalha muito a sua vida?

            Ele estava achando a conversa meio estranha, principalmente depois que ela colocou uns óculos de aro escuro. Olhou para o lado e avistou uma coleção de livros com a capa preta e precisou apertar os olhos para ler “Sigmund Freud”. Ele sabia que esse tal de Freud falava de sexualidade. Empolgou-se ao pensar que a moça era uma especialista na coisa: “mas que sorte eu tive em ler este anúncio!”. Mas já estava ficando impaciente com a distância entre eles. Levantou-se e aproximou-se dela.

- O senhor está com algum problema?? Exclamou ela, ao perceber o olhar luxurioso dele.

- Acho que você pode resolver todos os meus problemas, minha delícia!

- O que foi que o senhor disse?! Ponha-se já para fora daqui!!! Agora!!! Berrou ela.

            Ele pensou em insistir, mas rapidamente desistiu, pois aquela mulher estava lhe parecendo muito excêntrica. Além do mais, pelo chiquê do lugar, deveria cobrar uma fortuna por um programa. Saiu meio estabanado porta afora e não reparou na pequena e discreta placa no muro cujo letreiro dizia:

Ψ Psicanalista Vânia Amaral
           
             Foi embora praguejando a perda de tempo. Enquanto isso, a psicanalista lá dentro do consultório ainda estava indignada com a atitude do paciente: “Mas que transferência erótica! E assim na primeira sessão?”. Sacou um dos livros de capa preta e abriu no texto “O amor de transferência”.

Isloany Machado, 06 de agosto de 2012.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Uma cadela muito esperta


Há alguns dias estava tendo aula de psicanálise e o professor citou Pessoa: “é preciso ir ao rabo das coisas”. Imediatamente pensei na minha cadela. July é preta lustrosa, seu nome completo é July Preta. Sua mãe era da raça labrador e morreu de diabete. O pai era de uma raça enrugada. July Preta nasceu com cara de paisagem. Mas por que pensei nela diante da citação do professor? “É preciso ir ao rabo das coisas”. Todas as noites, July corre atrás do próprio rabo. Até o dia em que eu ouvi esta frase de Pessoa achava que July, com aquela cara de paisagem, era uma tola que corria atrás do rabo para chamar nossa atenção, ou porque não tinha mais o que fazer na sua vida monótona de olhar a rua pelas frestas do portão. Ela tem mania de bolinha, “nisso ela se parece com todos os outros cachorros”, dirão os outros donos de cachorros. Mas July Preta praticamente tem uma bolinha acoplada na boca. Ela pode estar dormindo ou fazendo qualquer outra coisa, mas sempre que nos vê, imediatamente acopla a bendita bolinha na boca. Depois dessa aula descobri que o ritual noturno de July – correr atrás do próprio rabo – é uma busca incansável pelo sentido da própria vida. E com aquela cara de boba! Pensei também em Safira, a outra cadela que tivemos e infelizmente já se foi. Quando ganhamos Safira, ela já não tinha rabo. Mesmo assim corria atrás de si mesma, mas notava nela uma espécie de expressão melancólica, sabia fazer cara de coitada pra mostrar sua falta, de rabo. Safira tinha muitos momentos felizes, brincava de bolinha, de lutinha, mas não podia morder o próprio rabo. Se um dia ela tentou, não o encontrou e desistiu de procurar, porém carregou esta perda estampada em sua cara de piedade. July Preta e Safira, quase opostas. Depois de pensar no rabo delas, pensei nas pessoas. Em seguida pensei na psicanálise para pensar nas pessoas. Já perdemos o rabo quando entramos no universo da linguagem. Algumas pessoas carregam, assim como Safira, uma tristeza, um luto pela perda do rabo, mas não querem mais correr atrás de si em busca de respostas. Outras pessoas são como a July, incansáveis na busca. Ela tem o rabo e mesmo assim corre atrás dele, pois sabe que as respostas não estão nele, ou na coisa em si, dito de outro modo. Algumas pessoas buscam o rabo perdido exclusivamente na religião, outras no trabalho e outras em outros lugares. Há um tipo de pessoas que, lá no fundo, sabem que perderam o rabo, daí buscam um analista e lá em seu consultório fazem o ritual da July: correm atrás de si buscando o sentido. “É preciso ir até o rabo das coisas”. Eu diria ainda que é preciso ir até o rabo para perceber que somos todos como Safira. Acrescentaria que há certa ética em ir até o rabo, mesmo sem encontrá-lo. É preciso entender que buscar sempre, é assumir uma postura diante do mundo, para questionar as certezas. Assim é o discurso da histeria: a busca. Citarei Manoel de Barros para falar desse discurso de forma poética: “Do lugar onde estou já fui embora”. A partir dessa aula, nunca mais achei que July Preta seja tola. Pelo contrário, sempre que posso me junto a ela no quintal de casa assim que inicia seu ritual noturno de corrida incessante atrás do rabo.  




   

Isloany Machado, 30 de maio de 2012.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Carta a Manoel de Barros - Ensinagens e aprendimentos



Caro Manoel,

            Outro dia estava lendo alguns de seus poemas e confesso que fiquei muito emocionada com os aprendimentos que tive. Vou te dizer o porquê. Eu estou fazendo mestrado e às vezes fico muito angustiada, pois quanto mais estudo, mais eu desaprendo. Assim, mais eu sei o quão pouco sei. Minha preocupação é com o fato de que terei que usar doutamente as palavras para escrever minha dissertação. Por enquanto o que faço é escrever da minha deser[ta]ção. Você não pode imaginar a alegria que senti ao reler seu texto justo neste momento.

            Quando eu era criança, meu pai dizia que tínhamos que estudar muito, ler, fazer faculdade, mestrado, doutorado. Eu muitas vezes senti vontade de "cuspir" o doutorado de lado. No final das contas, depois de ouvir os conselhos de meu pai, eu e minha irmã, assim como nas suas poesias, inventávamos brinquedos com as palavras, subvertíamos a ordem das letras, das sílabas, das palavras de uma frase. Daí li no seu poema o seguinte: “A gente inventou um truque pra fabricar brinquedos com palavras. O truque era só virar bocó.” Eu não sabia que eu e minha irmã já sabíamos virar bocó desde aquele tempo. E a gente ouvia sempre alguém dizer que um fulano, de tanto estudar, tinha ficado bocó. Será que meu pai sabia que ser doutor faz da gente bocó?

            Foi muito grande o alívio que senti ao lê-lo porque percebi que estou no caminho certo: “A sensatez me absurda.” E adquiri muitos aprendimentos com você ao perceber que estudar só me serve se for pelo avesso da ciência, na medida em que me faça mais bocó. Aqui em casa estamos cultivando a insensatez. Eu hoje acordei pelo avesso: coloquei para aquecer no micro-ondas uma caneca vazia e no café da manhã o que tomei foram 300ml de risada. Ler você é alivioso nesses momentos: “O despropósito é mais saudável do que o solene”. Inventei um brinquedo assim: toda palavra torta me conserta e me concerta de araras.

            Pois, estou às voltas com a ciência. Às vezes me sinto idiótica e preciso escrever “delírios verbais”, como diz você, eles também “me terapeutam”. Descobri com suas ensinagens que gosto mesmo é de ser bocó e vou utilizar algumas de suas definições: “Bocó é gente sem pensa. Bocó é sempre alguém acrescentado de criança. Bocó é um que gosta de conversar bobagens profundas com as águas. Bocó é aquele que fala sempre com sotaque das suas origens. É sempre alguém obscuro de mosca. É alguém que constrói sua casa com pouco cisco. Bocó é aquele que olhando para o chão enxerga um verme sendo-o”.

            Eu estudo uma tal de psicanálise, é uma teoria que só se compreende quando vira bocó, pois é preciso ser “acrescentado de criança” e saber construir a própria casa “com pouco cisco”. Sabe Manoel que, em seu surgimento, a psicanálise causou muitas controvérsias entre os que queriam defini-la como sendo ou não ciência. Freud defendeu sua teoria do inconsciente com unhas e dentes para dizer que não podia ser outra coisa que não ciência, mas quanto mais ele estudava e teorizava, mais notava que as produções do inconsciente surgiam quando a gente virava bocó, pois é preciso falar “sempre com sotaque das suas origens”, como disse você, e é quando saímos do discurso douto que produzimos as bobagens mais fantásticas, que contam sobre quem somos. Mas Freud era muito polido e conviveu bem com os homens de suspensório.

 Lacan, psicanalista posterior a Freud, disse algo muito parecido com aquilo que li no seu poema: “as palavras possuem no corpo muitas oralidades remontadas e muitas significâncias remontadas”, e que é preciso “atrapalhar as significâncias, desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos”. Lacan não era polido como Freud e estava se lixando com a ciência, lembrei-me dele quando li no seu texto que, para limpar das palavras alguma solenidade você usa bosta! Lacan bagunçou as significâncias: “O sujeito não é aquele que pensa. O sujeito é aquele que engajamos, não para dizer tudo – não se pode dizer tudo – mas a dizer besteiras. É com essas besteiras que vamos fazer a análise, e que entramos no novo sujeito que é o do inconsciente. É justamente na medida em que ele não quer mesmo mais pensar, o homenzinho, que se saberá talvez um pouco mais dele, que se tirará algumas consequências dos ditos.” (LACAN, 1985, p. 33). Então Manoel, dizer besteiras em análise é virar bocó. Você não disse que bocó é gente “sem pensa”?

            Fico, dessa forma, muito aliviada por aprender com você mais uma porção de coisas sobre a desimportância da ciência. Só consigo conviver com a importância dos conceitos a partir das suas desimportâncias, de seus avessos. Imagino que meu pai soubesse que quanto mais a gente estudasse, mais deveria virar bocó e que isso seria bom, pois, caso contrário, perderíamos a capacidade de olhar para o chão, daríamos mais importância a uma Usina Nuclear do que para o “cu de uma formiga”. Sabe Manoel, as pessoas nada querem saber sobre o cu da formiga, preocupam-se com coisas importantes que, no fim, não lhes respondem nada, e seguem angustiadas. Às vezes sinto vontade de berrar: “Hei!!! Olhem para o chão!!! Olhem o mundo pelo avesso!!!” Mas não dá pra avessar o mundo assim goela abaixo, há pessoas que avessam, outras não. Bem, enquanto isso, sigo fazendo meu trabalho, sabendo que “a ciência pode classificar e nomear os órgãos de um sabiá mas não pode medir seus encantos” e  sempre lembrando que o saber apenasmente me serve na medida em que me faça cada vez mais bocó. Manoel, obrigada por tantas ensinagens, sobretudo aquelas sobre nada.

Isloany Machado

 Campo Grande, 03 de maio de 2012. 

Textos Utilizados:

Barros, Manoel de. Livro sobre nada. In: Poesia Completa. São Paulo: Leya, 2010.

Barros, Manoel de. Memórias Inventadas: As Infâncias de Manoel de Barros. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2010.

Lacan, Jacques. O Seminário, livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Carta aberta ao índio Sol

Meu caro,

Desde pequena sempre me interessei por tudo o que claudica, meus olhos sempre se voltaram para os avessos humanos. Desta forma foi por este olhar que encaminhei minhas escolhas em tudo na vida desde muito cedo. Assim foi que outro dia estava naquela reunião, na verdade uma oficina em que você também estava, e discutíamos as maneiras pelas quais os defensores de direitos humanos podem se proteger de ameaças e do risco de morrer pela causa que defendem. Já trabalhei com um órgão governamental de defesa de direitos, mas nunca me senti em risco e nunca fui ameaçada, não por causa disso. Além deste trabalho, não atuei diretamente em causas de pessoas que têm seus direitos violados. Meu trabalho se volta mais para deixar falar o avesso do ser humano, o que não deixa de ser, creio eu, também a defesa de uma causa.  Pra ser muito sincera, eu posso dizer que já estudei muitas teorias sobre os direitos humanos, sobre a história de muitos movimentos sociais, de pessoas que morreram ou que foram seriamente ameaçadas por defender esta bandeira. Mas ainda assim, confesso que estudar a teoria é diferente de estar de frente com o que acontece na prática. Tentarei ser mais clara. Nesta reunião estavam presentes, além de nós, várias pessoas que trabalham diretamente na defesa de causas humanas pela liberdade de existir enquanto gênero, raça, credo, etc. Mas o fato é que me deparei não só com pessoas que defendem o direito que o outro tem, apesar de elas mesmas não sofrerem violação pessoalmente, como também estive frente a frente com alguns daqueles que sofrem e, por isso mesmo, defendem as causas de seu povo. Estou falando especificamente de você enquanto representante dos indígenas de sua etnia aqui em nosso Estado. Quando se apresentou, disse seu nome indígena e o significado: Sol. Vou chamá-lo assim. Eu nunca tinha ouvido assim de perto um apelo por socorro, de alguém ameaçado por defender o que já era seu antes que o “desenvolvimento” chegasse por aqui. Havia outros também, mas você especificamente chamou minha atenção. Com seu olhar enviesado, desconfiado, de quem não sabe de onde virá a próxima ameaça. O nariz cuja ponta tem o formato de um pequeno triângulo. Sua pele avermelhada, assim como a minha. Os cabelos castanho-escuros e lisos, quase alcançando os ombros. Notei que os meus têm esse mesmo aspecto. Os olhos pequenos e rasgados na face, castanho-escuros também, como os meus. Notei a grande semelhança entre nós. Ouvi calada seu desabafo sobre a vida que leva por causa das ameaças que sofre por lutar pela dignidade de seu povo, que não tem lugar nesta nossa sociedade voraz pelo tão aclamado desenvolvimento. Quando olhava para você e ouvia as suas palavras, lembrava de tudo o que aprendi em história. “O Brasil foi ‘descoberto’ pelos portugueses que, ao chegarem aqui, se depararam com os povos nativos, os índios. Estes povos foram dizimados e hoje temos uma pequena população. Dia 19 de abril é o dia do índio.” Palavras saídas muitas vezes de forma já automática e sem indignação. “Os indígenas sofreram um grande processo de aculturação por causa do etnocentrismo.” Lembrei também de todos os comentários preconceituosos que já ouvi sobre seu povo: “índio é vagabundo, não gosta de trabalhar”. “Pra que eles querem terra, se fica lá improdutiva?”. Mas isso é algo que deveríamos ter aprendido ao mesmo tempo em que aprendemos o português e a matemática: nós é que somos escravos do dinheiro, vocês não. Somos dependentes do desenvolvimento, na medida em que cada vez que consumimos mais, mais somos consumidos pelas insatisfações. Índios não são vagabundos, eles apenas têm outra relação com o trabalho que precisam realizar para viver, o que é diferente de trabalhar até a exaustão para gerar lucro para outro. Nosso trabalho é mercadoria que vendemos para poder comprar outras, cada dia mais caras. O trabalho de seu povo não é mercadoria, pelo menos não era até acharmos que tínhamos o “direito” de convertê-los para o nosso modo de viver. Our way of life. Sol, você falava com os olhos cravados no chão como se devesse se envergonhar por ser quem é, ou como se não pudesse olhar nos nossos olhos, enquanto que quem deveria estar com os olhos no chão era eu. Me senti envergonhada diante de você. Coincidentemente estava lendo por esses dias um livro de Marguerite Duras chamado “A Dor”, no qual ela conta a história de uma mulher que espera o retorno, ao fim da guerra, de seu marido que foi levado pelos nazistas em seus trens da morte. A dor descrita é dilacerante e causada por essa longa espera e por não saber se a pessoa estava viva ou morta. Senti dor ao lê-lo. Lembrei disso porque já ouvi dizer que a nação alemã sente vergonha pelo sangue derramado por lá. Ao ouvir você pedindo socorro, entendi como é sentir esse tipo de vergonha. Mais do que isso, senti dor também. Somos muito parecidos, mas você é corajoso, luta de peito aberto. Ao final, abracei-te em despedida e, por alguns segundos, não havia nenhuma distância entre nós. Fiquei o tempo todo com um nó na garganta. Nó que desatou quando cheguei em casa e meu marido, ao perceber algo diferente em meu semblante, perguntou: “Tá tudo bem?”. Explodi em choro, angustiada e culpada porque não coloquei nunca meu peito aberto para defender sua causa. Nunca fui ameaçada como você, levo a minha vida e sigo ignorando as ameaças que recebe, os amigos e familiares que já perdeu, a dor que sente pela discriminação que sofre. E por quê? Por causa do famigerado desenvolvimento. Senti náusea. Então meu marido disse que defender a causa indígena não significa ter que ir lá ficar acampada ou deixar tudo para salvar seu povo, até porque não sou nenhuma super-heroína a prova de balas ou de atropelamentos. Decidi então que escreveria esse texto para dizer as coisas entaladas que eu nunca disse a cada vez que ouvi alguém sendo preconceituoso com os indígenas. Decidi que, se não consigo falar, posso escrever, pois é a minha forma de dizer. Decidi que minha voz se juntaria à sua e ao coro dos indígenas e das outras pessoas que lutam pela vida e dignidade de pessoas como você. Desculpe-me se isso for pouco, eu sei que é. Sigo ciente de que a escrita salva a minha vida ao tentar contornar ou aplacar um pouco da dor que sinto diante do que é inexprimível, inexplicável.


Isloany Machado
Escrito em 08/07/2012.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Porque só se ama uma vez


Aquela mulher de pele parda, cabelos e olhos escuros, dialogava com a outra, de pele branca, mas encardida, o cabelo amarelado imitando o estilo das ladies. A parda tinha uma pintura forte na face como a de quem vai pra guerra. Nos olhos havia um largo risco preto que passava do limite do olhar. Na boca, um rosa vivo que ultrapassava os lábios e alcançava os dentes, amarelos. Ela contava pra amiga sobre uma grande decepção amorosa na qual sofrera agressões físicas. A amiga se identificava, soltava exclamações e ditos de indignação. Tinha arranjado um outro namorado, mas disse isso sem muito entusiasmo, fato estampado na falta de brilho das palavras. Foi então que se explicou: “é que na verdade dizem que a gente só ama, AMA mesmo, uma vez na vida”. Então por que se pintara como se estivesse indo pra guerra? Fiquei a pensar na sentença que saíra tão descrente de sua boca: “Só se ama uma vez na vida”. Avessei a frase e comecei a pensar. Freud dizia que nosso grande e inesquecível amor era por aquela pessoa que nos deu os primeiros cuidados: nossa mãe ou a pessoa que tenha feito esse papel. Ela nos olhou primeiro, nos tocou, nos alimentou. Então só tínhamos olhos pra ela e claro que queríamos o mesmo de sua parte: que só tivesse olhos para nós. Mas não é assim que a coisa funciona, via de regra. Há algo que ela deseja além de nós, há outros amores em sua vida. Somos barrados neste amor irrealizável, portanto. Freud disse ainda que os meninos dissolviam esse amor pra sempre e esqueciam o fato de os olhos dela se voltarem para outra direção, mas as meninas carregavam esse amor frustrado com um amargor na boca. Mas é este amor frustrado que nos permite também desejar outras coisas, essa barra nos ensina que é preciso catar os cacos e seguir adiante. Sempre com a presença da ausência deste objeto amoroso, que perdemos. Há mulheres que se exasperam com a possibilidade de que seu homem olhe para o lado, têm ciúmes até mesmo de uma atriz de televisão. Há homens que não suportam que seu objeto de amor tenha vida própria. Esperneiam, batem, ferem, matam, por amor. Mas se é fato que nesta vida só se ama uma vez, todos os outros amores carregarão a cicatriz daquela primeira desilusão. Passaremos a vida a buscar um substituto, mas nenhum chegará aos pés daquele primeiro, genuíno. Mas o que foi mesmo esse primeiro amor? Foi a necessária marca para nos lembrarmos de que somos seres faltantes, barrados, castrados, a manquejar vida afora. O amor é o significante que vem suprir essa desilusão humana. Busquemos o amor, sempre e sempre, ainda que saibamos de seus desencontros. Esse amor não é necessariamente por pessoas, pode ser por muitas outras coisas. Mas amar, ainda que impreciso, é preciso, para citar o poeta. Ainda que nessa vida só tenhamos amado, AMADO mesmo, uma vez, foi a impossibilidade desse primeiro amor que nos fez desejar outras coisas, nos fez buscar sempre. Fiquei com vontade de dizer para a moça com face pintada que não desistisse de procurar, que a pintura de seus olhos e boca não era vã. Queria dizer que se ela manca de um lado e encontrasse alguém que manca do outro, estaria com o caminhar quase completo. Mas quase, porque ninguém é todo, mesmo quando se está a dois. No fim das contas ela estava certa de manter a sua pintura de guerra, pois no amor somos como soldados feridos, sangrantes: só conseguimos sobreviver quando nos abraçamos e caminhamos juntos no retorno do front.



Isloany Machado.

Campo Grande, 20 de maio de 2012.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Lamentações de um piolho morto


Bom dia, senhoras e senhores.

Aqui quem vos fala é um piolho, um piolho morto. Decidi manifestar-me porque aqui do além, onde agora habito, me lembrei que quando era adolescente li um livro que me impressionou muito, naquela época eu morava na cabeça de uma menina, Raquel, que amava os livros e eu acompanhava suas leituras do alto de sua cabeça. Ela não deixava sua mãe me matar porque adorava quando eu lhe fazia cócegas atrás das orelhas, sarrista que era, sempre que ficava intrigada dizia: “estou com um piolho atrás da orelha”. Ríamos muito. Então um dia li junto com ela a história de um tal Brás Cubas, que escreveu o livro depois de morto e conta sua vida de trás pra frente. Inspirado nele é que hoje resolvi me lamentar. Pois, sou um piolho morto. Quando Raquel decidiu entrar na faculdade, achou que não lhe cabia mais carregar um piolho na cabeça e me pediu gentilmente que fosse embora. Arrumei minhas malas, coloquei meu chapéu e minhas botas e saí. Ela chorou e eu também. Errando pelas ruas avistei uma menina de uns nove anos. Apaixonei-me por seus cabelos, que eram muito parecidos com os de Raquel, crespos e volumosos. Ah, como eu adorava me perder naquele vai-e-vem de seus fios. Fazia de escorregador alguma mecha displicente que caía em sua testa. Raquel se sabia amada com a minha presença. Decidi que habitaria aquela nova cabeçorra linda cuja dona se chamava Lisa. Com o passar dos dias, notei que a menina não era alegre como Raquel. Todas as manhãs, antes de ir pra escola, sua mãe nos emplastrava, a mim e aos cabelos de Lisa com um creme enjoadamente cheiroso e fazia duas pitucas no alto da cabeça, uma de cada lado. Lisa gritava “ai!”, mas sua mãe ignorava e dava uns solavancos dizendo que parasse quieta. Eu ia pra escola sufocado e bem esticado no meio dos fios que cercavam meu corpo e não me deixavam mover sequer as mãos. Eu não podia acompanhar as lições de Lisa. Quando chegava em casa, ela soltava as amarras e brincávamos a tarde toda, daí sim podia ler alguma coisa, nas frases de para-choque de caminhão que suas amigas postavam no facebook. Lembro-me de uma assim: “Dias melhores virão, chamam-se sábados, domingos e feriados”; e outra assim: “Gata, eu não sou coxinha de rodoviária, mas só tenho óleos pra você.” Ficava impressionado com a capacidade de síntese da sociedade ultramoderna. Na época de Raquel a gente passava as tardes lendo Machado, Alencar, Lispector, enfim, c’est la vie[1]. Um dia a mãe de Lisa ficou muito irritada ao arrumar seus cabelos e esbravejou: “sábado vamos dar um jeito nisso!” Cutuquei Lisa e disse a ela: “ufa, até que enfim sua mãe se deu conta de que é melhor deixar a gente em paz!”. Mas sábado foi o dia fatídico. O dia de minha morte. Estão pensando que a malvada mãe de Lisa me matou à unha? Nada disso. Ela levou a filha em um salão de beleza: “quero que você faça um alisamento nela”. Eu não entendi nada, Lisa pôs-se a chorar. Enquanto lavavam a cabeleira, eu me agarrava como de costume aos fios, mas depois da lavagem, uma mulher de cabelo vermelho-fogo, com uma parte da raiz preta, veio com um enorme pincel e besuntou os cabelos de Lisa. O produto não era o mesmo que sua mãe usava, o creme enjoado de tão cheiroso, era algo que fedia a esgoto, terrível! Fui ficando meio zonzo, mas resisti bravamente, afinal, não queria desertar daquela cabeça à que me apegara já tanto. Os piolhos também amam. Sem que eu pudesse me recuperar perfeitamente do produto, a mulher veio com um aparelho que parecia uma prancha, ouvi quando disse à sua assistente: “ligue a chapinha na tomada”. Separou uma mecha de cabelo e pranchou, vi fumaça saindo! Pensei em fugir, mas antes que houvesse tempo de avisar Lisa, a mecha de cabelo em que eu estava foi tomada pelas mãozinhas balofas da mulher. Fui então assado entre as duas chapas metálicas. Assim se deu minha morte. À época de meus pais, os piolhos morriam por causa de um produto com o qual lavavam a cabeça das crianças. Na de meus avós, socavam álcool nas cabeças piolhentas. Nunca imaginei que meu fim seria desta forma: literalmente chapado. Morri muito jovem e lamento por isso. Agora Lisa está com os cabelos lisos, tão lisos que nem os tic-tacs agarram os fios, acabou-se o trabalho de sua mãe, que agora economiza o tempo de ajeitar os cabelos e gasta postando frases filosóficas no facebook. A última que me lembro de ter lido em seu mural era assim: “Gente que faz você ficar com pulgas atrás da orelha? Enfia minhocas na sua cabeça? Cria grilos e te fala cobras e lagartos? Minha filha, isso não é gente não, é uma praga! DEDETIZA!”.





Isloany Machado

Campo Grande, 01 de junho de 2012.



[1] É a vida.