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sábado, 21 de julho de 2018

Haverá reabilitação possível?



Hoje pela manhã, indo para o consultório, ouvia Rehab, da Amy Winehouse. Depois de uma semana de várias conversas com meus amigos sobre a "epidemia" de suicídios, depois de uma semana intensa de atendimentos, depois de alguns anos de uma crise que atravessamos no Brasil e no mundo, num tempo em que tudo ao redor parece estar (e talvez esteja mesmo) em ruínas, ouvir aquela voz que diz: "Tentaram me mandar para a reabilitação, mas eu disse 'não, não, não'", me fez arrepiar. 

Atravessamos, mais uma vez, um tempo sombrio, obscuro, em que não conseguimos enxergar um palmo adiante. Não há garantias de futuro, a instabilidade econômica ampliando nossa dor de existir, esticando a sensação de desamparo, tão inerente ao humano. Num mundo em ruínas, onde investiremos nossa libido? O processo todo parece entrar no campo da psicose, em que a libido, antes investida na “realidade" externa, se volta para o sujeito, ao narcisismo ou (pior) ao autoerotismo, e o corpo se torna o foco, daí o despedaçamento tão frequente nos discursos esquizo. Em tempos sombrios ou não, há a estruturação psíquica, há, segundo a psicanálise, as neuroses, as psicoses e a perversão. Que obviamente são influenciadas pelo contexto histórico, mas que também são posições subjetivas. De qualquer modo, sejamos neuróticos, psicóticos ou perversos, construímos algo particular sobre a história. Cada um a seu modo ergue os próprios tijolos sobre essa realidadezinha que nem sabemos de fato de que se trata, justamente porque ela, A realidade, não existe independente de nossas lentes.

Para além das estruturas estão os sintomas, que variam em conteúdo de acordo com o mal-estar da época. Fico me perguntando se algum período histórico já esteve isento do mal-estar, e a resposta encontro com a psicanálise, de que se tornar humano é o mal-estar, estar inserido na linguagem e sofrer as perdas que isso causa, faz parte da nossa eterna sensação de deslocamento. Onde é que eu deveria estar? Somos todos deslocados de nosso desejo e, em tempos sombrios, tempos de guerra, fica ainda mais difícil encontrar o rumo, porque faltam coisas de base, falta comida, água, abrigo. Uma falta cravada, encravada no Real. O Real de um corpo reduzido a objeto, que pode deixar de existir a qualquer momento porque a falta é real. O psíquico parece então de menor importância, pois como podemos nos queixar, por exemplo, de uma tristeza profunda que não tem causa aparente, já que "não me falta nada"? Quando tudo parece estar em ordem, mas a angústia se alastra como um líquido derramado e nunca encontramos a fonte? Mas o que dizer quando a isso se junta um mundo "globalizado" e ruinoso? Quando somos quase que obrigados a achar natural gente morrendo de fome, explodida por bombas, expatriada, xingada nos metrôs mundo afora por ser estrangeira? Quando foi que o ódio das pequenas diferenças ganhou tamanha proporção? Isso acontece quando uma voz se faz mais alta, se ergue para, deliberadamente, destruir o outro (o pequeno outro, como diria Lacan).

Quando ouvia Rehab e o “não, não, não”, pensava, como é possível se reabilitar, ou seja, se readequar a um contexto de destruição? Cada um escolhe sua maneira de se desconectar desta realidade que só faz destruir. E talvez a desconexão seja mais saudável mentalmente do que a "reabilitação" da forma como tem sido feita, com a epidemia dos diagnósticos baseados em fenômenos e não na posição subjetiva, com a facilidade em que psicotrópicos entram e saem na vida das pessoas. Muitas vezes os psicotrópicos mascaram ou amortecem algo que deveria ser insuportável a ponto de ser dito, seja na neurose, na psicose ou na perversão. A palavra ainda é nossa melhor invenção, e isso me faz acreditar e confiar somente em psiquiatras que associam medicamento e indicação de psicoterapia porque sabem da importância da fala, porque também sabem ouvir, isso é ouro (fica a dica).

Amortecer toda uma sociedade é impossível. Isso não seria uma possível justificativa para a “epidemia” de suicídios? Falta escuta, minha gente! Falta investir a libido em laços ainda possíveis. Nossa luta é não deixar que se alastre este grande movimento de retorno da libido para os próprios egos, para o ensimesmamento, para a autodestruição. Que a pulsão seja de vida, que não nos falte coragem para estabelecer laços, que não tenhamos vergonha de procurar ajuda. Amy disse não para a reabilitação, não quis, como muitos também não querem, entrar na lógica da adequação. Ela preferiu outra forma de amortecimento, ainda assim nos deixou sua música. Andamos todos meio amortecidos de alguma forma, mas fazer laços é o que nos resta para evitar o empuxo à morte.

quinta-feira, 1 de março de 2018

Insônia

Acordo na madrugada com o peito esmagado pela velha insônia. Acaricio o travesseiro implorando que me devolva a paz perdida. Olhos fechados para não abrir mão do fiapo de esperança, ilusão de que posso acalmar a agitação da vida que urge à minha revelia.
Mau presságio, viver é um sopro entre o grito da chegada e o desespero da partida. Enquanto brigo para dormir, dormir, dormir, alguém foi embora. No instante em que todo o meu corpo, olhos fechados, se agita prenhe da angústia do futuro, alguém rasgava as cortinas, olhos arregalados, para que o espetáculo não se encerrasse.
Mantenho o corpo estático, tentando derreter, palavra por palavra, esta saudade embrutecida de tudo o que não alcanço. A noite é silenciosa, a madrugada grita em meus ouvidos que acorde, acorde. Quem sou eu desde a chegada?
Vá para o diabo com os calmantes.
E esta música infinita? Devo dançá-la? Não sei se meu corpo obedeceria a este ritmo. Eu só queria dormir, dormir, dormir e acordar livre desta vontade de tocar a pele do mármore, de lamber a boca do céu. Sim, este céu que não se sabe onde começa e termina. Onde não se pode pisar correndo o risco de cair numa dobra do tempo.
Um choro de criança me interrompe. É a vida em seu desespero secando meus olhos. O coração duro, tentando se proteger dessa pata do tempo que o esmaga. Não é o passado que me dói, mas o futuro com suas memórias inconstantes, com os cortes desnecessários daquilo que poderíamos viver e não viveremos, porque a música acabou e continuaremos dançando até gastar a sola do pé.
E se fosse meu o último suspiro esta noite, poderia dormir? Sinto meu corpo se batendo independente da minha vontade, ave agitando as asas ignorando a hora chegada. Olhos ainda fechados, mantendo a mentira de que voltarei a dormir.
Desisto. O frenesi venceu meu corpo. O dia clareia e já não preciso mais acalentar o sono que há muito me abandonou. Sempre sou abandonada pelas perguntas que nunca faço a tempo.


sábado, 2 de dezembro de 2017

Cartarresenha do livro Pai, Pai

Campo Grande, 02 de dezembro de 2017.

Querido João,

       Espero que não te assuste a intimidade com que esta leitora te escreve, mas é que tenho cultivado o hábito de escrever cartas-resenha de livros que me tocam e cujos autores são contemporâneos. Não sei como te agradecer pela publicação de Pai, Pai. Ele me caiu em mãos num momento muito oportuno, pois estou às voltas tentando entender a minha própria relação com meu pai. Sim, estou em análise faz um tempo. Inclusive, veja que coincidência: sou psicanalista. 
A história é muito longa e talvez precisasse tomar Pai, Pai como exemplo para escrever sobre isso, mas o fato é que me identifico fortemente com muitíssimas passagens deste seu livro todo escrito aos pedaços. Eu gosto muito de dizer que a análise é um processo de montagem de um quebra-cabeças velho em que algumas peças foram irremediavelmente perdidas. Cavamos, mexemos e remexemos as lembranças para montar os cenários e alguns deles permanecerão com diversos furos que só podemos contornar, criar algo sobre. Acho que é exatamente esta a impressão que seu livro me causou, a de um quebra-cabeças em que você vai expondo ao leitor os fragmentos que conseguiu reconstruir desta história toda. 
Foram muitas as passagens que me deixaram sem fôlego, ou em prantos. A cada passo precisava parar um pouco para respirar, então, obrigada pelos capítulos curtos. Logo de início quando você diz do quanto a ausência da figura paterna marca sua literatura, me colocou a pensar na ausência de meu pai também nas coisas que escrevo. Pensei que fosse, ao longo da leitura, desenterrar alguma dor minha, uma mágoa com meu pai, mas surpreendentemente foram outras descobertas que fiz. Voltarei a isso depois. Ao mesmo tempo em que sua história dói, é lindo o processo de "lamber as feridas". Aliás, que metáfora...
Fiquei encantada com seu retorno à infância e, sobretudo, ao desamparo infantil. Engraçado como tudo está lá, todos os medos, as angústias, tudo sendo preparado desde que nascemos (ou até mesmo antes, nas histórias familiares). Um pai que não represente esta figura protetora, ao contrário, seja o verdadeiro ícone do medo e da violência, só pode ser devastador. Mas, ao mesmo tempo, esta ausência ou a própria violência, em alguns casos (como no seu e de algumas pessoas), é justamente o que faz com que busquemos a saída na arte. Há uma vontade de viver para ver que suplanta o desejo de inexistir, tão recorrente.
Assim, podemos amar os desamparados, como um franguinho manco. Sabe, achei tão lindo este seu texto sobre como se apaixonou perdidamente pelo  frango...desde criança eu sempre me apaixonei pelos desamparados, pelos que exalam o peso das asas quebradas no olhar. Fiz disso até ofício, veja. Então me apaixonei por você desde que comecei a ler Pai, Pai, desde a cena em que ressurge do seu Jordão, constatando que era um homem sim, mas não como aqueles seus algozes (a primeira passagem de redenção). Na cena do refrigerante, substituído cruelmente, fiquei com o estômago revolto, meu corpo sentiu a dor do desamparo que você descreve ali. 
Assim também fiquei, devastada com a destruição da árvore de natal. Quase pude ouvir seus berros, mas foi ali que comecei a ter pena do seu pai. E me lembrei de uma vez, quando era criança e tinha feito um presente para minha mãe. O presente tinha dado um trabalho do caramba, levado semanas para ser feito na escola por mim e minha irmã. Tínhamos feito nossos nomes em gesso para o dia das mães, fizemos desde a massa até o acabamento, pintura, etc. Era de pendurar na parede e minha mãe assim o fez: pendurou os dois nomes na porta do nosso quarto. Minutos depois de pendurados, o meu nome (maior e mais pesado, sempre mais pesado) caiu e estilhaçou-se no chão. Chorei como um bezerro.
Que linda também a forma como você pontua sobre a sexualidade infantil. Ainda que muitas pessoas reneguem, praguejem e etc, não há como negar a genialidade de Freud ao retomar este assunto que é tão crucial em nossas vidas e que efetivamente marca nossas histórias, seja pela culpa, pelo nojo, ou prazer. De qualquer forma, ela (a sexualidade infantil) é inegável.
Eu queria correr até você quando conta da morte de sua mãe. Sério. Uma morte tão precoce, com tantas consequências. Sabe, João, eu costumo dizer que sou uma pessoa urgente e você também usa esse termo em mais de um momento do livro. Minha tendência é de sempre sair arrebentando as portas ao invés de esperar que alguém as abra para mim, mas confesso que "piorei" depois de um episódio em que tive muito medo de morrer. Daí em diante passei a não adiar nem por um minuto as coisas que quero. Certa vez fui parar na porta da casa do escritor Manoel de Barros sem aviso, porque precisava conhecê-lo pessoalmente, e conheci, e chorei, e o abracei. Dois anos depois ele se foi.
Depois da morte de sua mãe, confesso que só consegui sentir pena do José e quase morri com este trecho: "Enquanto a sirena da ambulância fazia seu espalhafato para o mundo abrir caminho à morte, eu peguei nas mãos desse homem destroçado e me vi declarando, num repente: 'Pode parecer que não, mas eu sempre amei o senhor'. Não conseguiria expressar de modo mais simples e direto. Sei que ele me ouviu e entendeu, pois seus olhos se encheram de lágrimas que desceram pelo rosto vincado por rugas em todas as direções. Junto com as lágrimas, de sua boca e nariz saíram alguns grãos de arroz cozido, talvez porque o tivessem obrigado a comer. Um sentimento engasgado veio à tona. Meu pai compreendeu que eu o perdoava".         
Chorei como um bezerro, de novo. Quanto desamparo, quão frágil e fugaz a vida. E sabe, João, por ter rompido aos 17 anos com minha origem cristã, tinha problemas com a palavra perdão. Achava muito religiosa, mas você me fez repensar isso. Quando Freud fala no processo de elaboração (como no texto Recordar, repetir, elaborar), me pareceu de repente que é disso que está falando. Como se precisássemos, para arrancar as diversas dores do peito, perdoar. Não somente ao outro que não nos dá o suficiente (nunca dá), mas a nós mesmos por termos cobrado tanto sem enxergar que eram crianças, como nós (narcísicas). Me parece que tudo não passa de uma briga narcísica em que sempre exigimos do outro o que ele não tem para dar. Assim o perdão perde completamente, para mim, o sentido cristão e já posso pensar nele como saída.
Que lindo seu processo de cura, que lindo o perdão. A análise nos coloca num trem fantasma em looping e passamos por incontáveis vezes diante das mesmas cenas até que mudem de lugar, de formato, até que percam as cores. Até que possamos romper o looping porque não mais precisamos daqueles velhos fantasmas para justificarmos nossas dores. Ao fim, é como diz uma frase de Exupèry em Terra dos Homens: "Nada mudou,  no entanto tudo está mudado". 
Seu livro me emocionou muito e me fez pensar coisas impensadas até então. Descobri que meu pai não me dói a não ser pelos efeitos de suas recusas, mas, assim como você, descobri que mesmo sendo uma semente lançada fora, a vida explodiu de dentro da minha casca e caçou jeito. A vida sempre caça jeito. Obrigada mais uma vez e parabéns pela coragem.

Com carinho, 
Isloany

P.S.: É, nós não somos mesmo "escravos do destino de quem nos gerou".



segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Como curar ressaca literária?




Dias atrás estava eu com uma puta ressaca literária após o término d’O lobo da Estepe. Com o intuito de procurar no google um meme para dizer sobre minha ressaca, eis que uma das coisas mais pesquisadas era: “como curar ressaca literária?”. Fiquei intrigada com isso e fui estudar a fundo sobre o assunto fazendo uma pesquisa muito séria e confiável pelo facebook. Lancei para meus amigos a seguinte questão: O que você faz para curar-se de uma ressaca literária? Encontrei algumas boas respostas, mas descobri, concomitantemente, que meus amigos, ou grande parte deles, são bons cachaceiros. Transcrevo aqui algumas das dicas encontradas, vai que ajuda (omiti os nomes dos sujeitos da pesquisa para não causar constrangimento):

Sujeito 1: Como com água: quanto mais se bebe, mais sede se tem.
Pesquisadora: Você bebe água pra curar a ressaca literária, é isso?
Sujeito 1: Eu leio mais kkk.

Sujeito 2 (lacônico): Lendo mais!

Sujeito 3 (a fila anda): Eu pego o próximo livro da fila!
Pesquisadora: Logo na sequência ou dá um tempinho?
Sujeito 3: Geralmente termino tarde da noite, então o tempo entre eles é de aproximadamente meia noite! Já entro no carro para trabalhar carregando o próximo, rsrs.

Sujeito 4 (não acredita na cura possível): É um tipo de ressaca que não cabe cura. Há apenas distrações até ser provocado novamente por outro livro.
Pequisadora-ativa: Gostei disso. Como se sempre fôssemos sofredores, né?
Sujeito 4: (in)felizmente isso.

Sujeito 5: Lendo!
Pesquisadora: Em seguida? Nem chora um tempinho?
Sujeito 5 (o insensível): Sim, sem piedade! Nem café...

Sujeito 6 (perdido): Que é ressaca literária? Estou por fora.
Pesquisadora: A angústia que sente quando um livro de que gostou muito acaba.
Sujeito 6 (encontrando um rumo na vida): Ai, estou assim desde que terminei "Nossas noites", de Kent Haruf. Curtinho e me deixou com vontade ler outros textos do autor. E Lucia Berlin? É desesperador saber que nada mais será publicado depois de "Manual da faxineira", volume que reúne todos os seus contos.

Sujeito 7 (bebum): Tequilas!

Sujeito 8 (usa do recurso da negação para não ter que lidar com o luto): Vou diminuindo a leitura até não conseguir terminar. Me interna. Kkkkk
Pesquisadora-interpretadora selvagem: Mas daí é problemático.
Sujeito 8 (em fase de aceitação): Muuuito! Patológico.

Sujeito 9 (livro como fetiche): A lista dos livros para serem lidos sempre está enorme. Tenho fetiche por livro novo. É só curar a ressaca bebendo mais.
Pesquisadora: Sem intervalo pro luto?
Sujeito 9 (bem resolvido): Tem que digerir, mas sem sofrimento. Já fico com fome do próximo.

Sujeito 10 (o retorno ao útero): Dizem q o único jeito de curar ressaca alcoólica é bebendo de novo. No meu caso isso não funciona, fico doente na cama por 3 dias. O mesmo acontece na ressaca literária, trancada no quarto escuro em posição fetal emitindo grunhidos por aproximadamente 72h
Sujeito 11: Procuro ler leituras mais tranquilas que te envolve mais rápido como uma HQ por exemplo.

Sujeito 12 (que faz bom uso da própria neurose): Haha boa questão. Digo a mim mesmo (com nó na garganta) que "não morro sem ler de novo, um dia essa obra estará nublada na minha memória!". Assim, já mato dois coelhos: balizo a morte pra longe e consigo desapegar logo do livro pra não estragar a expectativa do flashback kkkk ele está sempre lá na frente de novo. Não é um "adeus", é sempre um "até logo" kkkk a neurose às vezes ajuda.

Sujeito 13 (o que apela à vontade): Você pode recomeçar devagarinho, mas tem que querer.  :)

Sujeito 14: Com um outro tipo de ressaca.
Pesquisadora: Enche a cara? Entorta o caneco?
Sujeito 14 (já tinha ido pro bar e não respondeu)

Sujeito 15 (cético, pero intergaláctico): Eu não acredito em ressaca literária, até porque a quantidade de grandes livros para lermos é infindável. Daria para prosseguirmos com a leitura até o entrelaçamento da Via Láctea com Andrômeda.
Por exemplo, agora estou na fase Sul-americana, que já dura alguns anos: Huidobro, Nervo, John dos Passos, Rúben Dario, Sarmiento, Horacio Quiroga, etc etc. Está quase no fim. Depois, literatura nacional, incluindo Isloany Machado (a pesquisadora fica feliz em ser útil).
Até porque nos cursinhos da vida éramos obrigados a ler autores alheios à nossa vontade, razão de nutrirmos algumas birras meio infantes. Por exemplo, já parou para pensar que, por exemplo, Graciliano Ramos e Tobias Barreto são dois puta autores?? Somente na "adultez" temos as prerrogativas mentais necessárias para apreciar estas obras a contento...
Pesquisadora: zzzzzzzzzzzzz

Sujeito 16: Ando tomando cerveja. Coisa que não fazia. Depois de velho começar a beber parece ser ruim. Acho que o velho hábito de ler um de poesia outro de romance ou conto funciona melhor. Ah, ano que vem público dois, agora com mais tranquilidade e método. Boa sorte com sua ressaca.

Sujeito 17: É como dizem, para combater a ressaca, é só tomar outra.

            Como vocês puderam ver, muita gente vai pro bar curar ressaca. Estas foram as respostas que obtive na pesquisa e acho que foram boas dicas dos meus amigos. Curei minha ressaca d’O lobo da estepe depois de alguns dias, iniciando a leitura de Presença de Anita, indicado por um amigo. Estou de ressaca de Presença de Anita desde 22 de outubro e ainda não me recuperei. Mas parece que cada um se cura à sua maneira. Escrever sobre o livro também pode ser um bom remédio!   


Isloany Machado, 30/10/2017. 

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Entrevista com Vanessa Teodoro Trajano




Entrevista com Vanessa Teodoro Trajano
Nasceu em Teresina-PI, atualmente mora em Brasília-DF. Além de escritora, é professora de língua portuguesa, mestre em estudos literários. Já publicou nove livros, entre antologias e obras individuais, dentre as quais se destacam: Mulheres Incomuns (2012), Poemas Proibidos (2014) e Doralice (2015).

Como se deu seu encontro com a literatura? Em outras palavras, como, quando e por que iniciou na escrita?

Eu não me lembro quando, exatamente. Quando eu era criança, uma leitora já voraz, via as fotos e biografias nas orelhas dos livros que eu lia e tinha a sensação de que gostaria de um dia estar ali, com alguma das minhas histórias inventadas. Por muito tempo, a realidade tentou calar este sonho e eu o esqueci. Pensei em fazer outras coisas, cursar moda por exemplo, mas na adolescência a ânisa de escrever me chamou novamente depois da leitura de Quincas Borba de Machado de Assis e de contos da Lygia Fagundes Telles. Vi que era tendenciosa para narrativas breves,  e eu explodindo de imaginação me dediquei a escrever alguns contos – fora os poemas de dor de cotovelo que a maioria dos jovens escrevem. Para minha sorte ou azar, minha fase poeta e contista nunca passou, e já enquanto adulta escrevi um romance. Creio que nunca mais vou sair dos livros, que era onde eu sempre gostaria de estar.


Uma das temáticas centrais de seu livro de contos Mulheres Incomuns é sobre o desejo e a liberdade feminina em relação ao prazer e à própria sexualidade. Podemos dizer que o que está por trás, o que faz pano de fundo ao aspecto erótico, seria uma luta por direitos?

Sim, certamente que sim. Vou dizer uma coisa que possa parecer abominável para alguns pseudo-intelectuais, mas observei, durante a minha adolescência a disparidade de discursos sobre o sexo entre o homem e a mulher. Minha referência mais próxima é a Valesca Popozuda, quando eu, com 15 anos, presenciei a sua carreira decolar com a música “de sainha”, cuja versão original é “sem calcinha”. Na mesma época, lembro perfeitamente de minhas amigas se reclamarem da imposição monogâmica ao sexo feminino, e para os homens, os garanhões, não eram afetados moralmente se ficassem com mais de uma mulher. Isso me incomodava. Acredito que as mulheres gostam de sexo mais do que os homens, mas há uma série de fatores sociais, resquícios do patriarcalismo, que as impedem de gozar de sua livre sexualidade. Mas voltando para a Valesca, há uma bela música do Chico que diz: “sou daquelas mulheres que só dizem sim”. Um verso invejável, mas me digam: será que a mulher do verso acima não deseja a mesma coisa que o “eu lírico” da Valesca? Claro que sim, o que muda é a composição da linguagem. Além disso, quando, na história da humanidade, uma mulher poderia cantar: “vou pro baile procurar o meu negão?” Isso para mim foi uma libertação, a enxerguei como uma. Rasteira, como queiram. Mas me voltava para inquietudes em relação à sexualidade e aos discursos que os considerava libertários, tentando transpassá-los a minha literatura.

Você classificaria a sua literatura como erótica? Se sim, como foi sua decisão por incluir elementos eróticos, em algum momento sentiu receio da reação do público, dos familiares, dos alunos?

É erótica mais como finalidade de nomenclatura, porque as pessoas tendem a nomear as coisas. Não vejo problema com o termo, e não me incomodo quem a classifica como pornográfica também. Nunca senti receio em relação à ninguém. Eu sabia o que estava fazendo. Se alguém estivesse incomodado, quisesse me excomungar ou me mandar para o fogueira, então eu havia alcançado meu objetivo. Minha família, tudo bem, não sou filha de católicos fervorosos ou coisas do tipo. E não chego numa sala de aula me apresentando como escritora. Alguns já descobriram por acaso, mas foram bem discretos.

Muitos autores não conseguem reler o que publicam. Como você se relaciona com uma obra já publicada? Também tem esta dificuldade?

Não leio, porque costumo odiar o que escrevi. Sempre desejo mudar. A obra nunca está pronta. A melhor parte de escrever é reescrever. Pelo menos eu queria viver nessa parte, eternamente reescrevendo.

Você já sofreu algum tipo de preconceito, em meios literários, por ser uma mulher?

A primeira vez foi foda. Envolveu meu trabalho. Pedi férias antecipadas porque um charlatão me falou que arranjaria um lançamento do meu livro em Paraty e fui. Chegando lá as coisas não eram bem assim como ele havia pintado, haveria uma condição. Bem, fico me perguntando em que momento dei a entender isso. Era como se somando os elementos mulher e erotismo só poderia resultar fatalmente para mim, como se fosse óbvio que por conta disso me vendesse. Isso é preconceito, não é? Outra situação, ao meu ver ainda mais pavorosa, foi quando fui atacada por outra mulher, que não teve respeito nenhum pela minha história e tentou me diminuir intelectual e moralmente na frente de todos. Eu não entendo porque as mulheres se fazem tão inimigas. Bem, aqui e acolá houveram outras ocasiões em que sofri preconceito, mas nada tão drástico como as que acabei de citar.

Acredita haver diferenças na maneira de escrever o erótico por homens e mulheres? A função ou a posição do erotismo na escrita de um é diferente do outro?

Anaïs Nin sempre fala que o erotismo da mulher não dissocia-se das emoções. Já Beauvoir afirma que o erotismo da mulher é mais complexo que reflete TODA a sua situação. Acredito que a mulher que escreve literatura erótica está protagonizando anseios e desejos que foram privilégio dos homens, assim como ocupar a posição de um sujeito falante – Virginia Woolf o fez muito bem, e se valeu como empurrãozinho para várias outras – também contribui para que tal produção reflita nessa função. É como se agora ela estivesse acendendo, desperta de um longo adormecimento. Os homens sempre escreveram literatura erótica, não nos esqueçamos de Ovídio. A mulher está tendo essa abertura só recentemente – recentemente demais até, se pensarmos em séculos – portanto a diferenciação de escrita de um e de outro seja ainda prematuro dizer qualquer coisa. Prefiro não pensar que por ser mulher escreve diferente, o que acontece é que desejos que sempre foram amordaçados estão vindo à tona através da literatura, e isto para a lei que vigora a for “da moral e dos bons costumes” (sempre) soará blasfemo.

Os leitores costumam fazer muita confusão entre autor e obra?

Claro, eu mesma faço isso, inevitavelmente. Mas não seria gostoso imaginar que é possível conhecer as sombras de alguém através de sua literatura?

Qual a função do erótico na literatura?

Respondi isso tantas vezes na minha dissertação de mestrado que não sei se saberei responder originalmente agora. Mas vamos lá. Muitos leitores confiam na literatura erótica como entretenimento. No mais das vezes pode até ser, mas se você observar bem muitas obras utilizaram-se do erotismo para tecer denúncias ou ironizar. O caderno rosa de Lori Lamby de Hilda Hilst, por exemplo, há quem diga que se trata de uma obra erótica, mas só consigo enxergar denúncia contra pedofilia e prostituição infantil. Outro livro que é o meu xodó é Madame Bovary, de Gustave Flaubert. Quem não se identifica com Ema? Na verdade, a vida é tediosa mesmo, e os amantes para ela foram uma distração e tanto. Eu poderia citar inúmeras outras obras, mas cairia na mesma opinião, modificando-a aqui ou ali quando necessário. O fato que o erótico na literatura não precisa de uma função específica, ele existe, como o existe em nossas vidas. Não é a literatura imitação/representação/antecipação da vida?


Qual sua opinião sobre a entrada do politicamente correto (leitor sensível) na literatura?

Se isto vigorar estou lascada, não publico mais nada. Uma vez escrevi “Se eu fosse uma garota de programa” no meu blog, em que a personagem, prostituta de luxo, zomba das colegas de profissão que ganham a vida nas esquinas sujas e perigosas do centro da cidade. Fui acusada de várias coisas, das quais nem me lembro. Mas me diga: será se não existe essa prostituta que acredita ser melhor porque os seus clientes as levam para os melhores motéis e um único programa seu é mais caro do que as do centro às vezes trabalham o mês inteiro para ganhar? Saindo da prostituição: imagine um professor de faculdade, ou melhor, de pós-graduação, que faz questão de ser chamado de doutor e acredita ser ele mesmo um semi-deus? Jesus, se essas pessoas que se acham melhor que as outras por míseros detalhes não existem então eu devo estar ficando louca. E respondendo melhor a pergunta, a implantação do leitor sensível extingue, literalmente, a literatura sensível. Ela ficará exposta, sem poesia, hipócrita. Não quero imaginar como seria a literatura sem sensibilidade.

Você adota algum procedimento quando vai escrever? Espera a inspiração? Costuma ter um horário específico pra trabalhar?

Sou daquelas que espera o clarão vir me assombrar. Não sou prática. Deveria sê-lo, acredito no método da refeitura até a perfeição, e até o faço ou tento fazê-lo, mas só depois que me inspiro, não me obrigo a nada. Quando isso acontece, costumo fazer durante o dia, depois do café da manhã. É muito romântico imaginar um escritor que escreve à noite, mas eu não sou noctívaga. Já até tive a minha fase, porém a vida real nos convida para descansar a noite e funcionar de dia.

Existe um leitor ideal? Se sim, como ele seria?

Nunca pensei nisso como escritora, apenas como professora. Digo para os meus alunos que eles devem ter sempre uma caneta ao alcance para rabiscar as margens do livro, grifar as palavras que não conhecem a fim de buscar o significado delas, enfim, fazer um borrão só, o que muitos sentem ciúmes – eu mesma não gosto tanto dessa prática porque não quero sujar meus livros. Enfim, não gosto de pensar no  que seria o leitor ideal, pois sugere uma demarcação. Estas perguntas que me fez são fruto de uma leitura feita por você, que por sua vez poderia ser totalmente diversa se feita um ano depois ou atrás. A leitura é muito plástica para tentar medi-la.

Qual é a sua maior ambição no campo da escrita?

Quero me tornar uma polígrafa. A palavra parece não existir no feminino. Existe polígrafo, Machado de Assis o fora. Eu desejo sê-lo: publicar o máximo de gêneros possíveis, e ganhar um grande prêmio um dia. Não por vaidade. É porque é chato isso de mandar fazer os livros e eles ficarem empilhados em casa, oferecendo pros outros comprarem. Não desejo mais isso, é chato. Queria um prêmio que me garantisse publicar sem me preocupar com a distribuição, por menor que fosse.

Quais os principais autores e respectivas obras que influenciam sua escrita?

Anaïs Nin, minha musa etena. Machado de Assis, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, Carlos Drummond, Charles Bukwoski, etc. Não sou de pensar em obras isoladas, porque já tive várias preferidas ao longo da vida. No momento, a minha maior influência são os contos de Anaïs Nin, Delta de Vênus e Pequenos pássaros.

A literatura exerce pra você uma função catártica?

Tanto na leitura como na escrita percebo que sou atravessada por algo que me faz diversas vezes submergir e voltar à margem como que sem ar. Então eu acordo, amaldiçoada ou revigorada, vai depender do que leio ou escrevo. Se isto não acontecer, faço outra coisa. Meu espírito não está preparado verdadeiramente naquele momento para aquilo, ou a obra não é suficientemente artística.

Qual a maior dificuldade que você encontra/encontrou nesse caminho de ser uma autora independente?

Como disse, vender é a pior parte. Às vezes me sinto esmolando. Parei com isso. Não ofereço minha obra pra mais ningém. Anuncio que publiquei, mais nada. No começo da carreira vendi livros em bares, e na época deu certo, ocorreu tudo bem, mas não consigo continuar a fazê-lo. Não me pergunte o porquê, não saberei responder.

Ao todo, você tem nove livros publicados. Tem um “filho” predileto? Se sim, qual deles?

Mulheres Incomuns, por ser o primogênito, me atrai mais. Porém não acredito que tenha sido minha melhor obra, tampouco acho que ela já foi escrita. Não diria preferência, mas Mulheres Incomuns tem algo que me arrebata, ele foi o passaporte inicial para a vida que escolhi; sua função também foi de me libertar como mulher, pois por meio dele dei vida à personagem Vanessa Trajano. Eu precisava me tornar uma mulher incomum, devo isso ao meu livro.

Existe algum livro que abriu uma cratera, fez uma hecatombe na sua vida a ponto de fazer com que as coisas passassem a ser vistas de outra maneira?

Doralice foi escrito de maneira muito peculiar. Eu viajava todo ano para Fortaleza, minha terra natal de coração (pois todos da minha família são de lá), e na estrada me inquietava com aquelas casas à beira da estrada no meio do nada, que só depois de muitos quilômetros havia outra. Também sentia um mal estar quando via alguém com os seus cinquenta e tantos anos dizendo que nunca realizou um grande sonho, e passou a vida trabalhando no banco ou em outras instituições burocráticas. Então eu criei Doralice, uma menina de um interior chamado Sonhança que nunca conseguiu realizar um sonho aparentemente besta, que era o de fazer teatro. Como ela iria fazer teatro, se o teatro não chegava até lá? Se as pessoas próximas a ela não sabiam nem o que era teatro? Comecei a ver, através de Doralice, como somos tolos por esperar melhoras sociais e econômicas para movimentar a própria vida em favor dos nossos sonhos. Os governantes, principalmente os nossos, querem é matá-los, um a um, até não restar nenhum sonhador que inspire outros. Doralice é a minha estrela guia porque não desejo acabar como ela.

Em seus escritos de Mulheres Incomuns há uma crítica à instituição casamento?

Não acredito em monogamia, e essa é a promessa do casamento, certo? Bom, eu até acredito que existam fases monogâmicas, e que algumas raras pessoas conseguem passar a vida nelas, mas o grande problema é conseguir reunir duas pessoas com essa obstinação. Alguém sempre acaba vacilando e o outro sofrendo. Terrível, não? Em Mulheres Incomuns, algumas personagens não ligam para o casamento. São infiéis, ousadas. Ainda bem que são mulheres. Muitas leitoras dizem que minha escrita é a de uma vingadora (risos). Deve ser, mulherada.


Você poderia viver se fosse privada da literatura (ler/escrever)?

Se um dia isso acontecer, e tomara que não, espero que exista um outro lugar, no cosmo, em que eu tenha infindos papéis para escrever depois de ler todos os livros que desejo ler.