Aqui você encontrará textos sobre psicanálise, literatura e meus escritos literários.

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terça-feira, 22 de agosto de 2017

Prefácio do livro Alma Desnuda



Conheci Gabriela em 2013, quando fui sua professora no curso de psicologia da UFMS. Depois nos reencontramos em outro contexto, por causa da literatura na fronteira com a psicanálise. Gabriela bateu asas e voou com suas letras e aqui está o resultado da poesia que corre em suas veias. Neste seu livro de estreia, a menina desnuda a alma diante do leitor e mostra a grandiosidade do que há do lado de dentro, desse avesso que tanto insiste. Os temas da dor de existir, do ser mulher em um mundo que nos tenta colocar cerca, da loucura, do amor, da paixão, dentre outros, estão presentes para capturar nossos olhos para além da efêmera beleza daquilo que um dia, certamente, morrerá. O eu lírico deixa turvamente claro, com seus gritos e paradoxos, que não há nada para além das palavras, coisa nenhuma para além dos buracos que nos preenchem e das dúvidas em que nos agarramos. A dúvida é sempre melhor do que a certeza – pressuposto psicanalítico.
            A poesia de Gabriela está toda permeada pela psicanálise, o que talvez seja o motivo do convite para prefaciar seu primeiro livro. Está tudo aqui: o inconsciente, a resistência, a latência, a psicose, a suspensão das certezas, o desejo, as pulsões, a vida e a morte. Mas tudo desenhado de uma forma tão sedutora que quem ler ficará imediatamente envenenado e morrerá docemente, sem saber do quê. Foi assim, envenenada pela poesia de Cecília Meireles, que conheci a psicanálise. Em muitos momentos as palavras de Gabriela me lançaram de volta àqueles tempos, e o que me veio à cabeça foi o poema Motivo: “Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste: sou poeta”. Qual é o motivo do poeta? O instante. Ele pode ser alegre ou triste, menina ou mulher, mulher ou homem. Não há limites para a escrita. Parece que Gabriela descobriu na escrita seu motivo, sua (des)razão e seu sentido. Tenho que concordar com ela de que não há salvação a não ser quando nos agarramos com dentes e “unhas vermelhas” nas palavras. A palavra corta a pele e tenta dar sentido ao que não pode dizer nada.
            Convido o leitor para entrar com os dois pés nesse obscuro mundo das palavras que recobrem uma alma desnuda, deixando-se seduzir pela beleza da poesia que vem da força de um grito mudo.        
Isloany Machado

Psicanalista e Escritora.

P. S.: Para quem tiver interesse em adquirir o livro, vejam o recado da autora:
"Oi, galera bonita! Hoje quero compartilhar com vocês uma realização minha. Estou prestes a publicar meu primeiro livro, que será recheado de poesias que falam sobre o amor, a loucura, a amizade, a mulher e também muita coisa sobre mim. Por esse motivo o nome do livro: Alma Desnuda. Pois me desnudo de maneira sutil e poética, entregando com delicadeza minhas experiências e sentimentos. O livro sairá por apenas 15 reais (+ taxas de entrega). Seria uma honra ter um pedaço da minha história com vocês! Para mais informações, mandem inbox ou me contatem pelo email: gabrielarichenaferreira@gmail.com 
Em breve trarei mais informações!"

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

O tempo do fantasma em Meu malvado favorito 3

Quem me conhece sabe que eu adoro animações. Quem gosta de animações sabe que muitas delas não são feitas para crianças, mas para os pais, que têm nos filhos uma boa desculpa para ir ao cinema ver desenho. Pois bem, por que estou falando essa baboseira toda? Porque dias atrás, depois de uma abstinência de quatro meses, fomos ao cinema levar nosso sobrinho para assistir Meu malvado favorito 3. Se você não conhece, vou resumir o enredo da trilogia em algumas palavras.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Mar adentro



            No fim de semana passado estive em Aracaju a trabalho. Na verdade não sei dizer muito bem se o que eu faço é trabalho, já que falei de literatura num dia e psicanálise no outro. Mas a isso chamamos de trabalho de transmissão. Aproveitando a viagem, fomos todos: filho, marido, papagaio, periquito, etc. Ficamos empolgados porque Adriano, que ainda não tem dois anos completos, teria a oportunidade de conhecer o mar. Eu só o conheci aos 14 anos. Foi lindo, mas não teve uma vez que eu fosse e não tivesse alergia a não sei quê. Trabalho finalizado, nossa amiga Alba resolveu nos levar à praia. Ficou encantada quando soube que seria a primeira vez do Adriano.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Carta de uma psicanalista para uma puérpera



Minha querida,

            Já faz uns dias que queria te escrever, mas imagino que a correria aí esteja grande e pode ser que nem tenha muito tempo para ler esta carta. Bem, vou torcer para que sim. Serão apenas alguns minutos. São tantas coisas pra dizer e me pego sem saber por onde começar. Talvez deva começar te dando parabéns pelo nascimento do seu bebê. Não é o que todo mundo faz? Parece clichê ter que responder a isso o tempo todo, não é? “Obrigada”, você deve estar cansada de responder. Mas não precisa me dizer nada.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Sobre tudo o que excrevemos




Não, você não leu errado. Também não foi um erro de digitação. O “x” está sim no meio da palavra. Vou explicar. Desde que comecei a escrever, tenho andado às voltas com uma questão. É que inevitavelmente sinto uma repulsa pelas coisas que escrevo um tempo depois de tê-las escrito. Isso me deixava bastante chateada até um tempo atrás, porque, sendo uma autora independente, crescia a dificuldade em conseguir vender meus livros. De modo que meu desejo era sempre de publicar coisas novas, ainda que houvesse uma pilha dos livros já publicados todos por serem vendidos. Pois bem, ainda que Lacan seja incompreensível, tempos atrás, li no Seminário 20 a expressão: “publixo”. A escrita como algo que sai de nós para o lixo.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Cartarresenha sobre o livro Rebentar

Campo Grande, 05 de julho de 2017.
Querido Rafael,

            Quando te ouvi falando sobre a temática do Rebentar durante o evento do Sesc, meu primeiro pensamento foi: não conseguirei ler esse livro. Um filho extraviado da mãe há mais de trinta anos e um trabalho de luto que não se encerra. Pareceu insuportável demais pra mim. Mas mesmo assim me investi de coragem e decidi fazer a travessia. Só durante a leitura é que fui pensando no motivo da minha inicial covardia. Tem algo em mim, desde muito cedo, que treme diante da possibilidade de perder um filho. Desde a infância eu me esborrachava de chorar quando alguém cantava pra mim a música do galinho que se perde da família: “há três noites que eu não durmo, pois perdi o meu galinho, coitadinho, pobrezinho...”, conhece? Mas o medo não parou por aí.

sábado, 24 de junho de 2017

Cartarresenha sobre A instrução da noite



Querido Maurício,

            Ainda ontem te disse que minhas leituras andavam a passo de tartaruga e que provavelmente demoraria a terminar seu livro, mas acontece que depois do aparecimento do Lucas no meio da história, não consegui mais parar. Coloquei o menino pra assistir desenho e o pobre ficou sem comer até às oito da noite, quando terminei A instrução da noite. Só então voltei a ser mãe e a cuidar das outras coisas da vida. Eu sei que esta pode ser só mais uma resenha do seu livro, já tão bem-falado, mas escrevo mais por mim que por você. Era preciso dizer algo sobre ele, já que, ao contrário do seu personagem-narrador, eu sempre opto por desembuchar.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Eu nunca tinha amado assim


Dizem que o amor é algo que tira a gente de órbita. Você não consegue pensar em mais nada quando está nesse estado de apaixonamento. Mas o apaixonamento é algo passageiro, pois aos poucos você vai vendo os defeitos da pessoa, e, mesmo que o amor não acabe, a sofreguidão diminui. O enluaramento da mente diminui. Mas acontece que há um ano e três meses eu tenho experimentado um amor novo. Um amor de mãe. Me sinto boba desde o dia que ele nasceu. Mas o boba não é só no sentido de encantada, é no sentido de bocó mesmo. Isso não vai parecer nada amável, mas vamos lá. Há tempos estou devendo esta crônica para minhas amigas mães.

domingo, 21 de maio de 2017

Uma nau de dor e salvação


Nau dos Amoucos é o primeiro romance de Isloany Machado, que já nos deu dois belos volumes de contos e crônicas sobre literatura e psicanálise, Costurando palavras e Em defesa dos avessos humanos. Mas enquanto esses livros são marcados pela leveza e a aparente despretensão, tornando a leitura amena ainda quando os temas são fortes, o début ficcional de Isloany tem como grande marca a ousadia, valendo-se, por vezes, de uma estética de extremos para tratar de um tema, aliás, dois temas igualmente extremos: o amor e a loucura.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Relato de desejos sob custódia



Em tempos de uma liquidez que escorre por páginas literárias perdidas em discussões críticas bem mais afeitas às ânsias do mercado – lançamentos concorridos com o escritor em livrarias da moda; feiras e festas literárias em que a tônica são as ditas farsas e falas sobre cultura, como se a literatura não fosse cultura ou como não se bastasse para apresentação em público, mantendo seu trágico monólogo – do que à (in)satisfação de algo humano que resiste em nós, a Nau dos amoucos incomoda desde o título. Referência à obra A nave dos loucos, de Bosch? Paradoxo escondido no qualitativo “amouco”, designativo do sujeito obcecado pelo servilismo a algo, a alguém? Narrativa sobre a vida de um protagonista acostumado à loucura da mãe, alienada pela fúria paterna na contenção de seus desejos? Tudo ou nada disso?

quarta-feira, 12 de abril de 2017

O que faz de alguém um escritor?



Perdi o sono às três e meia. Durante uma hora me debati na cama, tentando dormir de novo, mas não consegui. A cabeça fervilhando, com nada digno de preocupação. Nas horas insones é como se a cabeça ficasse grávida de pensamentos. Então, tecnicamente estou em trabalho de parto.
Tenho andado às voltas com um significante que me acompanha não só em relação ao ofício da escrita, mas no da psicanálise também. Não é raro que as pessoas me digam: “Publicou um livro é? Mas tão novinha!”. É algo que tem seu lado lisonjeiro, já que passei dos trinta e os cabelos brancos estão gritando. Mas fiquei pensando nisso, já que ouço frequentemente a palavra e nunca sei o que dizer diante disso.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Cartarresenha sobre Tekoha: em busca da terra sem males




Campo Grande, 10 de abril de 2017.

Querido Antonio,

            Há sete anos você foi meu professor de Direitos Humanos e já era possível perceber sua sensibilidade, mas o romance me surpreendeu, muito. Não porque eu não te imaginasse capaz de escrevê-lo, mas porque essa poesia é tão rara...

sexta-feira, 7 de abril de 2017

07 de abril de 2017



Oi.


Já faz tempo, né? Parece que foi ontem, mas lá se foram cinco anos. Às vezes ainda sonho com você, geralmente perto de alguma data importante, seu aniversário, sua partida, coisas assim. Nem sempre consigo te escrever porque quase nunca tenho o que dizer. É tão difícil às vezes. No último sonho você estava vivo, mas eu sabia que não. Muitas coisas mudaram nesse tempo todo, mas você não está aqui para ver.

quinta-feira, 30 de março de 2017

Às cinco horas da manhã

São cinco horas da manhã e o sono me perdeu. Isso mesmo, foi ele que me perdeu. Dificilmente eu o perderia às cinco, já que mesmo quando me acontece de ter insônia, este é um horário em que o corpo já parou de se debater e está entregue, vencido. Mas eu preciso escrever e não tenho outro tempo. As pessoas me perguntam: por que não escreve mais? Então decidi que vou levantar todos os dias nesse mesmo horário para escrever, durante uma hora, até que eu tenha que acordar de verdade e me preparar para o trabalho. Como não me sobra tempo pra muita coisa, eu poderia usar esta uma hora para várias outras atividades.