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domingo, 21 de maio de 2017

Uma nau de dor e salvação


Nau dos Amoucos é o primeiro romance de Isloany Machado, que já nos deu dois belos volumes de contos e crônicas sobre literatura e psicanálise, Costurando palavras e Em defesa dos avessos humanos. Mas enquanto esses livros são marcados pela leveza e a aparente despretensão, tornando a leitura amena ainda quando os temas são fortes, o début ficcional de Isloany tem como grande marca a ousadia, valendo-se, por vezes, de uma estética de extremos para tratar de um tema, aliás, dois temas igualmente extremos: o amor e a loucura.

A isso alude, naturalmente, o estranho título do romance. “Amoucos” não é, como cheguei a pensar – e a própria autora me corrigiu, me obrigando a recorrer ao Google –, um neologismo alusivo a essas duas palavras-chave, amor e loucura, mas a sugestão semântica certamente participou da escolha (até porque a referência direta parece ser a nau dos loucos de Foucault). “Cheio de fúria, votado à morte; desesperadamente obcecado”: de fato, um amouco não difere muito de um amante louco, de um louco que ama ou quer amar desesperadamente.

E é esse o caso de Inácio, o protagonista do romance, e mais ainda o de sua mãe, Custódia. Em linhas gerais, Nau dos Amoucos se compõe do entrelaçamento das histórias desses dois personagens, e embora ela, a feminina, ocupe muito menos espaço que ele, sua importância não é menos capital: não tanto, talvez, na trama quanto no “espírito” da narrativa, com o detalhe de que é à dimensão subjetiva dos acontecimentos que a autora dedica a maior parte de seu empenho.

Ao mesmo tempo, é a história de Custódia, com sua pequena mas tumultuada sucessão de fatos dramáticos, que mais se investe de um conteúdo fabulístico no romance. Naturalmente, seria um desserviço revelar esse conteúdo ao leitor; basta saber que justamente aí, nessa cruel fábula moderna com ares naturalistas, amor e loucura se enredam de forma mais trágica. E é a efetiva loucura de Custódia que permite a Isloany abordar um assunto muito real e que, por sua formação psicanalítica, certamente lhe é caro: o do horror dos manicômios. A autora não se furta a descrever a mórbida existência da personagem na triste “montanha mágica”, uma irônica alusão ao romance de Thomas Mann, em que é internada: “Moscas insistentes, que se atraem, doentiamente, por cheiro de carne podre, eram os inquilinos que mais movimentavam cada canto. As pessoas eram restos humanos ainda vivos”.

No entanto, é em seu pertencimento ao conjunto da trama que a história de Custódia se revela em toda a sua importância. Pois é nesse desdobramento que Isloany trabalha a “loucura”, com aspas ou sem, dos ditos “normais”, certamente com aspas. “O louco é quem grita o meu sufoco”, diz a sabedoria empírica dos pichadores, enquanto um cantor vira e mexe tido como louco ou “alienado” complementa: “A certeza da certeza faz o louco gritar”.

Em linhas gerais, a trama de Nau dos Amoucos gira em torno das escolhas amorosas de Inácio, e de como as consequências dessas escolhas afetam seu estado emocional. Ao abrir mão da livre afirmação de seu desejo, mais que isso, da própria evidência da felicidade que se revelava a seus sentidos e sua consciência, Inácio se vê envolto por um crescente abismo de solidão e desamparo. A ânsia de resgatar um ideal amoroso da infância remete a uma ânsia e um desamparo mais fundamentais, onde a loucura da mãe certamente marca presença. E é justamente no ato de encarar essa chaga viva que se abre a possibilidade de superação para o personagem. Como isso se dá, e com quais consequências, também é melhor o leitor descobrir por si mesmo.

Por outro lado, é natural que, diante da tortuosa magnitude de Custódia, a figura de Inácio se descolora um pouco. O protagonista parece, às vezes, um trapalhão a quem a autora leva um pouco mais a sério do que ele merece. Ainda assim, para além mesmo das intenções ou afetos que enformam a narrativa, ou até porque esses afetos como que invocam os nossos no trato com o personagem, este tem o grande mérito de nos parecer vivo; e esta, certamente, é pelo menos metade da arte do ficcionista. Mesmo as passagens que parecem um pouco forçadas ou de verossimilhança duvidosa, como a de certa reação fisiológica ao fim de um ato sexual, têm uma força caracterizadora no mínimo provocadora.

Resta sublinhar a importância das outras duas personagens que, constituindo os objetos de desejo, cristalizam também as atitudes existenciais básicas de Inácio. Pois se Fabíola representa o retorno irrefletido, a aposta ilusória no mito de origem, Diana se alia à chance de escolha consciente, de reescritura do destino rasurado. Por via de uma, o passado de Inácio se fecha em si mesmo; pela outra, abre-se – sem dissolver-se, simplesmente – para o futuro.

Também a solução em que se configura essa abertura pode parecer frágil, no sentido de uma concessão excessiva ao personagem, mas ela comporta algo, também, de uma aposta, de um voto de confiança no humano – ou, mais especificamente, talvez, nos homens, enquanto, digamos (e complicações à parte), metade da espécie. Marcada por uma escrita eminentemente feminina, a ficção de Isloany se investe de uma potência desconstrutora face às contradições da masculinidade, ao mesmo tempo que as absorve a uma espécie de ritualística expiatória. Nesse impasse entre a radicalidade crítica e uma demanda redentora, mais ou menos correspondente à oscilação entre a crueza naturalista e o sentimentalismo romântico, talvez resida a principal aresta a ser trabalhada pela autoconsciência ético-estética da autora.


No mais, o estudo das técnicas narrativas e de construção do enredo e do espaço diegético, a atenção às mudanças de registro estilístico – por exemplo, no trânsito entre a voz sentenciosa do narrador (ou narradora?) e as falas mais prosaicas dos personagens – e ao ritmo da narração certamente ajudarão a lapidar o talento da jovem ficcionista, que já de início se arrisca a um salto tão ousado. Quem embarcar nessa nau certamente ficará ansioso por outras viagens de sua brava condutora.

Ravel Giordano Paz - Docente do curso de Letras da UEMS.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Relato de desejos sob custódia



Em tempos de uma liquidez que escorre por páginas literárias perdidas em discussões críticas bem mais afeitas às ânsias do mercado – lançamentos concorridos com o escritor em livrarias da moda; feiras e festas literárias em que a tônica são as ditas farsas e falas sobre cultura, como se a literatura não fosse cultura ou como não se bastasse para apresentação em público, mantendo seu trágico monólogo – do que à (in)satisfação de algo humano que resiste em nós, a Nau dos amoucos incomoda desde o título. Referência à obra A nave dos loucos, de Bosch? Paradoxo escondido no qualitativo “amouco”, designativo do sujeito obcecado pelo servilismo a algo, a alguém? Narrativa sobre a vida de um protagonista acostumado à loucura da mãe, alienada pela fúria paterna na contenção de seus desejos? Tudo ou nada disso?
            A leitura que me orientou foi a das referências e das coisas não ditas, tão somente sugeridas pelo narrador: um Camilo Castelo Branco com seus amores, ora de perdição, ora de salvação; uma folha flanando no parque, açodada pelo vento como no filme Beleza americana, contado por um sujeito de meia idade que redescobre o desejo pela vida próximo da morte; saber que nem todos os ditos loucos que passam por processo de educação para arte serão um Bispo do Rosário.
            No entanto, mais do que isso, foi a descoberta de que aquilo que usual e inadvertidamente se chama de loucura é um excesso de dor, de sofrimento, que precisa das palavras para que, oferecendo-se aos sentidos do outro, seja (su)portada, (trans)formada, adquirindo, quem sabe, seus primórdios de desejo.
            O próprio protagonista desta Nau, Inácio, percebe isso quando, retornado de suas andanças físicas ou não, escreve não somente um romance, mas sobretudo o bilhete final para Diana, alcunhada de “a caçadora”, caçada por ele durante 20 anos de sua vida.

            O romance de Isloany Machado é um belo exemplar de história de amor, de desejo e de loucura, guardada sob as asas de um olhar aparentemente esvaziado e morto de alguém que atende pelo nome de Custódia.

Rosana Zanelatto - Docente do curso de Letras na UFMS

quarta-feira, 12 de abril de 2017

O que faz de alguém um escritor?



Perdi o sono às três e meia. Durante uma hora me debati na cama, tentando dormir de novo, mas não consegui. A cabeça fervilhando, com nada digno de preocupação. Nas horas insones é como se a cabeça ficasse grávida de pensamentos. Então, tecnicamente estou em trabalho de parto.
Tenho andado às voltas com um significante que me acompanha não só em relação ao ofício da escrita, mas no da psicanálise também. Não é raro que as pessoas me digam: “Publicou um livro é? Mas tão novinha!”. É algo que tem seu lado lisonjeiro, já que passei dos trinta e os cabelos brancos estão gritando. Mas fiquei pensando nisso, já que ouço frequentemente a palavra e nunca sei o que dizer diante disso.
Então, insone, pensei: o que faz de alguém um escritor? São as experiências acumuladas ao longo dos anos vividos? Tanto melhor será aquele que mais aniversários comemorou? Um escritor só poderá contar das experiências que vivenciou? Fiz e refiz as contas, relembrei coisas da minha vida, tirei o mofo das memórias e pensei: se os escritores escrevessem narrativas sobre suas próprias vidas, seria um tédio. A vida real é contada no relógio, temos hora para dormir e acordar, comer e banhar, não podemos sair pelados gritando no meio da rua e passar ilesos, na vida real. Mas na literatura, podemos tudo. Podemos contar coisas que não vimos, mas imaginamos. Podemos dizer coisas que ouvimos, que desejamos.
É de uma liberdade que não tem nome, que não tem preço. Mas voltemos à questão: o que faz de alguém um escritor? Penso que tem que haver uma pitada boa de imaginação, mas não é só isso. Tem que habitar em seus próprios desejos e se haver com isso. O escritor é alguém cuja casca precisa ser fina para que as trocas com o meio sejam mais fáceis. Por isso arrancamos as escamas que vão se formando todos os dias com as durezas da vida, para que estejamos sempre à flor da pele. É preciso que o ouvido esteja sempre aberto, que os olhos se direcionem para aquilo que realmente importa. E o que realmente importa não tem nada a ver com o que está aí para ser visto. É preciso cultivar a sensibilidade em relação ao que se vive.
Para ser escritor, é preciso que as palavras ainda sirvam de brinquedo, como na infância. A pior coisa que pode acontecer é deixar que a língua fique endurecida pelas regras. O melhor é a língua solta, porque daí as possibilidades são infinitas. A escrita nada tem a ver com a idade da pessoa que escreve, mas com uma tendência de sentir a dor alheia. De se transvestir da pele do outro, seja ele quem for. O escritor é um que consiga se despir dos seus próprios preconceitos ou, dos que carrega, que possa ser sincero e falar sobre eles, até que caiam por terra. Amigos, não há outro modo possível que não seja a fala, a escrita, nos caso. Sentir as próprias dores é de todos nós, mas sentir as dores do outro, somadas às nossas próprias, e poder transformar isso em palavras é uma dor que faz sentido. Ousaria dizer que é gostosinho, ao menos para mim.
Já são quase cinco e meia e a vida real me chama. O relógio, por mais que eu quisesse esquecê-lo, desperta dizendo: “Vá, novinha, que você tem que trabalhar. Ou vai ficar aí catando borboletas?”. Me desculpem pelos devaneios e pelas borboletas. Deve ser efeito da insônia.        
   

Isloany Machado, 12/04/2017. 

terça-feira, 11 de abril de 2017

Cartarresenha sobre Tekoha: em busca da terra sem males




Campo Grande, 10 de abril de 2017.

Querido Antonio,

            Há sete anos você foi meu professor de Direitos Humanos e já era possível perceber sua sensibilidade, mas o romance me surpreendeu, muito. Não porque eu não te imaginasse capaz de escrevê-lo, mas porque essa poesia é tão rara...
            Tekoha chegou em boa hora, pois, coincidentemente estou revisando uma dissertação de antropologia que me fez ler os termos indígenas com uma grande familiaridade. Fiquei pensando no quanto sua formação, mas sobretudo sua vivência, te influenciou na escrita deste romance. É uma escrita de dentro, de quem viu, e não de quem só ficou sabendo do assunto.
            Achei linda a forma como você fala desse “sobrenatural” da cultura indígena, algo tão desvalorizado pela nossa sociedade embrutecida, enceguecida pelo dinheiro, pela produção, pela utilidade das coisas (aqui se incluem as pessoas). Se não serve pra nada, se não produz, pode/deve ser descartado. É uma lógica que não entra na minha cabeça. Faço e refaço as contas, mas confesso que não consigo entender. Será que nós estamos errados em nossos gritos de defesa pelos indígenas, pelos loucos? Às vezes parece que perco a voz.
            Seu romance me emocionou muito, pela beleza, mas também pela crueza de uma verdade que me parece tão difícil de engolir. Às vezes o amor nos parece tão potente que poderia vencer qualquer coisa, mas há aspectos dessa (des)humanidade que parecem invencíveis. A força bruta despedaça as delicadas pétalas do amor. Porque este é como a arte, a literatura: só podem ser um grito contrário a essa ordem maluca das coisas. Nem sempre vencemos, quase nunca vencemos. Mas sua história me fez pensar que há uma pureza que seguirá indestrutível.
            Seu casal, à la Romeu e Julieta, a-morte-cidos de amor e dor. Chorei muito pela perda da inocência. Essa perda é de cada um de nós. Seu urubu, companheiro da velha, me soou como o corvo de Poe, com seus tristes ais. Nunca mais olharei uma fuligem como uma fuligem, para sempre será uma borboleta negra morta e sem destino. Obrigada pela poesia desta metáfora.
            Quanto ao karaí (homem branco), eu queria ser o urubu, apesar de, estranhamente (no sentido do “estranho” freudiano) ter sentido uma pitada de captura pela força do desejo dele pela menina. Somos estranhos de nós mesmos. Não posso dizer porque queria ser o urubu para que esse texto não seja spoiler, mas você entenderá meus motivos.
            Você toca também em um assunto delicado, que é o decidir morrer, tão mal ou pouco falado em todos os cantos. Mas que não é tão incompreensível algumas vezes. Veja, naquele ataque químico sofrido pela Síria, vi a reportagem de um homem que enterrou 25 pessoas da família. Você ia querer continuar vivo? E quanto aos sobreviventes do holocausto? É possível continuar vivendo quando já se está morto há muito tempo? A velha, como um tronco de árvore, tinha a seiva vinda da menina, assim como Itakara. Isso é o amor, é fazer laços.
            Me emocionou muito a parte em que Xiru Mingué não sabe mais quem é sob os olhos e as palavras do karaí. Chorei muito, porque me dói a redução de um sujeito a nada, a um resto, a coisa nenhuma. É assim que nossa sociedade tem tratado os indígenas (não só eles), mas estão aqui do lado. Quando você (ou seu narrador) descrevia Narã Poty, parece que era de mim que estava falando. Me dói a minha própria impotência.
            Seu romance é lindo. Espero o próximo já.

Um abraço e parabéns,

Isloany

sexta-feira, 7 de abril de 2017

07 de abril de 2017



Oi.


Já faz tempo, né? Parece que foi ontem, mas lá se foram cinco anos. Às vezes ainda sonho com você, geralmente perto de alguma data importante, seu aniversário, sua partida, coisas assim. Nem sempre consigo te escrever porque quase nunca tenho o que dizer. É tão difícil às vezes. No último sonho você estava vivo, mas eu sabia que não. Muitas coisas mudaram nesse tempo todo, mas você não está aqui para ver. Fico pensando em como seria a próxima vez que nos encontraríamos. Frase cuja conjugação é até difícil: futuro do pretérito. Tempo verbal das coisas que poderiam ter sido, mas não serão. Eu não queria ficar lamentando as coisas que poderiam ter sido, mas às vezes é inevitável. Por outro lado, não sei se seria bom pra você se ainda estivesse aqui. É tanta merda acontecendo, não só aqui no nosso país como no mundo, que tem dias que acordo e nem sei o sentido de mais nada. Mesmo assim queria que você tivesse continuado, que sua vida tivesse continuado, mas sei que é egonarcisismo meu. A vida era sua, a decisão de continuar ou não também. Essa semana aconteceu um ataque com armas químicas na Síria, imediatamente pensei em você quando vi a notícia. Pensei em você porque eu também não queria ver essas coisas, mas estando aqui, não há como não ver. Eu tento fechar os olhos para que algo faça sentido, mas não faz. Nada nisso tudo faz sentido. Estamos, se você quer saber, mergulhados num mar da mais podre miséria humana. Somos miseráveis. Era isso que você não queria ver? Não queria saber? Ou será que havia um lodaçal interno que te afogava da vida? Como eu poderei saber? Sei bem que muitas vezes a fuga era sua melhor saída, mas eu não estava aí pra ouvir o que você poderia estar sentindo. Talvez eu esteja me dando uma importância que no fundo nem tinha. Mas o fato é que você foi embora mudo e calou a todos. Aqui no Brasil as coisas não estão das melhores também. Estou com o cu trancando de medo de elegerem um presidente completamente intolerante. Nem sei se concordaria com minhas ideologias políticas, mas se votasse num cara desses, eu mesma acabava com você. Que piadinha de mau gosto. Desculpe. Ia dizer que foi um ato de coragem o que cometeu, mas agora já não sei se é isso que eu penso. Foi covardia diante da vida? E então por acaso a corajosa sou eu, que estou aqui vendo tudo acontecer e não faço nada? E o que eu poderia fazer? Talvez você tenha percebido mais cedo do que eu o quanto somos impotentes diante da necessidade que nós humanos temos do nosso próprio extermínio. Não é exatamente o que estamos fazendo? Matando o outro, matamos a nós mesmos. Você cortou caminho. Preciso te dizer que acho que vou morrer do estômago. É onde minha impotência humana se canaliza, sinto dor, sinto queimação, sinto a vida arder dentro dele. Parece que está cada vez menor. Onde estava concentrada sua impotência? Na cabeça? Que coragem. Sabe, estando aqui, viva, as alegrias perdem um pouco a cor sempre que me lembro de tudo o que está acontecendo. Não sei onde foi parar minha coragem, minha vontade de mudar o mundo. Talvez o que me salve seja justamente a arte. Jesus salva? Porra nenhuma. Não tenha medo do inferno. O inferno é aqui, no mundo dos vivos.     

quinta-feira, 30 de março de 2017

Às cinco horas da manhã

São cinco horas da manhã e o sono me perdeu. Isso mesmo, foi ele que me perdeu. Dificilmente eu o perderia às cinco, já que mesmo quando me acontece de ter insônia, este é um horário em que o corpo já parou de se debater e está entregue, vencido. Mas eu preciso escrever e não tenho outro tempo. As pessoas me perguntam: por que não escreve mais? Então decidi que vou levantar todos os dias nesse mesmo horário para escrever, durante uma hora, até que eu tenha que acordar de verdade e me preparar para o trabalho. Como não me sobra tempo pra muita coisa, eu poderia usar esta uma hora para várias outras atividades.

domingo, 26 de março de 2017

Em cinco anos


O que se faz em cinco anos?
Em cinco anos se faz uma faculdade (foi o tempo do meu curso de Psicologia).
Há cinco anos a vida deu uma reviravolta desde que tomei um soco no estômago com a morte do meu primo. Morte que me fez repensar meus próprios julgamentos sobre o suicídio, sobre a autonomia do sujeito em poder e querer viver.
Há cinco anos, desde o soco no estômago, descobri que tudo o que eu quero é viver. Loucamente. Não viver loucamente. Mas loucamente, viver. É da ordem do desejo, do querer, inconsciente e consciente.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Carta sobre Em defesa dos avessos humanos



Olá Isloany,
Li "Em Defesa dos Avessos Humanos" em uma longa viagem para casa, entre aviões e 10 horas de espera em aeroporto, estava calor e eu não tinha dormido muito bem, primeiramente devo dizer que suas palavras foram boas companheiras nessa jornada cansativa. Assim como uma canção, a literatura marca em minha vida pequenos recortes temporais, releio livros e relembro o que sentia, quais eram meus dilemas, meus prazeres e em que ponto eu estava em minha jornada comigo mesmo; não foi diferente com "Em Defesa dos Avessos Humanos". Não foi a toa (nunca é) que suas palavras se marcaram nesse pequeno recorte temporal pessoal de uma viagem para casa, após 1 ano e meio distante, distante por escolha, distante de questões que precisava lidar e me implicar, justamente escolhi ler um livro que fala sobre desejo, relações familiares, literatura, psicanálise, morte, subversão, objeto "a", Manoel de Barros, amor e quantos mais significados pessoas e palavras possam desbravar. Relendo-o agora para escrever essa carta, relembro do quão angustiante foi essa viagem e como foi importante voltar pra casa e resolver pendências, falar o que deveria ser dito e reencontrar os prazeres de meu antigo lar. Seu livro tem temas diversos como se propõe a ser, alguns com uma escrita bem humorada, expressões divertidas e estranhas sob o olhar de um nortista como "o creme do verão", outros tem o peso da angústia nas palavras e outros possuem palavras sobre um olhar sutil do cotidiano. Os temas são diversos, porém sob minha ótica tocam na mesma questão, sobre a árdua tarefa de "ser" em um mundo modelado pelo outro, ser e sustentar seja lá o que desejarmos. Nos dias de hoje vemos a ascensão da intolerância e a tentativa de impor modos de vida conservadores, enquadrantes e sufocantes, os avessos sobreviveram, sobrevivem e quem sabe com muita luta, nós Os Avessos Humanos, pararemos de sobreviver e finalmente viveremos nossas vidas da maneira que quisermos viver. Costumo achar que um bom livro quebra não só nossas expectativas, como quebra nossas lógicas, preconceitos e implica-se como um novo significante que implicará em novos significados posteriores, um bom livro abre novas possibilidades de ser e estar, pelo menos é o que a literatura significa para mim. Seu livro se marcou e implicará significados em meu futuro, além de ser uma inspiração para entusiastas da escrita como eu, obrigado pela companhia e continue a escrever (se assim desejar) com essa leveza e fluidez bem humorada e também com o peso da angústia evanescente que se torna física através de palavras, palavras são navalhas como diria o sumido Belchior, são também um abraço em alguém que amamos após um longo período distante, palavras são ver e significar, construir nossos universos únicos e solitários com amor sobre a falta e a falta sobre o amor, com arte e vida. Virginia Woolf nos diz que um dos motivos para ler, seria torcer pelos autores em suas histórias singulares, repleta de experiências e uma vida que o levou a escrever o que escreveu, o outro motivo, este na pós-leitura, seria formar nossa própria opinião e ter um olhar crítico sobre o que lemos, porém o real motivo pra ler seria o prazer de ler, um prazer complexo e difícil, que varia de época para época e de livro pra livro, mas este prazer é suficiente, assim como a leitura de seu livro. "Na verdade o prazer é tão grande que não se pode ter dúvidas de que sem ele o mundo seria um lugar muito diferente e muito inferior ao que é. Ler mudou, muda e continuará mudando o mundo." (Woolf, Virginia, mil novecentos e bolinha.)
Com apreço, Alain K.

PS: em Macapá usamos uma expressão parecida com "o creme do verão" que é "a polpa da bacaba".

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Cartarresenha Os filhos da mãe



Campo Grande, agosto de 2016.
Querida Marcia,

            Infelizmente não pude ir ao lançamento de seu livro aqui em Campo Grande, mas sabia que este era um livro necessário, ainda mais depois da maternidade. Por falar nela, tenho um Adriano que está para fazer um ano. E como as coisas mudaram desde o nascimento dele! Pra começar, o parto já foi o marco do quanto não temos nenhum controle sobre a vida do outro. Ele veio prematuro por causa de uma pré-eclâmpsia e descolamento de placenta, no oitavo mês. Ficamos 19 dias no hospital e eu não havia me preparado nem um pouco para isso. Foi caótico porque eu não conseguia dormir e, imagine, claro que fiquei meio “surtada” e “paranoica”, não querendo desgrudar dele nem por um momento, achando que só eu sabia cuidar dele. Só pude voltar ao estado normal (leia-se: escovar os dentes, pentear os cabelos e passar um batom) depois que uma pessoa bem importante para nós furou meu narcisismo e onipotência dizendo que eu não poderia dar conta de tudo. Eu sentia muito medo de perdê-lo. Enfim, desse quase um ano pra cá, claro que a vida mudou radicalmente. Assim como você, tive que reduzir minhas atividades, mas fiquei só dois meses completamente em casa. Aos poucos fui voltando a atender, a escrever, ler, e etc. Quando o Adriano estava com nove meses o pai dele saiu do emprego e aí o pequeno deixou de ser um “filho da mãe”.
            Eu comprei seu livro porque queria ler logo pra emprestar pra minha irmã. Quando comecei a leitura d’Os filhos da mãe, já achei fantástico o fato de você escrever em seu nome (primeira pessoa), assumindo a autoria de sua história com a maternidade. Marcia, seu livro é incrível. A minha vontade era de comprar uma caixa inteira dele e, depois de distribuir para todas as minhas amigas, sair pela rua panfletando Os filhos da mãe, dizendo para as pessoas: “Olá! Você gostaria de se livrar das culpas da maternidade?”, quase como as pessoas costumam dizer: “Oi, você já conhece a palavra de Deus?”. Todas as pessoas deveriam ler, pelos seguintes motivos:
- Mulheres que são mães: pelo motivo mais óbvio que é entender porque se sentem tão culpadas e poderem se livrar desse sentimento.
- Mulheres que ainda não são mães, mas desejam sê-lo: entender o peso histórico que nossa cultura coloca sobre a maternidade para que possam se preparam melhor, sabendo que incluir o pai é necessário. Para que saibam também que ter filhos não precisa ser um bicho de sete cabeças desde que se lide com isso de forma mais leve. Não acho que seu livro desmotiva as mulheres de terem filhos. Pelo contrário.
- Mulheres que não querem ser mães: para que saibam que não é preciso ter filhos caso este não seja um desejo. Desejando já é difícil, imagine sem esse quesito fundamental? Desobrigar-se da maternidade é amar um filho que nunca virá e, portanto, não terá que arrastar o saquinho de ossos das neuroses familiares. Isso também não é amor?
- Homens que são pais: para que entendam o peso histórico que nossa cultura coloca sobre a mulher/mãe e para que não sejam eles ainda mais um peso. Para que sejam pais de fato.
- Homens que ainda não são pais, mas desejam sê-lo: Para que se preparem para uma grande mudança na vida, pois a paternidade não é só estar com os filhos na hora de brincar.
- Homens que não querem ser pais: para que assumam isso e banquem seu desejo.
- Mulheres e homens cujos filhos já saíram de casa: para que se reconciliem com seu passado e se reinventem como homens e mulheres desejantes.
            Enfim, esse livro tinha que ser incluído como leitura necessária em todas as faculdades, devia ser prescrito como remédio para todas as mulheres que sofrem de depressão pós-parto, baby blues e similares, devia ser diluído na água dos bebedouros das escolas.
            Só fiquei com uma questão: será que os casais homo não repetem também o binarismo “função materna X função paterna”?
            Marcia, traduza seu livro para muitas línguas, todos precisam dele, mesmo os xiitas da maternolatria. Quem sabe mesmo sob pedradas você consiga furar essa onipotência?
            
Muito obrigada!

Um abraço,

Isloany

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Cartarresenha E se eu fosse puta

Campo Grande, 20 de fevereiro de 2017.

Minha doce Amara,

Terminei de ler seu livro absolutamente capturada, estarrecida e completamente modificada. E que maravilha é poder te dizer isso. Escrever é algo tão corajoso! Escrever sobre prostituição é ousado. Mas ser protagonista do seu próprio enredo, sem medo do julgamento, sem pudores com a língua, é tão verdadeiro! É como alcançar o caroço de si cortando um atalho.

Para ler seu livro é preciso estar nu. Você me convidou a entrar em suas páginas despida de qualquer preconceito, porque para ler suas histórias é preciso enxergar além das narrações. É preciso ouvir sua humanidade. Ainda estou nua e não quero mais as velhas roupas.

O começo...ah, o começo é excitante! Mas na medida em que o prazer vai se transformando em uma certa revolta, muitas vezes senti vontade de pegá-la no colo e dizer que estava tudo bem, que nada de ruim poderia te acontecer. Mas ora, quem sou eu? Uma mulher, tal qual você, que deseja ardentemente ser vista, admirada, respeitada. E que precisa de tudo (ou só) isso para poder desejar também, e se sentir viva. Puta ou santa. Você conhece alguma santa? Nem eu.

Se ser santa é calar os próprios desejos, preferiria ser puta. Se ser puta é amar esse lugar de causar desejo, somos todas putas. Como na passagem em que você se entrega aos braços fortes do pedreiro, descobrindo um jeito de se sentir mulher, amolecendo-se em seus braços de homem que te achava linda. Acima de tudo, somos todas mulheres a construir nossa feminilidade, sempre.

Já dizia a sábia Simone: Ninguém nasce mulher, todas nos tornamos. Porque não há algo que nos defina a princípio. Ainda bem! Assim, temos a liberdade de sermos quem quisermos ser. Mas também é curioso isso de que o olhar do outro nos ajude (ou será que atrapalha?) nessa construção, inclusive da feminilidade.

Há uma pergunta que permeia essa sua trajetória: Qual é o meu valor como mulher? E parece que com o tempo você foi percebendo, no convívio com os “lixos”, que vale muito mais do que imaginava. Porque o que vale é o que você pôde fazer com isso: a escrita. Essa escrita revolucionária. 
Se inicialmente te excitava o cheiro de suor “de macho”, aos poucos, conforme se empodera como mulher, passa a incomodá-la a falta de higiene desses sujeitos que te procuram nos becos escuros, com suas bocas mal lavadas (achei isso tão forte e verdadeiro!), para realizarem aquilo que só admitiriam procurar na prostituição. Nas vitrines em que os corpos desfilam sob olhares que não dizem nada.

É como puta que você descobre seu valor de mulher. A que quer e pode ser desejada como quiser. Tomei emprestado alguns significantes seus que, no fim, se os emprestei é porque são meus também, e levei pra minha análise. Obrigada por isso. Já li um bocado de livros, de vários eu gostei, mas alguns, raros, já tiveram o poder de salvar minha vida. O seu é um deles. Estou modificada. Beatiputificada. Nudificada. Você me deixou eternamente nua. Obrigada.

Um abraço,
Isloany

P. S.: Ah, antes que eu me esqueça, doce amarga Amara, você é linda.


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Sou psicanalista porque fracassei



Mamãe queria que eu fosse médica. Era seu sonho. Desde criança ela o quis para si, ser médica. Não podendo, pediu a mim, desde criança, que realizasse seu desejo. Queria realizar seu desejo em mim, por procuração. Sempre tive na cabeça que faria isso, mesmo que em meu diário registrasse que estava a escrever um livro. Às vezes, os desejos da mãe são inquestionáveis. Mas não por muito tempo quando se tem uma filha histérica. Estudei a vida toda porque gostava de estudar e lembro que no terceiro ano fazia jornada dupla, manhã e tarde, para entrar na medicina. Chegadas as provas, não passei. Foi meu primeiro e grande fracasso. A reação de mamãe não foi boa. Ela esperava muito de mim. Disse que eu não havia feito tudo o que podia. Talvez não tivesse feito mesmo. Tinha motivos para isso.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Manoel de Barros e a histerização do discurso



  Ler Manoel de Barros, dependendo da fase da vida em que se está, pode ser perturbador. Se for uma época da vida em que o sujeito estiver bem calcado em suas certezas, a leitura pode ser devastadora. Para muitos, é mais fácil pensar que a poesia do ínfimo não quer dizer nada, é uma besteirinha qualquer de criança, sem nenhum tipo de valor estético no sentido da masturbação das palavras. Sim, porque há poetas punheteiros de palavras. Com isso quero enfatizar que em Manoel de Barros o que encontramos é uma estética avessa ao lirismo das belas palavras, das rimas e das construções rococós. Estamos muito mais no campo da desconstrução.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Minha carta ao pai

Pai,
Não encontrei uma maneira melhor de chegar até você, já que não saberia como falar isso ao telefone. Já que as palavras sempre lhe foram tão caras, creio até que minha relação com os livros tenha ligação direta com as vezes em que seus olhos estavam voltados para as infindáveis horas de leitura nas quais você se deleitava sublinhando cada palavra, foi pelo caminho da palavra escrita que decidi te (re)encontrar.

domingo, 11 de setembro de 2016

Carta de aniversário - 1 ano

Filho, vê todas estas pessoas que estão aqui? Elas vieram comemorar junto com a gente seu primeiro aniversário. É incrível quanta coisa aconteceu neste ano, e estas pessoas, de uma forma ou de outra, acompanharam isso tudo. Eu e seu pai escolhemos fazer da sua festa um circo para que você saiba que, apesar de todas as tristezas e dores do mundo, haverá sempre um lugar em que as coisas parecerão mais leves, doces e coloridas.