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segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Como curar ressaca literária?




Dias atrás estava eu com uma puta ressaca literária após o término d’O lobo da Estepe. Com o intuito de procurar no google um meme para dizer sobre minha ressaca, eis que uma das coisas mais pesquisadas era: “como curar ressaca literária?”. Fiquei intrigada com isso e fui estudar a fundo sobre o assunto fazendo uma pesquisa muito séria e confiável pelo facebook. Lancei para meus amigos a seguinte questão: O que você faz para curar-se de uma ressaca literária? Encontrei algumas boas respostas, mas descobri, concomitantemente, que meus amigos, ou grande parte deles, são bons cachaceiros. Transcrevo aqui algumas das dicas encontradas, vai que ajuda (omiti os nomes dos sujeitos da pesquisa para não causar constrangimento):

Sujeito 1: Como com água: quanto mais se bebe, mais sede se tem.
Pesquisadora: Você bebe água pra curar a ressaca literária, é isso?
Sujeito 1: Eu leio mais kkk.

Sujeito 2 (lacônico): Lendo mais!

Sujeito 3 (a fila anda): Eu pego o próximo livro da fila!
Pesquisadora: Logo na sequência ou dá um tempinho?
Sujeito 3: Geralmente termino tarde da noite, então o tempo entre eles é de aproximadamente meia noite! Já entro no carro para trabalhar carregando o próximo, rsrs.

Sujeito 4 (não acredita na cura possível): É um tipo de ressaca que não cabe cura. Há apenas distrações até ser provocado novamente por outro livro.
Pequisadora-ativa: Gostei disso. Como se sempre fôssemos sofredores, né?
Sujeito 4: (in)felizmente isso.

Sujeito 5: Lendo!
Pesquisadora: Em seguida? Nem chora um tempinho?
Sujeito 5 (o insensível): Sim, sem piedade! Nem café...

Sujeito 6 (perdido): Que é ressaca literária? Estou por fora.
Pesquisadora: A angústia que sente quando um livro de que gostou muito acaba.
Sujeito 6 (encontrando um rumo na vida): Ai, estou assim desde que terminei "Nossas noites", de Kent Haruf. Curtinho e me deixou com vontade ler outros textos do autor. E Lucia Berlin? É desesperador saber que nada mais será publicado depois de "Manual da faxineira", volume que reúne todos os seus contos.

Sujeito 7 (bebum): Tequilas!

Sujeito 8 (usa do recurso da negação para não ter que lidar com o luto): Vou diminuindo a leitura até não conseguir terminar. Me interna. Kkkkk
Pesquisadora-interpretadora selvagem: Mas daí é problemático.
Sujeito 8 (em fase de aceitação): Muuuito! Patológico.

Sujeito 9 (livro como fetiche): A lista dos livros para serem lidos sempre está enorme. Tenho fetiche por livro novo. É só curar a ressaca bebendo mais.
Pesquisadora: Sem intervalo pro luto?
Sujeito 9 (bem resolvido): Tem que digerir, mas sem sofrimento. Já fico com fome do próximo.

Sujeito 10 (o retorno ao útero): Dizem q o único jeito de curar ressaca alcoólica é bebendo de novo. No meu caso isso não funciona, fico doente na cama por 3 dias. O mesmo acontece na ressaca literária, trancada no quarto escuro em posição fetal emitindo grunhidos por aproximadamente 72h
Sujeito 11: Procuro ler leituras mais tranquilas que te envolve mais rápido como uma HQ por exemplo.

Sujeito 12 (que faz bom uso da própria neurose): Haha boa questão. Digo a mim mesmo (com nó na garganta) que "não morro sem ler de novo, um dia essa obra estará nublada na minha memória!". Assim, já mato dois coelhos: balizo a morte pra longe e consigo desapegar logo do livro pra não estragar a expectativa do flashback kkkk ele está sempre lá na frente de novo. Não é um "adeus", é sempre um "até logo" kkkk a neurose às vezes ajuda.

Sujeito 13 (o que apela à vontade): Você pode recomeçar devagarinho, mas tem que querer.  :)

Sujeito 14: Com um outro tipo de ressaca.
Pesquisadora: Enche a cara? Entorta o caneco?
Sujeito 14 (já tinha ido pro bar e não respondeu)

Sujeito 15 (cético, pero intergaláctico): Eu não acredito em ressaca literária, até porque a quantidade de grandes livros para lermos é infindável. Daria para prosseguirmos com a leitura até o entrelaçamento da Via Láctea com Andrômeda.
Por exemplo, agora estou na fase Sul-americana, que já dura alguns anos: Huidobro, Nervo, John dos Passos, Rúben Dario, Sarmiento, Horacio Quiroga, etc etc. Está quase no fim. Depois, literatura nacional, incluindo Isloany Machado (a pesquisadora fica feliz em ser útil).
Até porque nos cursinhos da vida éramos obrigados a ler autores alheios à nossa vontade, razão de nutrirmos algumas birras meio infantes. Por exemplo, já parou para pensar que, por exemplo, Graciliano Ramos e Tobias Barreto são dois puta autores?? Somente na "adultez" temos as prerrogativas mentais necessárias para apreciar estas obras a contento...
Pesquisadora: zzzzzzzzzzzzz

Sujeito 16: Ando tomando cerveja. Coisa que não fazia. Depois de velho começar a beber parece ser ruim. Acho que o velho hábito de ler um de poesia outro de romance ou conto funciona melhor. Ah, ano que vem público dois, agora com mais tranquilidade e método. Boa sorte com sua ressaca.

Sujeito 17: É como dizem, para combater a ressaca, é só tomar outra.

            Como vocês puderam ver, muita gente vai pro bar curar ressaca. Estas foram as respostas que obtive na pesquisa e acho que foram boas dicas dos meus amigos. Curei minha ressaca d’O lobo da estepe depois de alguns dias, iniciando a leitura de Presença de Anita, indicado por um amigo. Estou de ressaca de Presença de Anita desde 22 de outubro e ainda não me recuperei. Mas parece que cada um se cura à sua maneira. Escrever sobre o livro também pode ser um bom remédio!   


Isloany Machado, 30/10/2017. 

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Entrevista com Vanessa Teodoro Trajano




Entrevista com Vanessa Teodoro Trajano
Nasceu em Teresina-PI, atualmente mora em Brasília-DF. Além de escritora, é professora de língua portuguesa, mestre em estudos literários. Já publicou nove livros, entre antologias e obras individuais, dentre as quais se destacam: Mulheres Incomuns (2012), Poemas Proibidos (2014) e Doralice (2015).

Como se deu seu encontro com a literatura? Em outras palavras, como, quando e por que iniciou na escrita?

Eu não me lembro quando, exatamente. Quando eu era criança, uma leitora já voraz, via as fotos e biografias nas orelhas dos livros que eu lia e tinha a sensação de que gostaria de um dia estar ali, com alguma das minhas histórias inventadas. Por muito tempo, a realidade tentou calar este sonho e eu o esqueci. Pensei em fazer outras coisas, cursar moda por exemplo, mas na adolescência a ânisa de escrever me chamou novamente depois da leitura de Quincas Borba de Machado de Assis e de contos da Lygia Fagundes Telles. Vi que era tendenciosa para narrativas breves,  e eu explodindo de imaginação me dediquei a escrever alguns contos – fora os poemas de dor de cotovelo que a maioria dos jovens escrevem. Para minha sorte ou azar, minha fase poeta e contista nunca passou, e já enquanto adulta escrevi um romance. Creio que nunca mais vou sair dos livros, que era onde eu sempre gostaria de estar.


Uma das temáticas centrais de seu livro de contos Mulheres Incomuns é sobre o desejo e a liberdade feminina em relação ao prazer e à própria sexualidade. Podemos dizer que o que está por trás, o que faz pano de fundo ao aspecto erótico, seria uma luta por direitos?

Sim, certamente que sim. Vou dizer uma coisa que possa parecer abominável para alguns pseudo-intelectuais, mas observei, durante a minha adolescência a disparidade de discursos sobre o sexo entre o homem e a mulher. Minha referência mais próxima é a Valesca Popozuda, quando eu, com 15 anos, presenciei a sua carreira decolar com a música “de sainha”, cuja versão original é “sem calcinha”. Na mesma época, lembro perfeitamente de minhas amigas se reclamarem da imposição monogâmica ao sexo feminino, e para os homens, os garanhões, não eram afetados moralmente se ficassem com mais de uma mulher. Isso me incomodava. Acredito que as mulheres gostam de sexo mais do que os homens, mas há uma série de fatores sociais, resquícios do patriarcalismo, que as impedem de gozar de sua livre sexualidade. Mas voltando para a Valesca, há uma bela música do Chico que diz: “sou daquelas mulheres que só dizem sim”. Um verso invejável, mas me digam: será que a mulher do verso acima não deseja a mesma coisa que o “eu lírico” da Valesca? Claro que sim, o que muda é a composição da linguagem. Além disso, quando, na história da humanidade, uma mulher poderia cantar: “vou pro baile procurar o meu negão?” Isso para mim foi uma libertação, a enxerguei como uma. Rasteira, como queiram. Mas me voltava para inquietudes em relação à sexualidade e aos discursos que os considerava libertários, tentando transpassá-los a minha literatura.

Você classificaria a sua literatura como erótica? Se sim, como foi sua decisão por incluir elementos eróticos, em algum momento sentiu receio da reação do público, dos familiares, dos alunos?

É erótica mais como finalidade de nomenclatura, porque as pessoas tendem a nomear as coisas. Não vejo problema com o termo, e não me incomodo quem a classifica como pornográfica também. Nunca senti receio em relação à ninguém. Eu sabia o que estava fazendo. Se alguém estivesse incomodado, quisesse me excomungar ou me mandar para o fogueira, então eu havia alcançado meu objetivo. Minha família, tudo bem, não sou filha de católicos fervorosos ou coisas do tipo. E não chego numa sala de aula me apresentando como escritora. Alguns já descobriram por acaso, mas foram bem discretos.

Muitos autores não conseguem reler o que publicam. Como você se relaciona com uma obra já publicada? Também tem esta dificuldade?

Não leio, porque costumo odiar o que escrevi. Sempre desejo mudar. A obra nunca está pronta. A melhor parte de escrever é reescrever. Pelo menos eu queria viver nessa parte, eternamente reescrevendo.

Você já sofreu algum tipo de preconceito, em meios literários, por ser uma mulher?

A primeira vez foi foda. Envolveu meu trabalho. Pedi férias antecipadas porque um charlatão me falou que arranjaria um lançamento do meu livro em Paraty e fui. Chegando lá as coisas não eram bem assim como ele havia pintado, haveria uma condição. Bem, fico me perguntando em que momento dei a entender isso. Era como se somando os elementos mulher e erotismo só poderia resultar fatalmente para mim, como se fosse óbvio que por conta disso me vendesse. Isso é preconceito, não é? Outra situação, ao meu ver ainda mais pavorosa, foi quando fui atacada por outra mulher, que não teve respeito nenhum pela minha história e tentou me diminuir intelectual e moralmente na frente de todos. Eu não entendo porque as mulheres se fazem tão inimigas. Bem, aqui e acolá houveram outras ocasiões em que sofri preconceito, mas nada tão drástico como as que acabei de citar.

Acredita haver diferenças na maneira de escrever o erótico por homens e mulheres? A função ou a posição do erotismo na escrita de um é diferente do outro?

Anaïs Nin sempre fala que o erotismo da mulher não dissocia-se das emoções. Já Beauvoir afirma que o erotismo da mulher é mais complexo que reflete TODA a sua situação. Acredito que a mulher que escreve literatura erótica está protagonizando anseios e desejos que foram privilégio dos homens, assim como ocupar a posição de um sujeito falante – Virginia Woolf o fez muito bem, e se valeu como empurrãozinho para várias outras – também contribui para que tal produção reflita nessa função. É como se agora ela estivesse acendendo, desperta de um longo adormecimento. Os homens sempre escreveram literatura erótica, não nos esqueçamos de Ovídio. A mulher está tendo essa abertura só recentemente – recentemente demais até, se pensarmos em séculos – portanto a diferenciação de escrita de um e de outro seja ainda prematuro dizer qualquer coisa. Prefiro não pensar que por ser mulher escreve diferente, o que acontece é que desejos que sempre foram amordaçados estão vindo à tona através da literatura, e isto para a lei que vigora a for “da moral e dos bons costumes” (sempre) soará blasfemo.

Os leitores costumam fazer muita confusão entre autor e obra?

Claro, eu mesma faço isso, inevitavelmente. Mas não seria gostoso imaginar que é possível conhecer as sombras de alguém através de sua literatura?

Qual a função do erótico na literatura?

Respondi isso tantas vezes na minha dissertação de mestrado que não sei se saberei responder originalmente agora. Mas vamos lá. Muitos leitores confiam na literatura erótica como entretenimento. No mais das vezes pode até ser, mas se você observar bem muitas obras utilizaram-se do erotismo para tecer denúncias ou ironizar. O caderno rosa de Lori Lamby de Hilda Hilst, por exemplo, há quem diga que se trata de uma obra erótica, mas só consigo enxergar denúncia contra pedofilia e prostituição infantil. Outro livro que é o meu xodó é Madame Bovary, de Gustave Flaubert. Quem não se identifica com Ema? Na verdade, a vida é tediosa mesmo, e os amantes para ela foram uma distração e tanto. Eu poderia citar inúmeras outras obras, mas cairia na mesma opinião, modificando-a aqui ou ali quando necessário. O fato que o erótico na literatura não precisa de uma função específica, ele existe, como o existe em nossas vidas. Não é a literatura imitação/representação/antecipação da vida?


Qual sua opinião sobre a entrada do politicamente correto (leitor sensível) na literatura?

Se isto vigorar estou lascada, não publico mais nada. Uma vez escrevi “Se eu fosse uma garota de programa” no meu blog, em que a personagem, prostituta de luxo, zomba das colegas de profissão que ganham a vida nas esquinas sujas e perigosas do centro da cidade. Fui acusada de várias coisas, das quais nem me lembro. Mas me diga: será se não existe essa prostituta que acredita ser melhor porque os seus clientes as levam para os melhores motéis e um único programa seu é mais caro do que as do centro às vezes trabalham o mês inteiro para ganhar? Saindo da prostituição: imagine um professor de faculdade, ou melhor, de pós-graduação, que faz questão de ser chamado de doutor e acredita ser ele mesmo um semi-deus? Jesus, se essas pessoas que se acham melhor que as outras por míseros detalhes não existem então eu devo estar ficando louca. E respondendo melhor a pergunta, a implantação do leitor sensível extingue, literalmente, a literatura sensível. Ela ficará exposta, sem poesia, hipócrita. Não quero imaginar como seria a literatura sem sensibilidade.

Você adota algum procedimento quando vai escrever? Espera a inspiração? Costuma ter um horário específico pra trabalhar?

Sou daquelas que espera o clarão vir me assombrar. Não sou prática. Deveria sê-lo, acredito no método da refeitura até a perfeição, e até o faço ou tento fazê-lo, mas só depois que me inspiro, não me obrigo a nada. Quando isso acontece, costumo fazer durante o dia, depois do café da manhã. É muito romântico imaginar um escritor que escreve à noite, mas eu não sou noctívaga. Já até tive a minha fase, porém a vida real nos convida para descansar a noite e funcionar de dia.

Existe um leitor ideal? Se sim, como ele seria?

Nunca pensei nisso como escritora, apenas como professora. Digo para os meus alunos que eles devem ter sempre uma caneta ao alcance para rabiscar as margens do livro, grifar as palavras que não conhecem a fim de buscar o significado delas, enfim, fazer um borrão só, o que muitos sentem ciúmes – eu mesma não gosto tanto dessa prática porque não quero sujar meus livros. Enfim, não gosto de pensar no  que seria o leitor ideal, pois sugere uma demarcação. Estas perguntas que me fez são fruto de uma leitura feita por você, que por sua vez poderia ser totalmente diversa se feita um ano depois ou atrás. A leitura é muito plástica para tentar medi-la.

Qual é a sua maior ambição no campo da escrita?

Quero me tornar uma polígrafa. A palavra parece não existir no feminino. Existe polígrafo, Machado de Assis o fora. Eu desejo sê-lo: publicar o máximo de gêneros possíveis, e ganhar um grande prêmio um dia. Não por vaidade. É porque é chato isso de mandar fazer os livros e eles ficarem empilhados em casa, oferecendo pros outros comprarem. Não desejo mais isso, é chato. Queria um prêmio que me garantisse publicar sem me preocupar com a distribuição, por menor que fosse.

Quais os principais autores e respectivas obras que influenciam sua escrita?

Anaïs Nin, minha musa etena. Machado de Assis, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, Carlos Drummond, Charles Bukwoski, etc. Não sou de pensar em obras isoladas, porque já tive várias preferidas ao longo da vida. No momento, a minha maior influência são os contos de Anaïs Nin, Delta de Vênus e Pequenos pássaros.

A literatura exerce pra você uma função catártica?

Tanto na leitura como na escrita percebo que sou atravessada por algo que me faz diversas vezes submergir e voltar à margem como que sem ar. Então eu acordo, amaldiçoada ou revigorada, vai depender do que leio ou escrevo. Se isto não acontecer, faço outra coisa. Meu espírito não está preparado verdadeiramente naquele momento para aquilo, ou a obra não é suficientemente artística.

Qual a maior dificuldade que você encontra/encontrou nesse caminho de ser uma autora independente?

Como disse, vender é a pior parte. Às vezes me sinto esmolando. Parei com isso. Não ofereço minha obra pra mais ningém. Anuncio que publiquei, mais nada. No começo da carreira vendi livros em bares, e na época deu certo, ocorreu tudo bem, mas não consigo continuar a fazê-lo. Não me pergunte o porquê, não saberei responder.

Ao todo, você tem nove livros publicados. Tem um “filho” predileto? Se sim, qual deles?

Mulheres Incomuns, por ser o primogênito, me atrai mais. Porém não acredito que tenha sido minha melhor obra, tampouco acho que ela já foi escrita. Não diria preferência, mas Mulheres Incomuns tem algo que me arrebata, ele foi o passaporte inicial para a vida que escolhi; sua função também foi de me libertar como mulher, pois por meio dele dei vida à personagem Vanessa Trajano. Eu precisava me tornar uma mulher incomum, devo isso ao meu livro.

Existe algum livro que abriu uma cratera, fez uma hecatombe na sua vida a ponto de fazer com que as coisas passassem a ser vistas de outra maneira?

Doralice foi escrito de maneira muito peculiar. Eu viajava todo ano para Fortaleza, minha terra natal de coração (pois todos da minha família são de lá), e na estrada me inquietava com aquelas casas à beira da estrada no meio do nada, que só depois de muitos quilômetros havia outra. Também sentia um mal estar quando via alguém com os seus cinquenta e tantos anos dizendo que nunca realizou um grande sonho, e passou a vida trabalhando no banco ou em outras instituições burocráticas. Então eu criei Doralice, uma menina de um interior chamado Sonhança que nunca conseguiu realizar um sonho aparentemente besta, que era o de fazer teatro. Como ela iria fazer teatro, se o teatro não chegava até lá? Se as pessoas próximas a ela não sabiam nem o que era teatro? Comecei a ver, através de Doralice, como somos tolos por esperar melhoras sociais e econômicas para movimentar a própria vida em favor dos nossos sonhos. Os governantes, principalmente os nossos, querem é matá-los, um a um, até não restar nenhum sonhador que inspire outros. Doralice é a minha estrela guia porque não desejo acabar como ela.

Em seus escritos de Mulheres Incomuns há uma crítica à instituição casamento?

Não acredito em monogamia, e essa é a promessa do casamento, certo? Bom, eu até acredito que existam fases monogâmicas, e que algumas raras pessoas conseguem passar a vida nelas, mas o grande problema é conseguir reunir duas pessoas com essa obstinação. Alguém sempre acaba vacilando e o outro sofrendo. Terrível, não? Em Mulheres Incomuns, algumas personagens não ligam para o casamento. São infiéis, ousadas. Ainda bem que são mulheres. Muitas leitoras dizem que minha escrita é a de uma vingadora (risos). Deve ser, mulherada.


Você poderia viver se fosse privada da literatura (ler/escrever)?

Se um dia isso acontecer, e tomara que não, espero que exista um outro lugar, no cosmo, em que eu tenha infindos papéis para escrever depois de ler todos os livros que desejo ler.



quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Resenha do livro Entropia, de Alexandre Marques Rodrigues



Quem acompanha meu blog sabe que, geralmente, minhas resenhas são cartas para os autores. Mas desta vez farei diferente, até porque fiquei algum tempo às voltas com Entropia e minha resenha é uma tentativa de montar um quebra-cabeças. Entropia caiu em minhas mãos porque fui convidada a mediar um bate-papo pelo Sesc em que o autor estaria presente. Este romance é daqueles que você começa a ler e, conforme os capítulos vão passando, em algum momento sente a necessidade de voltar ao início do jogo porque as coisas não estão fazendo muito sentido. Você volta e percebe que precisa anotar algumas coisas para não se perder na leitura.
Além disso, quando achei que havia alguma dificuldade minha na compreensão, parei tudo e fui buscar resenhas e comentários. Parecia, então, que a confusão fazia parte do processo. Mas acho que devo dizer algo já de início: para ler Entropia é preciso não estar com muita preguiça de pensar, porque se trata de um livro que demanda anotações, pesquisas, escavações, trabalho. Primeiro: o que é entropia? A definição só vem na página 109: “Grandeza termodinâmica que mede, em um sistema isolado, seu grau de irreversibilidade”. Antes disso é preciso querer saber. Então, para quem estiver interessado em fazer esta incursão, coloco aqui nesta resenha as “chaves de leitura” que usei. Vai que cola?
Primeira chave: Os capítulos são divididos em seis eixos:
Eixo 1 - História de Roberto (um homem casado) e Constantina (amante). Narrados em terceira pessoa.
Eixo 2 - História de Franz, narrado em primeira pessoa.
Eixo 3 - História de Cecília (esposa) e, a princípio ficamos sem saber se ela é a esposa do Roberto ou do Franz.
Eixo 4 - História de Bernardo, narrada em terceira pessoa. Bernardo em Franz têm algo em comum: ambos estão numa viagem. Bernardo procura o túmulo da mãe, mas ainda não sabemos direito o motivo da viagem de Franz até certo ponto do livro.
Eixo 5 - Biografia de Anton Stein em 4 + 1 capítulos (e só muito depois é que entendemos o motivo da biografia encravada no meio de tudo isso).
Eixo 6 – Estão preparados? Aqui você conclui, ao menos eu concluí (posso ter viajado na maionese) que Franz, Bernardo e Roberto são a mesma pessoa. Na verdade já dá pra ir sacando alguma coisa antes de chegar a este eixo em que os três são um só, narrados em primeira pessoa pela voz de Franz. Daqui puxo o gancho para a:
Segunda chave: A escolha dos nomes dos personagens
- Franz: significa francês.
- Bernardo (origem germânica): Ber [urso] + hart [forte]: forte como um urso.
- Roberto (origem germânica): Hruot [glória] + bertho [brilhante/afamado]: aquele que a glória tornou famoso.
Os significados dos três nomes remetem ao general francês Napoleão Bonaparte. Mas de onde diabos eu tirei isso? Da minha imaginação fértil? Não, senhores. Alexandre vai nos dando essa dica ao longo do livro. Durante as buscas do personagem três em um (Franz/Bernardo/Roberto), alguém diz a ele: você tem que estudar as batalhas perdidas por Napoleão, mas só aquelas que ele perdeu. Aí você, um leitor obediente, vai pesquisar e descobre que Napoleão perdeu quatro grandes batalhas:
- Trafalgar
- Moscow
- Leipzig
- Waterloo
Ora, vejam bem, são as quatro partes em que o livro é dividido! E por que Napoleão perdeu estas batalhas? Porque hesitou em atacar e foi atacado. Aí a sua imaginação de psicanalista que gosta dos significantes e dos pedaços deles te leva ao seguinte:
Entropia – En[trop]ia – tropo – tropista – tropa (do grego) tropos – ato de dar a volta.
E o que isso quer dizer? Não sei. Mas de alguma forma é como o livro faz você se sentir, dando voltas dentro de um sistema fechado.
Terceira chave: Principais temas
- Esgarçamento das relações representado pelo constante desencontro. Há desencontro de Franz/Bernardo/Roberto com as mulheres tanto no amor como no sexo, desencontro na busca pelo túmulo da mãe, e vários outros.
- Morte como um retorno ao nada, permanecemos no sistema fechado.
- Solidão e desamparo.
- O recuo diante das batalhas.
- Busca pela mãe (com quem não há nenhum laço, já que ela morreu quando ele era criança), como uma espécie de metáfora à busca pelo mito de origem.
Quarta chave: recursos de estilo
Aqui não tenho muita condição de esgotar os recursos utilizados por Alexandre, mas os que mais me chamaram a atenção foram:
- A mistura de tempos verbais numa mesma frase: “Sou quase virgem, ela disse, dizia, disse uma e outra vez”.
- Escrita entrecortada que lembra o trabalho de uma máquina. Este fato faz das cenas sexuais um trabalho mecânico e nada excitante para o leitor. O objetivo do Alexandre parece ser mais para falar do impossível do sexo do que do erótico em si.
Bem, foi assim que consegui decantar a leitura. Ainda que tenha feito assim, de forma esquemática, quero avisar a vocês que os temas trabalhados e a forma como o autor aborda são bastante tocantes. Espero que ajude!

Isloany Machado, 05/10/2017

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Prefácio do livro Alma Desnuda



Conheci Gabriela em 2013, quando fui sua professora no curso de psicologia da UFMS. Depois nos reencontramos em outro contexto, por causa da literatura na fronteira com a psicanálise. Gabriela bateu asas e voou com suas letras e aqui está o resultado da poesia que corre em suas veias. Neste seu livro de estreia, a menina desnuda a alma diante do leitor e mostra a grandiosidade do que há do lado de dentro, desse avesso que tanto insiste. Os temas da dor de existir, do ser mulher em um mundo que nos tenta colocar cerca, da loucura, do amor, da paixão, dentre outros, estão presentes para capturar nossos olhos para além da efêmera beleza daquilo que um dia, certamente, morrerá. O eu lírico deixa turvamente claro, com seus gritos e paradoxos, que não há nada para além das palavras, coisa nenhuma para além dos buracos que nos preenchem e das dúvidas em que nos agarramos. A dúvida é sempre melhor do que a certeza – pressuposto psicanalítico.
            A poesia de Gabriela está toda permeada pela psicanálise, o que talvez seja o motivo do convite para prefaciar seu primeiro livro. Está tudo aqui: o inconsciente, a resistência, a latência, a psicose, a suspensão das certezas, o desejo, as pulsões, a vida e a morte. Mas tudo desenhado de uma forma tão sedutora que quem ler ficará imediatamente envenenado e morrerá docemente, sem saber do quê. Foi assim, envenenada pela poesia de Cecília Meireles, que conheci a psicanálise. Em muitos momentos as palavras de Gabriela me lançaram de volta àqueles tempos, e o que me veio à cabeça foi o poema Motivo: “Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste: sou poeta”. Qual é o motivo do poeta? O instante. Ele pode ser alegre ou triste, menina ou mulher, mulher ou homem. Não há limites para a escrita. Parece que Gabriela descobriu na escrita seu motivo, sua (des)razão e seu sentido. Tenho que concordar com ela de que não há salvação a não ser quando nos agarramos com dentes e “unhas vermelhas” nas palavras. A palavra corta a pele e tenta dar sentido ao que não pode dizer nada.
            Convido o leitor para entrar com os dois pés nesse obscuro mundo das palavras que recobrem uma alma desnuda, deixando-se seduzir pela beleza da poesia que vem da força de um grito mudo.        
Isloany Machado

Psicanalista e Escritora.

P. S.: Para quem tiver interesse em adquirir o livro, vejam o recado da autora:
"Oi, galera bonita! Hoje quero compartilhar com vocês uma realização minha. Estou prestes a publicar meu primeiro livro, que será recheado de poesias que falam sobre o amor, a loucura, a amizade, a mulher e também muita coisa sobre mim. Por esse motivo o nome do livro: Alma Desnuda. Pois me desnudo de maneira sutil e poética, entregando com delicadeza minhas experiências e sentimentos. O livro sairá por apenas 15 reais (+ taxas de entrega). Seria uma honra ter um pedaço da minha história com vocês! Para mais informações, mandem inbox ou me contatem pelo email: gabrielarichenaferreira@gmail.com 
Em breve trarei mais informações!"

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

O tempo do fantasma em Meu malvado favorito 3

Quem me conhece sabe que eu adoro animações. Quem gosta de animações sabe que muitas delas não são feitas para crianças, mas para os pais, que têm nos filhos uma boa desculpa para ir ao cinema ver desenho. Pois bem, por que estou falando essa baboseira toda? Porque dias atrás, depois de uma abstinência de quatro meses, fomos ao cinema levar nosso sobrinho para assistir Meu malvado favorito 3. Se você não conhece, vou resumir o enredo da trilogia em algumas palavras.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Mar adentro



            No fim de semana passado estive em Aracaju a trabalho. Na verdade não sei dizer muito bem se o que eu faço é trabalho, já que falei de literatura num dia e psicanálise no outro. Mas a isso chamamos de trabalho de transmissão. Aproveitando a viagem, fomos todos: filho, marido, papagaio, periquito, etc. Ficamos empolgados porque Adriano, que ainda não tem dois anos completos, teria a oportunidade de conhecer o mar. Eu só o conheci aos 14 anos. Foi lindo, mas não teve uma vez que eu fosse e não tivesse alergia a não sei quê. Trabalho finalizado, nossa amiga Alba resolveu nos levar à praia. Ficou encantada quando soube que seria a primeira vez do Adriano.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Carta de uma psicanalista para uma puérpera



Minha querida,

            Já faz uns dias que queria te escrever, mas imagino que a correria aí esteja grande e pode ser que nem tenha muito tempo para ler esta carta. Bem, vou torcer para que sim. Serão apenas alguns minutos. São tantas coisas pra dizer e me pego sem saber por onde começar. Talvez deva começar te dando parabéns pelo nascimento do seu bebê. Não é o que todo mundo faz? Parece clichê ter que responder a isso o tempo todo, não é? “Obrigada”, você deve estar cansada de responder. Mas não precisa me dizer nada.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Sobre tudo o que excrevemos




Não, você não leu errado. Também não foi um erro de digitação. O “x” está sim no meio da palavra. Vou explicar. Desde que comecei a escrever, tenho andado às voltas com uma questão. É que inevitavelmente sinto uma repulsa pelas coisas que escrevo um tempo depois de tê-las escrito. Isso me deixava bastante chateada até um tempo atrás, porque, sendo uma autora independente, crescia a dificuldade em conseguir vender meus livros. De modo que meu desejo era sempre de publicar coisas novas, ainda que houvesse uma pilha dos livros já publicados todos por serem vendidos. Pois bem, ainda que Lacan seja incompreensível, tempos atrás, li no Seminário 20 a expressão: “publixo”. A escrita como algo que sai de nós para o lixo.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Cartarresenha sobre o livro Rebentar

Campo Grande, 05 de julho de 2017.
Querido Rafael,

            Quando te ouvi falando sobre a temática do Rebentar durante o evento do Sesc, meu primeiro pensamento foi: não conseguirei ler esse livro. Um filho extraviado da mãe há mais de trinta anos e um trabalho de luto que não se encerra. Pareceu insuportável demais pra mim. Mas mesmo assim me investi de coragem e decidi fazer a travessia. Só durante a leitura é que fui pensando no motivo da minha inicial covardia. Tem algo em mim, desde muito cedo, que treme diante da possibilidade de perder um filho. Desde a infância eu me esborrachava de chorar quando alguém cantava pra mim a música do galinho que se perde da família: “há três noites que eu não durmo, pois perdi o meu galinho, coitadinho, pobrezinho...”, conhece? Mas o medo não parou por aí.

sábado, 24 de junho de 2017

Cartarresenha sobre A instrução da noite



Querido Maurício,

            Ainda ontem te disse que minhas leituras andavam a passo de tartaruga e que provavelmente demoraria a terminar seu livro, mas acontece que depois do aparecimento do Lucas no meio da história, não consegui mais parar. Coloquei o menino pra assistir desenho e o pobre ficou sem comer até às oito da noite, quando terminei A instrução da noite. Só então voltei a ser mãe e a cuidar das outras coisas da vida. Eu sei que esta pode ser só mais uma resenha do seu livro, já tão bem-falado, mas escrevo mais por mim que por você. Era preciso dizer algo sobre ele, já que, ao contrário do seu personagem-narrador, eu sempre opto por desembuchar.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Eu nunca tinha amado assim


Dizem que o amor é algo que tira a gente de órbita. Você não consegue pensar em mais nada quando está nesse estado de apaixonamento. Mas o apaixonamento é algo passageiro, pois aos poucos você vai vendo os defeitos da pessoa, e, mesmo que o amor não acabe, a sofreguidão diminui. O enluaramento da mente diminui. Mas acontece que há um ano e três meses eu tenho experimentado um amor novo. Um amor de mãe. Me sinto boba desde o dia que ele nasceu. Mas o boba não é só no sentido de encantada, é no sentido de bocó mesmo. Isso não vai parecer nada amável, mas vamos lá. Há tempos estou devendo esta crônica para minhas amigas mães.

domingo, 21 de maio de 2017

Uma nau de dor e salvação


Nau dos Amoucos é o primeiro romance de Isloany Machado, que já nos deu dois belos volumes de contos e crônicas sobre literatura e psicanálise, Costurando palavras e Em defesa dos avessos humanos. Mas enquanto esses livros são marcados pela leveza e a aparente despretensão, tornando a leitura amena ainda quando os temas são fortes, o début ficcional de Isloany tem como grande marca a ousadia, valendo-se, por vezes, de uma estética de extremos para tratar de um tema, aliás, dois temas igualmente extremos: o amor e a loucura.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Relato de desejos sob custódia



Em tempos de uma liquidez que escorre por páginas literárias perdidas em discussões críticas bem mais afeitas às ânsias do mercado – lançamentos concorridos com o escritor em livrarias da moda; feiras e festas literárias em que a tônica são as ditas farsas e falas sobre cultura, como se a literatura não fosse cultura ou como não se bastasse para apresentação em público, mantendo seu trágico monólogo – do que à (in)satisfação de algo humano que resiste em nós, a Nau dos amoucos incomoda desde o título. Referência à obra A nave dos loucos, de Bosch? Paradoxo escondido no qualitativo “amouco”, designativo do sujeito obcecado pelo servilismo a algo, a alguém? Narrativa sobre a vida de um protagonista acostumado à loucura da mãe, alienada pela fúria paterna na contenção de seus desejos? Tudo ou nada disso?

quarta-feira, 12 de abril de 2017

O que faz de alguém um escritor?



Perdi o sono às três e meia. Durante uma hora me debati na cama, tentando dormir de novo, mas não consegui. A cabeça fervilhando, com nada digno de preocupação. Nas horas insones é como se a cabeça ficasse grávida de pensamentos. Então, tecnicamente estou em trabalho de parto.
Tenho andado às voltas com um significante que me acompanha não só em relação ao ofício da escrita, mas no da psicanálise também. Não é raro que as pessoas me digam: “Publicou um livro é? Mas tão novinha!”. É algo que tem seu lado lisonjeiro, já que passei dos trinta e os cabelos brancos estão gritando. Mas fiquei pensando nisso, já que ouço frequentemente a palavra e nunca sei o que dizer diante disso.