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sábado, 21 de julho de 2018

Haverá reabilitação possível?



Hoje pela manhã, indo para o consultório, ouvia Rehab, da Amy Winehouse. Depois de uma semana de várias conversas com meus amigos sobre a "epidemia" de suicídios, depois de uma semana intensa de atendimentos, depois de alguns anos de uma crise que atravessamos no Brasil e no mundo, num tempo em que tudo ao redor parece estar (e talvez esteja mesmo) em ruínas, ouvir aquela voz que diz: "Tentaram me mandar para a reabilitação, mas eu disse 'não, não, não'", me fez arrepiar. 

Atravessamos, mais uma vez, um tempo sombrio, obscuro, em que não conseguimos enxergar um palmo adiante. Não há garantias de futuro, a instabilidade econômica ampliando nossa dor de existir, esticando a sensação de desamparo, tão inerente ao humano. Num mundo em ruínas, onde investiremos nossa libido? O processo todo parece entrar no campo da psicose, em que a libido, antes investida na “realidade" externa, se volta para o sujeito, ao narcisismo ou (pior) ao autoerotismo, e o corpo se torna o foco, daí o despedaçamento tão frequente nos discursos esquizo. Em tempos sombrios ou não, há a estruturação psíquica, há, segundo a psicanálise, as neuroses, as psicoses e a perversão. Que obviamente são influenciadas pelo contexto histórico, mas que também são posições subjetivas. De qualquer modo, sejamos neuróticos, psicóticos ou perversos, construímos algo particular sobre a história. Cada um a seu modo ergue os próprios tijolos sobre essa realidadezinha que nem sabemos de fato de que se trata, justamente porque ela, A realidade, não existe independente de nossas lentes.

Para além das estruturas estão os sintomas, que variam em conteúdo de acordo com o mal-estar da época. Fico me perguntando se algum período histórico já esteve isento do mal-estar, e a resposta encontro com a psicanálise, de que se tornar humano é o mal-estar, estar inserido na linguagem e sofrer as perdas que isso causa, faz parte da nossa eterna sensação de deslocamento. Onde é que eu deveria estar? Somos todos deslocados de nosso desejo e, em tempos sombrios, tempos de guerra, fica ainda mais difícil encontrar o rumo, porque faltam coisas de base, falta comida, água, abrigo. Uma falta cravada, encravada no Real. O Real de um corpo reduzido a objeto, que pode deixar de existir a qualquer momento porque a falta é real. O psíquico parece então de menor importância, pois como podemos nos queixar, por exemplo, de uma tristeza profunda que não tem causa aparente, já que "não me falta nada"? Quando tudo parece estar em ordem, mas a angústia se alastra como um líquido derramado e nunca encontramos a fonte? Mas o que dizer quando a isso se junta um mundo "globalizado" e ruinoso? Quando somos quase que obrigados a achar natural gente morrendo de fome, explodida por bombas, expatriada, xingada nos metrôs mundo afora por ser estrangeira? Quando foi que o ódio das pequenas diferenças ganhou tamanha proporção? Isso acontece quando uma voz se faz mais alta, se ergue para, deliberadamente, destruir o outro (o pequeno outro, como diria Lacan).

Quando ouvia Rehab e o “não, não, não”, pensava, como é possível se reabilitar, ou seja, se readequar a um contexto de destruição? Cada um escolhe sua maneira de se desconectar desta realidade que só faz destruir. E talvez a desconexão seja mais saudável mentalmente do que a "reabilitação" da forma como tem sido feita, com a epidemia dos diagnósticos baseados em fenômenos e não na posição subjetiva, com a facilidade em que psicotrópicos entram e saem na vida das pessoas. Muitas vezes os psicotrópicos mascaram ou amortecem algo que deveria ser insuportável a ponto de ser dito, seja na neurose, na psicose ou na perversão. A palavra ainda é nossa melhor invenção, e isso me faz acreditar e confiar somente em psiquiatras que associam medicamento e indicação de psicoterapia porque sabem da importância da fala, porque também sabem ouvir, isso é ouro (fica a dica).

Amortecer toda uma sociedade é impossível. Isso não seria uma possível justificativa para a “epidemia” de suicídios? Falta escuta, minha gente! Falta investir a libido em laços ainda possíveis. Nossa luta é não deixar que se alastre este grande movimento de retorno da libido para os próprios egos, para o ensimesmamento, para a autodestruição. Que a pulsão seja de vida, que não nos falte coragem para estabelecer laços, que não tenhamos vergonha de procurar ajuda. Amy disse não para a reabilitação, não quis, como muitos também não querem, entrar na lógica da adequação. Ela preferiu outra forma de amortecimento, ainda assim nos deixou sua música. Andamos todos meio amortecidos de alguma forma, mas fazer laços é o que nos resta para evitar o empuxo à morte.

quinta-feira, 1 de março de 2018

Insônia

Acordo na madrugada com o peito esmagado pela velha insônia. Acaricio o travesseiro implorando que me devolva a paz perdida. Olhos fechados para não abrir mão do fiapo de esperança, ilusão de que posso acalmar a agitação da vida que urge à minha revelia.

sábado, 2 de dezembro de 2017

Cartarresenha do livro Pai, Pai

Campo Grande, 02 de dezembro de 2017.

Querido João,

       Espero que não te assuste a intimidade com que esta leitora te escreve, mas é que tenho cultivado o hábito de escrever cartas-resenha de livros que me tocam e cujos autores são contemporâneos. Não sei como te agradecer pela publicação de Pai, Pai. Ele me caiu em mãos num momento muito oportuno, pois estou às voltas tentando entender a minha própria relação com meu pai. Sim, estou em análise faz um tempo. Inclusive, veja que coincidência: sou psicanalista.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Como curar ressaca literária?




Dias atrás estava eu com uma puta ressaca literária após o término d’O lobo da Estepe. Com o intuito de procurar no google um meme para dizer sobre minha ressaca, eis que uma das coisas mais pesquisadas era: “como curar ressaca literária?”. Fiquei intrigada com isso e fui estudar a fundo sobre o assunto fazendo uma pesquisa muito séria e confiável pelo facebook. Lancei para meus amigos a seguinte questão: O que você faz para curar-se de uma ressaca literária? Encontrei algumas boas respostas, mas descobri, concomitantemente, que meus amigos, ou grande parte deles, são bons cachaceiros. Transcrevo aqui algumas das dicas encontradas, vai que ajuda (omiti os nomes dos sujeitos da pesquisa para não causar constrangimento):

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Resenha do livro Entropia, de Alexandre Marques Rodrigues



Quem acompanha meu blog sabe que, geralmente, minhas resenhas são cartas para os autores. Mas desta vez farei diferente, até porque fiquei algum tempo às voltas com Entropia e minha resenha é uma tentativa de montar um quebra-cabeças. Entropia caiu em minhas mãos porque fui convidada a mediar um bate-papo pelo Sesc em que o autor estaria presente. Este romance é daqueles que você começa a ler e, conforme os capítulos vão passando, em algum momento sente a necessidade de voltar ao início do jogo porque as coisas não estão fazendo muito sentido. Você volta e percebe que precisa anotar algumas coisas para não se perder na leitura.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Prefácio do livro Alma Desnuda



Conheci Gabriela em 2013, quando fui sua professora no curso de psicologia da UFMS. Depois nos reencontramos em outro contexto, por causa da literatura na fronteira com a psicanálise. Gabriela bateu asas e voou com suas letras e aqui está o resultado da poesia que corre em suas veias. Neste seu livro de estreia, a menina desnuda a alma diante do leitor e mostra a grandiosidade do que há do lado de dentro, desse avesso que tanto insiste. Os temas da dor de existir, do ser mulher em um mundo que nos tenta colocar cerca, da loucura, do amor, da paixão, dentre outros, estão presentes para capturar nossos olhos para além da efêmera beleza daquilo que um dia, certamente, morrerá. O eu lírico deixa turvamente claro, com seus gritos e paradoxos, que não há nada para além das palavras, coisa nenhuma para além dos buracos que nos preenchem e das dúvidas em que nos agarramos. A dúvida é sempre melhor do que a certeza – pressuposto psicanalítico.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

O tempo do fantasma em Meu malvado favorito 3

Quem me conhece sabe que eu adoro animações. Quem gosta de animações sabe que muitas delas não são feitas para crianças, mas para os pais, que têm nos filhos uma boa desculpa para ir ao cinema ver desenho. Pois bem, por que estou falando essa baboseira toda? Porque dias atrás, depois de uma abstinência de quatro meses, fomos ao cinema levar nosso sobrinho para assistir Meu malvado favorito 3. Se você não conhece, vou resumir o enredo da trilogia em algumas palavras.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Mar adentro



            No fim de semana passado estive em Aracaju a trabalho. Na verdade não sei dizer muito bem se o que eu faço é trabalho, já que falei de literatura num dia e psicanálise no outro. Mas a isso chamamos de trabalho de transmissão. Aproveitando a viagem, fomos todos: filho, marido, papagaio, periquito, etc. Ficamos empolgados porque Adriano, que ainda não tem dois anos completos, teria a oportunidade de conhecer o mar. Eu só o conheci aos 14 anos. Foi lindo, mas não teve uma vez que eu fosse e não tivesse alergia a não sei quê. Trabalho finalizado, nossa amiga Alba resolveu nos levar à praia. Ficou encantada quando soube que seria a primeira vez do Adriano.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Carta de uma psicanalista para uma puérpera



Minha querida,

            Já faz uns dias que queria te escrever, mas imagino que a correria aí esteja grande e pode ser que nem tenha muito tempo para ler esta carta. Bem, vou torcer para que sim. Serão apenas alguns minutos. São tantas coisas pra dizer e me pego sem saber por onde começar. Talvez deva começar te dando parabéns pelo nascimento do seu bebê. Não é o que todo mundo faz? Parece clichê ter que responder a isso o tempo todo, não é? “Obrigada”, você deve estar cansada de responder. Mas não precisa me dizer nada.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Sobre tudo o que excrevemos




Não, você não leu errado. Também não foi um erro de digitação. O “x” está sim no meio da palavra. Vou explicar. Desde que comecei a escrever, tenho andado às voltas com uma questão. É que inevitavelmente sinto uma repulsa pelas coisas que escrevo um tempo depois de tê-las escrito. Isso me deixava bastante chateada até um tempo atrás, porque, sendo uma autora independente, crescia a dificuldade em conseguir vender meus livros. De modo que meu desejo era sempre de publicar coisas novas, ainda que houvesse uma pilha dos livros já publicados todos por serem vendidos. Pois bem, ainda que Lacan seja incompreensível, tempos atrás, li no Seminário 20 a expressão: “publixo”. A escrita como algo que sai de nós para o lixo.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Cartarresenha sobre o livro Rebentar

Campo Grande, 05 de julho de 2017.
Querido Rafael,

            Quando te ouvi falando sobre a temática do Rebentar durante o evento do Sesc, meu primeiro pensamento foi: não conseguirei ler esse livro. Um filho extraviado da mãe há mais de trinta anos e um trabalho de luto que não se encerra. Pareceu insuportável demais pra mim. Mas mesmo assim me investi de coragem e decidi fazer a travessia. Só durante a leitura é que fui pensando no motivo da minha inicial covardia. Tem algo em mim, desde muito cedo, que treme diante da possibilidade de perder um filho. Desde a infância eu me esborrachava de chorar quando alguém cantava pra mim a música do galinho que se perde da família: “há três noites que eu não durmo, pois perdi o meu galinho, coitadinho, pobrezinho...”, conhece? Mas o medo não parou por aí.

sábado, 24 de junho de 2017

Cartarresenha sobre A instrução da noite



Querido Maurício,

            Ainda ontem te disse que minhas leituras andavam a passo de tartaruga e que provavelmente demoraria a terminar seu livro, mas acontece que depois do aparecimento do Lucas no meio da história, não consegui mais parar. Coloquei o menino pra assistir desenho e o pobre ficou sem comer até às oito da noite, quando terminei A instrução da noite. Só então voltei a ser mãe e a cuidar das outras coisas da vida. Eu sei que esta pode ser só mais uma resenha do seu livro, já tão bem-falado, mas escrevo mais por mim que por você. Era preciso dizer algo sobre ele, já que, ao contrário do seu personagem-narrador, eu sempre opto por desembuchar.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Eu nunca tinha amado assim


Dizem que o amor é algo que tira a gente de órbita. Você não consegue pensar em mais nada quando está nesse estado de apaixonamento. Mas o apaixonamento é algo passageiro, pois aos poucos você vai vendo os defeitos da pessoa, e, mesmo que o amor não acabe, a sofreguidão diminui. O enluaramento da mente diminui. Mas acontece que há um ano e três meses eu tenho experimentado um amor novo. Um amor de mãe. Me sinto boba desde o dia que ele nasceu. Mas o boba não é só no sentido de encantada, é no sentido de bocó mesmo. Isso não vai parecer nada amável, mas vamos lá. Há tempos estou devendo esta crônica para minhas amigas mães.

domingo, 21 de maio de 2017

Uma nau de dor e salvação


Nau dos Amoucos é o primeiro romance de Isloany Machado, que já nos deu dois belos volumes de contos e crônicas sobre literatura e psicanálise, Costurando palavras e Em defesa dos avessos humanos. Mas enquanto esses livros são marcados pela leveza e a aparente despretensão, tornando a leitura amena ainda quando os temas são fortes, o début ficcional de Isloany tem como grande marca a ousadia, valendo-se, por vezes, de uma estética de extremos para tratar de um tema, aliás, dois temas igualmente extremos: o amor e a loucura.