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terça-feira, 2 de agosto de 2016

É tempo de ipês

É tempo de ipês. Numa época em que tudo está seco, de repente nos deparamos com uma explosão de várias flores que se juntam formando algo grandioso que enche nossos olhos. Estou há dias rodeando em torno disso porque passei por uma experiência que ainda não consegui dar nome. Foi uma coisa física, esquisita, um calafrio, sei lá. Pensei em escrever alguma coisa sobre meu encontro com a árvore florida, mas nem sabia por onde começar para não ficar parecendo aquelas pessoas meio malucas que saem por aí abraçando árvores e entrando em sinergia com a natureza. Nada contra, acho até bem interessante. O fato é que não sabia o que dizer.
No mesmo dia em que vivi a experiência da árvore, recebi pelo correio um pacote com um livro (Terra dos Homens – Antoine de Saint-Exupéry), enviado por uma amiga que está morando nos Estados Unidos e de quem sinto uma saudade filha d’uma égua. O livro tinha sido de sua mãe mocinha (21 anos). A mãe dela não está mais no mundo físico, habita o mundo das lembranças. Só isso já seria emocionante, mas o livro veio acompanhado de uma carta. Chorei de saudade e as palavras de minha amiga me fizeram sentir seu cheiro bem ali pertinho de mim. Nesse tempo em que tudo está seco, a carta foi um oásis. O segundo naquele mesmo dia.
Iniciei a leitura. Sabe, acho que sou uma pessoa “abensonhada” pelas palavras. Elas sempre me acodem. Exupéry é famoso pela criação do Pequeno Príncipe, personagem que ganhou vida própria e hoje é praticamente um produto. Eu não sabia nada da história do autor, mas nesse Terra dos Homens descobri que ele, para além da escrita, era também aviador. Nesse livro ele fala lindamente do homem, de seus desertos. Ele se pergunta, olhando para as pessoas cuja argila de que são feitas já está endurecida, que estranha máquina é essa de entortar humanos? Por que as pessoas ficam duras, desertificadas? Essa máquina de entortar humanos mata o Mozart que poderia estar, potencialmente, em cada criança.
Lendo isso eu fiquei pensando: em que momento as pessoas entram nessa máquina? Passados uns dias li a notícia de um médico que zombou do paciente por ter falado errado o nome de uma doença. A primeira coisa que me veio à cabeça é que o ouvido, ou melhor, a escuta dele estava cheia de barro seco. Voltei à minha questão: quando as pessoas entram na máquina de entortar humanos? E acho que é na adolescência. Partindo da ideia de que na infância (por enquanto) as cobranças são menores, no final desta etapa, quando chega o momento em que é preciso escolher o que se vai fazer para ganhar a vida, as coisas começam a “endurecer”. “Você vai fazer isso? Mas isso não dá dinheiro!”. Dinheiro, dinheiro, dinheiro, para comprar coisas, coisas, coisas, quando o mais importante não está aí. “Faça Direito, Engenharia, Medicina”. Os adultos, já devidamente endurecidos, se esquecem de perguntar: “Do que você gosta? Vamos encontrar um jeito de você viver fazendo isso?”.
Quem sabe o ouvido do moço que reverberou nas redes sociais estava endurecido porque seu desejo estava em outro lugar? Hoje as “melhores escolas” colocam seus adolescentes em baias para que não tenham contato com os colegas e não desviem a atenção dos estudos, imitando o mundo corporativo. Dá-lhe antidepressivos e ansiolíticos para suportar a dor da morte lenta e cotidiana dos Mozarts. Isso quando a morte não ultrapassa os limites do simbólico e o sujeito adolescente morre sufocado pela própria casca.
É preciso olhar para os lados. É preciso ver, ouvir, falar, sentir. Apreciar a beleza do inverno, mesmo que quase tudo esteja seco. Foi só depois de ler esse livro que pude significar o episódio do ipê. Lá vinha eu, começando a endurecer a argila, preocupada com as contas pra pagar, o almoço pra fazer, as coisas todas pra cuidar, quando fui pega de surpresa pela visão da árvore. O calafrio, a onda que fez o couro se arrepiar, foi a expulsão da camada endurecida. Que um dia ou outro todos vamos passar pela máquina, isso é certo, mas há um antídoto. Basta abrir os olhos para ver aquilo que realmente importa. Se conseguirmos fazer isso, mesmo que de vez em quando, não deixaremos a argila secar a ponto de se tornar inquebrável. Quem sabe assim, a cada dia um pequeno Mozart renasça, ou talvez um oásis se mostre, ou ainda um ipê se coloque diante de nossos olhos com toda a força que só é possível após alguma morte.
            Aquela é a minha árvore. Já perdeu todas as flores e provavelmente em breve eu me esquecerei dela. Mas ano que vem sei que ela novamente me salvará.


          

Isloany Machado, 02/08/2016 

domingo, 17 de julho de 2016

Se eu não vejo não existe

Se eu não posso ver o inconsciente, se eu não posso localizá-lo, é porque ele não existe.
Se eu não vejo doentes mentais sendo tratados pior do que animais em verdadeiras prisões, é porque eles não existem. Ah, esses mesmos que não existem, então é sempre melhor tirá-los de nossas vistas.
Se eu não vir as favelas do Rio tampando-as com painéis artísticos, elas não existem.
Se eu não vejo mulheres sendo estupradas por 30 homens, ou mais, isso não existe, ainda que eu tenha uma filha que poderia ser uma delas.
Se eu não vejo gente passando fome, nem a fome nem essa gente existem. Afinal de contas meu armário está cheio.
Se eu não vejo animais sendo cruelmente abusados em experimentos desnecessários, eles não existem.
Se eu não vejo gente doente, nem doenças nem gente que precisa de tratamento existem.
Se eu não vejo idosos sendo maltratados, eles não existem.
Se eu não pensar em crise e trabalhar, a crise não existe, mas o trabalho sim, existe e deveria ser de 80 horas semanais.
Se eu não me queixar de dor, ela não existe.
Se eu não falar, a palavra não existe.
Se eu não vejo
Se eu não
Se eu
Se
$
Isso é o que chamamos de desmentido, mecanismo típico do perverso. Eu vejo e em seguida nego, assim, isso passa a não existir.
O discurso “tolo” de um “cientista” chamado Ivan Izquierdo afeta não só psicanalistas como todos os que brigam todos os dias pelos direitos daqueles que nossa sociedade prefere não enxergar.
Lembremo-nos: tudo o que preferimos fingir que não existe, insiste, persiste.




Isloany Machado, 17/07/2016
   

  

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Você é um milagre em meio ao caos

No caminho que faço de ida e volta do trabalho tem um ponto que sempre atrai meus olhos. É a casinha de um casal de araras, que fica no alto de um coqueiro. O dono da casa em que fica esse coqueiro até construiu uma bela moradia para os dois. Pois bem, sempre que passo por lá fico olhando pra ver se os dois estão do lado de fora. Nem sempre estão. Mas esses dias eu vinha dirigindo e pensando em você, no dia dos namorados, e em tudo que conquistamos juntos. Quando passei pela casinha das araras tive um estalo e não consegui conter essas palavras. Pensei: Por que elas vivem juntas? Por que, mesmo tendo asas para ir a qualquer lugar, preferem estar ali? Voltei a pensar em nós. Há quantos anos? Estou perdendo as contas. Doze?

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Cuidado, Eichmann poderia ser você!

Comentário do filme The Eichmann Show

            Onde estava escondida a humanidade daquele homem que esteve como cabeça em todo o processo que exterminou mais de seis milhões de judeus? É esta a pergunta que persegue o judeu contratado para fazer a cobertura “cinematográfica” do Julgamento de Eichmann na cidade de Jerusalém. Somente monstros fazem monstruosidades? Ou será que humanos, vez ou outra, perdem a noção e o limite de suas ações destrutivas contra os “pares”? Há dias estava enrolando para assistir de uma vez The Eichmann show, primeiro porque sei que tenho o estômago fraco, segundo porque sinto dor.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

A análise é infernal

Flectere si nequeo superos, acheronta movebo!

            Todo psicanalista, pelo menos uma vez na vida, já leu essa frase de Virgílio. Justamente porque ela foi citada por Freud no prólogo daquela que é considerada a grande obra psicanalítica: A interpretação dos sonhos (1900). A famosa Flectere si nequeo superos, acheronta movebo, significa: se não posso dobrar os poderes superiores, moverei o inferno! Acheronta é o nome do rio que atravessa o inferno. Freud queria dizer que sua teoria não falava a respeito dos elementos da razão, bem explicadinhos pela ciência, bem mensurados, constatados e comprovados. A psicanálise é sobre aquilo que a razão insiste em esconder, recalcar.

sábado, 7 de maio de 2016

Separar-se da mãe

Eis que chegou meu primeiro dia das mães. Ano passado ele ainda estava na barriga e ainda era o filho idealizado. Eu não sabia que ele seria melhor do que o tal filho idealizado. Eu não sabia que nunca mais dormiria do mesmo jeito de antes, mesmo que conseguisse dormir. Não sabia que a existência dele ocuparia meus pensamentos de tal maneira que nem dormindo eu conseguiria esquecê-lo. Certo, sabemos que ser mãe não é natural. Mesmo que sejamos mães biológicas de um filho, é preciso adotá-lo em pensamento. É preciso que sua existência ocupe um espaço em nossa vida que antes não existia.

terça-feira, 12 de abril de 2016

Existe cura em psicanálise?


Milhares de pessoas andam, todos os dias, de um lado para outro. Cruzam avenidas, sobem e descem escadas, aguardam o ônibus, o metrô, de vez em quando caem nos vãos da estação e acabam sendo mastigadas pela pressa supersônica de um tempo em que não se pode esperar. Alguns, ligados no automático, pilotam seus carros, que também são automáticos. Dirigem sem ter condições de digerir a vida. Assim é que vemos, todos os dias, uma dança de corpos. Um certo bailar de pessoas que até pra sofrer não podem demorar muito. Poderíamos dizer que essa dança maluca, que não dá espaço nem para o pensamento, seria uma forma de manter a dor guardada num canto pra ver se esquece de doer?

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Pra quem serve a psicanálise?

  Ultimamente tenho pensado muito no chuveiro, na hora do banho. É um tempo que tenho para estar só com meus pensamentos. Não que me passem coisas muito filosóficas ou existenciais pela cabeça, pelo contrário. Penso, por exemplo, no que fazer para reverter o processo de bunda negativa que o pós-parto me deixou como herança. Essas coisas passam pela cabeça, além dos compromissos diários, as contas a pagar, enfim. Mas eis que ontem me veio uma lembrança da infância que casou com uma ideia para uma crônica que há tempos estava fermentando.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

O sofrimento psíquico e as palavras

Por esses dias ando um pouco triste. Triste e angustiada. Não, não é verdade. Eu só queria saborear as palavras “triste” e “angustiada”. Se eu estivesse triste, acho que a palavra triste me definiria bem. Não a palavra triste no sentido de que a palavra esteja triste, mas no sentido de que a palavra “triste” definiria meu sentimento. O mesmo serve para a palavra angustiada, não a palavra estando angustiada, mas...bem, vocês entenderam. Fato é que as palavras dão forma aos sentimentos. Estar angustiado, por exemplo, é diferente de estar ansioso. Pense nas palavras, sinta a diferença. Diga: hoje estou angustiado. Tente sentir a angústia. Bem, agora diga: estou ansioso. Sentiu? A ansiedade faz cócegas no estômago e bem no comecinho do intestino delgado, já com a angústia, parece que o buraco é mais embaixo. Ou melhor, mais em cima. A angústia faz assim uma espécie de compressão no peito, atinge pulmão, traqueia, algo por ali. Ambos viscerais. Os sentimentos, as palavras.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Você já "deu uma de psicólogo"?*

*Se você é psicólogo sabe exatamente do que eu estou falando. Se você não é, escute bem, ou melhor, leia bem e nos ajude a dizer não à banalização da Psicologia.

Nós da área Psi, TODOS NÓS da área psi, algum dia na vida – desde a graduação – já ouvimos frases assim:
- Você é psicólogo? Que legal! Meu sonho era fazer Psicologia...
- Nossa! Você estuda psicologia? Uau! Deve ser muito interessante né? Antes de decidir fazer Oceanografia, todos me diziam que eu devia fazer Psicologia porque sou um bom conselheiro...
- Caraca, você é psicólogo? Depois que eu me aposentar ainda vou realizar o sonho de fazer Psicologia. Eu gosto de conversar com as pessoas...
- Ah! Psicólogo? Sempre quis muito fazer esse curso pra compreender melhor a mente humana. (Essa pode variar assim: ...pra compreender o comportamento humano).

domingo, 15 de novembro de 2015

O Amor/Eros nos tempos de horror e guerra

A quem vamos pedir proteção? De onde virá o socorro e salvação? Do alto? De baixo? Virá quando, enfim, adentrarmos o jardim da vida eterna? Nunca acreditei nisso. O que lamento muito, pois seria reconfortante. De uns dias pra cá, ando estarrecida com o caos. Não que o caos seja novidade, pelo contrário. Mas há algo de diferente agora. Até mesmo me deparo com pessoas disputando por determinar qual seria o maior desastre. Vamos pensar nos dois mais recentes: um que é nacional e outro, cuja repercussão é, obviamente, nacional. Um, resultado da ambição e inconsequência típica de um sistema econômico doente, que calha perfeitamente com as propensões humanas destrutivas. O outro, quase que fico sem palavras, mas tem a ver com coisas muito maiores, que vêm acontecendo mundialmente e abrange questões extremistas religiosas, disputa de poder, de território, e o escambau. As proporções são diferentes.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Direito à vida e direito à morte

Você que me lê, não me julgue antes de terminar de ler o texto. Não deixe que a repulsa que sente pelo suicídio escureça suas vistas e não permita que pense por outro lado. Lembre-se que numa história sempre existem dois lados. Há dias ando com uma vontade de escrever sobre isso...meus dedos estão coçando, mas me falta tempo. Tenho uma vida de dois meses em meus braços para cuidar, e há dois meses, esta vida é a coisa mais importante da minha vida.

sábado, 31 de outubro de 2015

Pietro e o rochedo de seu desejo

A primeira vez que vi Pietro foi em algum dia entre 2005 e 2006. Eu entrei no sebo procurando um livro legal para presentear uma amiga que estava de aniversário (Não me pareceu que ela gostou do presente na ocasião porque, afinal, era só um livro “velho” e só eu mesma pra gostar dessas coisas). Entrei no sebo e um rapaz meio baixinho veio me atender. Eu já havia ido lá outras vezes, mas sempre fui atendida por pessoas que só estavam ali por um emprego e jamais por amor aos livros. Vi no brilho dos olhos e na conversa que tivemos, que Pietro era um vendedor diferente, que a paixão por aquilo ali era o que o movia.

domingo, 4 de outubro de 2015

Relato de parto - Um milagre chamado desejo


Durante a minha gestação, li alguns relatos de parto. Não li muitos porque, sinceramente, me irritava ler depoimentos de mulheres que não ousam falar da dor de um parto natural, agindo como se este “fenômeno” não pudesse ser chamado de dor, mas de algo puramente fisiológico, uma coisa da natureza, de adaptação da mãe e do bebê. Eu queria ter tido parto natural, mas não porque fosse enfeitar o quarto com pétalas de rosas, óleos essenciais, música indiana e etc, para fazer de conta que ia doer menos. Era só porque eu achava que seria melhor. Mas eu sei que ia doer pra cacete e tava me cagando de medo. Confesso. Mas às vezes falar dos medos é algo quase que proibido.