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sábado, 16 de novembro de 2019

Sobre o Coringa, ainda e mais




De tanto que falei do filme, fui convidada por um colega da psicanálise para fazermos um debate sobre o tão aclamado Coringa. Virou motivo de chacota o fato de eu ter ido três vezes ao cinema, até para mim, que nunca tinha ido mais de uma vez para ver a mesma coisa. Então, enquanto pensava no que falar durante o debate, para além daquilo que já havia escrito, pensei: mas por que diabos tive que ver três vezes, perigando ir a quarta vez?
Quando criança, eu tinha medo de palhaços. Claro que na época não entendia, mas depois, pensando e pensando já adulta, me parece que a figura de um palhaço é triste porque carrega um sorriso forjado e, ao mesmo tempo, uma lágrima, que está desenhada para expor a contradição entre o imperativo do riso enquanto o que se quer, no fim das contas, é chorar. Afinal, qual é a graça?

Na adolescência, meu livro favorito se chamava O dia do curinga (Jostein Gaarder – o mesmo autor d’O mundo de Sofia). Também tive que ler pelo menos umas três vezes, não porque fosse difícil de entender, mas porque em cada releitura podia enxergar coisas que não tinham sido possíveis antes. Trata-se da história de um menino em uma viagem com o pai, e o que motiva a viagem é a busca pela mãe/esposa que os deixou quando o filho tinha quatro anos e saiu pelo mundo para se encontrar. Lá pelas tantas da viagem, Hans-Thomas ganha uma lupa e um mini-livro, temos então uma história dentro da história e, obviamente, ambas estão entrelaçadas. Em uma ilha, um marinheiro náufrago vive sozinho por muitos anos até que as cartas do baralho que carregava numa caixinha de madeira ganham vida em forma de anões, cada um com seu naipe. Tudo está em perfeita ordem quando chega o Curinga. Cito um trecho:

Todas as cinquenta e duas figuras eram diferentes, mas tinham uma coisa em comum: nenhuma delas jamais perguntou quem era ou de onde tinha vindo. E por agirem assim, todas viviam em perfeita harmonia com a natureza à sua volta. Elas apenas viviam suas vidas dentro desse jardim exuberante e, como os animais, estavam íntima e despreocupadamente ligadas a ele...Até que chegou o Curinga. Ele se infiltrou no povoado como uma cobra venenosa. (...) Ele não apenas usava roupas engraçadas com guizos nas pontas, mas também não pertencia a nenhuma das quatro famílias, a nenhum dos quatro naipes. E, para completar, conseguia irritar os anões fazendo-lhes perguntas que não eram capazes de responder. (GAARDER, 1996, p. 210).

O Curinga, ou Joker, representa esta figura que faz questão, enquanto as outras cartas vivem sem que precisem fazer perguntas. No filme, há uma transformação de Arthur, esse “garotinho feliz”, de palhaço a joker. Enquanto palhaço, bem ou mal, ele se monta/desmonta e causa riso com suas palhaçadas, mas é alguém que está para ser batido, espancado, achincalhado. Ao fim do dia, remove-se a maquiagem, tira-se a peruca, roupas e sapatos, volta-se a ser triste. Enquanto Coringa/Joker, Arthur é a própria piada, uma piada que não tem graça. Há algo de identidade que passa a compô-lo. Não mais a peruca, mas o próprio cabelo pintado de verde. A maquiagem até por dentro da boca. A dança, o andar confiante, algo que lhe atravessa o corpo, uma verdade que vem à tona.

Arthur não pôde ser ouvido, primeiro por sua mãe (seja por ter sido tomada pela loucura [?], seja pela obsessão por um homem que não quis assumi-la, nem a seu filho). Começa aí a posição de Arthur como este objeto que resta espancado, recusado pelo pai, batido pelo(s) padrasto(s), cujo grito não é ouvido pela mãe. A posição do sujeito se repete na vida. Apesar de não se lembrar dos maus-tratos na infância, segue na vida sendo espancado gratuitamente por ser quem é: um cara estranho que tem um "distúrbio" de riso involuntário. Será coincidência que haja um sintoma assim para alguém que “veio ao mundo para trazer riso e alegria”? Também segue não sendo ouvido pelo patrão, pela assistente social, dentre outros. É uma voz que não tem lugar para o Outro.

Ao saber (como se tomasse um remédio amargo) de sua história, matar a mãe no real, ou seja, fazer uma passagem ao ato, é a saída que encontra para deixar a posição de objeto e colocar-se minimamente como sujeito. Arthur passa a ser visto, a ter uma ex-sistência, a custo da violência e não da elaboração. Sua passagem de palhaço a Coringa não tem como objetivo fazer um levante social, uma revolução de cunho político. É uma transformação que ocorre no nível micro, das primeiras e primordiais relações desse sujeito, mas o que ele reclama é para si, sua filiação, seu lugar. Arthur está matando a mãe, este primeiro Outro no real. Seria preciso fazer metáfora para que esta concretude pudesse ter sido ultrapassada. Que os outros o tenham como símbolo de uma revolução, trata-se de um deslizamento que já não lhe diz respeito.

Tanto no livro O dia do Curinga quanto no filme de Todd Philips, há uma questão com a mãe. No livro, um menino em busca de encontrar a sua, no filme, ao encontrá-la (saber quem ela realmente é e que mentiras carregou), há o deparar-se com o horror e a violência de quando não se é nada para o Outro.

A trilha sonora (que só pude reparar na terceira vez que fui ao cinema e por causa de um comentário que li na internet) remete ao imperativo da felicidade. Smile!!

Em outro comentário, de um psicanalista também, me deparei o com o tocante fato de que Joaquin Phoenix, aos 19 anos viu morrer de overdose em seus braços o irmão (também ator) River Phoenix. Foi ele quem ligou para o socorro enquanto seu irmão agonizava em um beco, como na cena do começo do filme, na qual é espancado por garotos e resta caído num beco. Há algo pungente na atuação de Phoenix que ultrapassa tudo o que é esperado. O artista finge sentir a dor que deveras sente.

Quanto à questão do "somos todos Coringas”, posso afirmar que não é Coringa quem quer. O Coringa é uma carta extra, que está fora do baralho, mas que pode causar um rebuliço e mudar as regras do jogo. Como Jostein Gaarder diz em seu livro: “somos bonecos vivos”, e o Coringa é a única carta que sabe disso.

Obs. 1: Agora juro que eu paro.

Obs. 2: Até a minha próxima ideia fixa. 

Referência:

GAARDER, J. O dia do Curinga. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Resenha do filme Coringa




TODOS OS QUE ACOMPANHAM MINHAS RESENHAS DE FILME
sabem que não está entre minhas preferências os de super-heróis. Primeiro por sempre ser algo muito surreal, segundo, e por isso mesmo, meu raciocínio não conseguir acompanhar todo o enredo, terceiro porque, não acompanhando, minha memória não funciona para que eu possa assistir as continuações. Pois bem, já assisti vários do Batman e sabia da existência do Coringa, mas então hoje fui ao cinema pela segunda vez assistir sobre sua história (eu nunca fui ao cinema duas vezes para ver o mesmo filme).

Logo no começo, primeira cena, Arthur Fleck está se pintando de palhaço, um sorriso forjado com os dedos e uma lágrima descendo pelo rosto. Não se trata daquela famosa lágrima desenhada, é uma real, que desce discretamente. Ele trabalha para uma empresa que “fornece" palhaços para eventos em geral. São tempos de violência gratuita, da banalidade do mal (salve Hannah Arendt), e Arthur é espancado por um grupo de meninos na rua. O motivo: porque querem lhe roubar a placa(?); porque só querem sacaneá-lo mesmo(?); sabe-se lá o que explica o prazer em causar dano gratuitamente ao outro. Ele leva uma bronca do patrão porque o cliente se queixou de seu sumiço, ao passo que ganha uma 38 do colega de trabalho.

Corta para a conversa com a assistente social que o "atende", e a pergunta de Arthur é: "É impressão minha ou o mundo está ficando mais maluco?”.

Arthur veio ao mundo sob a seguinte sentença: "aquele que nasceu para fazer rir e trazer alegria”. Sua mãe o chama de "Feliz”. O local onde trabalha se chama Haha’s e seu slogan é "coloque um sorriso nessa cara”. Há um imperativo à felicidade, à alegria, ao riso indispensável, a que Arthur obedece, tanto se tornando palhaço, como sonhando em ser comediante, mas, sobretudo, colocando o imperativo no real com seus ataques de riso a que ele chama de distúrbio neurológico. E todos perguntam, quando acontece: “do que você está rindo, idiota? Não tem graça". São tentativas de cumprir o destino do dizer da mãe, agora uma senhora que é cuidada (alimentação, banho, etc) por Arthur, desde cedo “o homem da casa”. Ambos vivem uma loucura a dois, para ficar mais chique, folie à deux. A mãe vive repetidamente questionando por que Thomas Wayne não responde suas cartas. Ele, um homem importante, quer se candidatar a prefeito (sim! o pai do Batman!), ela, uma mulher que trabalhou na casa dos Wayne há trinta anos.

Vamos para o segundo momento em que Arthur está de novo como um objeto a ser batido, espancado, gratuitamente. Ele acaba de ser demitido porque a arma cai de sua perna no meio de uma apresentação num hospital infantil. "É um adereço, faz parte do show", mas seu chefe não acredita e o demite aos berros, por telefone. No metrô, três babacas, os típicos cidadãos de bem de Gotham (nada que lembre nossos cidadãos de bem por aqui) estão assediando uma moça e Arthur começa a gargalhar. Não tem graça, nunca tem. Os três homens começam a espancá-lo e ele reage matando os três a tiros. É difícil admitir isso, mas a gente torce e sente um alívio quando ele consegue se levantar do espancamento brutal e mata os três. Talvez isso seja material para a polêmica em torno do filme, de que incitaria à violência. Mas me parece que a arte imita a vida mais do que o contrário, e se sentimos um certo gozo na cena, é porque podemos fantasiar ao invés de ir ao ato (salve a arte!). Depois disso, ele corre, aturdido e entra num banheiro público. Lá se desenrola uma dança que parece quase involuntária, quase tanto quanto seu riso. Uma cena que me fez arrepiar inteira e eu queria abraçar aquele ator por ter escolhido ser ator e fazer aquilo tão bem. O assassinato no metrô causa rebuliço em Gotham e o candidato a prefeito e empresário Wayne (o entojado) diz: “o problema dessas pessoas que fazem esse tipo de coisa é que não suportam as pessoas bem-sucedidas como nós, já que eles continuam sendo meros palhaços”. Arthur ouve esta fala que está sendo transmitida na televisão. Wayne é chamado a dizer algo, pois os três rapazes eram funcionários de sua empresa.

Em seu caderninho de piadas para o show de stand-up comedy que está preparando, escreve: "A pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você aja como se não tivesse uma”. Na conversa com a assistente social, ela sempre lhe faz as mesmas perguntas e ele diz: “Você não escuta o que eu digo. Sempre pergunta como eu me sinto, se tenho pensamentos ruins. Eu sempre tenho pensamentos ruins. Sempre me senti como se não existisse. Você não me ouve". E parece que não ouve mesmo. Ao fim deste encontro, ela lhe dá a notícia de que a verba do programa de saúde foi cortado e, portanto, é o último atendimento. “E como vou conseguir meus remédios?". A pergunta cai no vazio.

A mãe de Arthur pede a ele que poste mais uma carta para Wayne. Ele decide abrir a maldita carta para saber o que tanto esta mulher tem a dizer. Ela pede ajuda: “somente você pode ajudar a mim e a seu filho". Estarrecido, aos berros, Arthur quer saber se aquilo é verdade. A mãe diz que na juventude, quando ela trabalhava na casa dele, se apaixonaram, mas ele achou melhor não ficarem juntos por questões sociais e que a fez assinar uns papéis. E nós ficamos sem saber se é delírio (eu ia dizer “se é verdade ou delírio”, mas um delírio não é uma verdade?). Pois Arthur vai até Wayne, que nega a paternidade e ainda diz que sua mãe é uma louca, que o adotou quando ainda trabalhava para sua família, mas que foi internada num sanatório depois. Decidido a saber de sua verdade (tanto quanto o pobre Édipo que acaba vendo justo aquilo que mais temia enxergar), vai ao sanatório e descobre que sua mãe foi diagnosticada como psicótica, que tinha um filho adotivo (ele) a quem deixava sofrer maus tratos por parte de seus namorados. Nessa cena, tudo acontece muito rápido e as questões que ficam são: a mulher era realmente louca? Ela adotou mesmo o menino ou foi obrigada a assinar papéis falsos segundo a versão da poderosa família Wayne? Se acaso não era louca, ela ficou a partir dali, a ponto de permitir que seu filho sofresse abusos físicos: “Eu nunca o ouvi chorar, ele sempre foi um garotinho tão feliz".

Ser feliz é o imperativo do Outro materno a quem Arthur está absolutamente alienado, sem corte, sem castração, foracluído. Uma psicose não tem como causa as mazelas sociais, ainda que a maneira como a loucura é tratada (ainda) seja um grave problema social, sim. Estando fora do discurso, Arthur se coloca fora da lei e, para romper com o imperativo da mãe, precisa matá-la no real. Enquanto um “neurotiquinho" qualquer passaria anos em análise, deitado no divã, matando o Outro aos poucos, Arthur faz uma passagem ao ato e diz, enquanto a sufoca com o travesseiro: “É muito difícil tentar ser feliz o tempo inteiro. Eu nunca fui feliz nesta minha vida desgraçada. Lembra quando você dizia que meu riso era um distúrbio? Eu descobri que não é, eu sou assim mesmo". Édipo mata o pai sem saber que é seu pai. Arthur mata a mãe porque sabe (o saber psicótico é intransitivo).

Para saber o desfecho (mais do que já abri meu bocão) vocês precisarão ir ao cinema, até porque minhas palavras não conseguem transmitir o impacto que o filme causa. Não relatam sobre a atuação do Joaquin Phoenix (CASA COMIGO, JOAQUIN??). Tenho para mim que ele ganhará o Oscar de melhor ator.

Obs. 1: Alguém quer ir comigo ao cinema pela terceira vez?

Obs. 2: Eu pago a pipoca.

domingo, 25 de novembro de 2018

Religião se discute?



Religião não se discute. (Tomo aqui a posição de Lacan no texto O triunfo da Religião, ao afirmar que “há uma verdadeira religião, é a religião cristã"). Este é um preceito básico caso alguém opte por seguir uma religião: não discutir, não questionar, porque é algo que se sustenta em dogmas, em certezas, apesar do rol das incertezas humanas. E por falar em incertezas humanas, como elas são insuportáveis, não? Para onde nós, pequenos seres limitados, podemos direcionar as perguntas sobre o que é a vida, de onde viemos e para onde vamos? Onde enfiar toda a nossa construção narcísica, necessária para que constituíssemos nosso eu, depois que descobrimos que um dia vamos todos morrer? A ideia da morte é insuportável, a noção de que temos um tempo determinado para viver, pois somos finitos, é angustiante (mais para uns que para outros, basta algum tempo de escuta clínica para sabermos disso).
A religião é algo que dá respostas, que apazigua os questionamentos e traz esperanças sobre um outro lugar, uma continuidade. Aos 16 anos, quando comecei a descobrir isso, me tornei uma pessoa cética e até mesmo debochada em algumas ocasiões, pois carregava aquela arrogância típica dos adolescentes que acham ter feito uma grande descoberta. Hoje, depois da psicanálise, eu acho (mesmo) que a religião é absolutamente necessária para algumas pessoas, justamente aquelas que não suportariam o desamparo que é saber da castração, da finitude, e todas as coisas que nos colocam numa posição de objeto dejeto: só humanos e nothing more (como diria o corvo de Poe). Existe algo mais angustiante do que isso?
Pois bem, a religião traz respostas, dá sentido. Lacan dirá que "ela encontrará correspondência de tudo com tudo”, sendo esta, inclusive, sua principal função. Por isso acredita que triunfará, por ser inquebrantável, por serem "capazes de dar um sentido realmente a qualquer coisa, um sentido à vida humana, por exemplo". A religião secreta sentidos o tempo todo e, para segui-la, não faz sentido questionar, mas, sim, tomar as respostas como verdades e acalmar o coração. Por isso, Lacan diz ser “impossível imaginar quão poderosa ela é”. Talvez não tão impossível para nós que acabamos de eleger um líder político cujo discurso se baseava na limpeza da corrupção, na palavra do Deus justiceiro (o do velho testamento).
Bolsonaro é, segundo ele mesmo acredita, o próprio Messias (está no seu nome). E seus seguidores acreditam no poder dessa "limpeza”. Pelo que me lembro, há pelo menos duas passagens bíblicas em que a humanidade é reiniciada pelos bons: 1. No dilúvio (em que todos morrem exceto a família de Noé),  e 2. A destruição de Sodoma e Gomorra (desta eu não me lembro exatamente como acontece, mas soube recentemente por uma colega psicanalista, que tem um lance das filhas se deitarem com o pai para dar continuidade à humanidade – tá lá gente, o incesto é bíblico). Quando o mundo está muito cheio de liberdades, muito adepto às diversas formas de gozar, o chamado do pai ordenador é necessário. Num contexto de tamanha instabilidade em diversos níveis, as vozes clamam pelo ditador e, no caso do Brasil,  aglutinaram-se no bozo várias coisas: o ditador, o justo, representante de Deus, o mito (só faltaram citar Freud quando fala sobre o pai da horda primeva, aquele mesmo que é devorado pelos filhos).
A religião é uma representação macro para algo que já temos desde nossa formação psíquica, que obviamente é influenciada pelo macro (o contexto histórico e social), isso de estar submetido ao Outro, posição que afinal, teoricamente nos protegeria do desamparo por nos dizer que caminhos devemos seguir. Mas aquilo que é indicado não é a partir de nosso desejo, mas do Outro. Para a psicanálise, o poder deste Outro pode sim ser questionado. Não é o que justamente representa o discurso histérico? Mas este é um questionamento sem volta, porque uma vez começado o processo de travessia do fantasma, cada passo faz ruir um pedaço da ponte que nos garantiria o retorno.
No Discurso aos católicos, Lacan cita Freud para dizer que "o eu é feito das identificações superpostas à maneira de casca, espécie de armário cujas peças trazem a marca do tudo-pronto, embora a combinação não raro seja bizarra". Numa análise trata-se de despir-se, arrancar a casca e deixar as coisas na carne nua, na pele viva, já que essa imagem anterior de nós mesmos não nos contém em nada. Ainda que pareça uma imagem "imóvel, apenas seu esgar, sua flexibilidade, sua desarticulação, seu desmembramento, sua dispersão aos quatro ventos esboçam indicar qual é seu lugar no mundo".
Então, se a religião é para "curar os homens, isto é, para que não percebam o que não funciona", a psicanálise está num lugar completamente diferente, Lacan dirá “de muda”, para olharmos de frente para o que não funciona, para encararmos o real. É preciso uma coragem absurda, brutal, para seguir este caminho de suportar e dar um sentido próprio ao desamparo, à castração. Não ter respostas prontas é das coisas mais difíceis da vida. A religião triunfou, mas e quanto à psicanálise? Enquanto houver resistência, enquanto houver perguntas, enquanto houver espaço para dúvidas, questionamentos, singularidades, estaremos de mãos dadas na contra-mão.

P.S.: Para quem está com os dedos no gatilho para me xingar por este texto, lembre-se que ter uma religião não é o problema, o problema é achar que todos devem pensar de maneira igual, impor uma "república fundamentalista", nos termos de Vladimir Safatle, em seu texto na Folha: (https://www1.folha.uol.com.br/colunas/vladimirsafatle/2018/11/republica-fundamentalista.shtml).

Isloany Machado, 25/11/2018.

sábado, 17 de novembro de 2018

Será que meu amigo psicanalista fica me analisando?



Esta é uma dúvida que muitas pessoas têm e uma frase que nós da área psi sempre ouvimos logo que conhecemos alguém, seja na rua, na balada, no supermercado, na sala de espera do médico, "na chuva, na fazenda, ou numa casinha de sapê”: “Você está me analisando?”. Em geral, as pessoas ficam deconcertadas quando descobrem nossa profissão, porque pensam que nós analisaremos cada palavra que disserem. Nem todas as palavras, mas ah, nós pensamos coisas sim. Pronto, falei. Vou dar uma de Mister M.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Naná Doida




Sábado último conheci Naná Doida. Eu estava com um problema de saúde e fui a uma Unidade de Pronto Atendimento daqui de Campo Grande. Sistema Único de Saúde. Eu sentada no meu canto, tentando me distrair para não ver o tempo passar, vejo uma mulher se deitando no chão, porque estava com dor na coluna. Pergunto: não quer se sentar aqui? Ao que ela responde: "Não, tem que ser no chão, depois tomo um banho de álcool pra limpar as bactérias". Ainda não passamos pela triagem, mas assim que isso acontece, ela senta lá bem longe do lugar onde estou.

Uma escuta que suporta a dor



(Para meus colegas psicanalistas)

Hoje saí do consultório me sentindo moída. Geralmente saio leve, mas hoje, depois de passar o dia ouvindo pessoas assustadas e com medo, tanto quanto eu, percebi que estou envolvida nisso inclusive com meu corpo. O sofrimento com o caos geral afeta os corpos, que se encolhem na poltrona à minha frente, ou no divã. Dias atrás fiz um post no facebook dizendo que possivelmente não haveria lugar para a psicanálise num regime ditatorial, porque num regime assim, não há lugar para a subjetividade, para a liberdade de pensamento. Acontece que a "liberdade caça jeito", como disse Manoel de Barros, e a subjetividade não pode ser suprimida, jamais.

Por que Bolsonaro tem tantos eleitores?



Ontem me deparei com a postagem de um amigo de facebook que, de forma indignada, questionava: "Você que jamais agrediria alguém, mesmo assim você vota num cara desses?? Eu não entendo... juro que não". Eu tenderia a dizer que também não entendo. E você que está lendo este texto agora, entende? Mas não posso negar que sim, entendo. Por que o discurso de ódio de Bolsonaro ganhou tanta força? Para além de todos os motivos históricos, sociais e políticos que explicam essa necessidade de uma figura totalitária, que "salvará" o Brasil de todo o mal (amém), de toda a corrupção, de tudo o que é errado (não à toa compra muitos evangélicos), para além disso há um fato incontestável: o ódio é um afeto humano. Mas o que isso quer dizer?

sábado, 21 de julho de 2018

Haverá reabilitação possível?



Hoje pela manhã, indo para o consultório, ouvia Rehab, da Amy Winehouse. Depois de uma semana de várias conversas com meus amigos sobre a "epidemia" de suicídios, depois de uma semana intensa de atendimentos, depois de alguns anos de uma crise que atravessamos no Brasil e no mundo, num tempo em que tudo ao redor parece estar (e talvez esteja mesmo) em ruínas, ouvir aquela voz que diz: "Tentaram me mandar para a reabilitação, mas eu disse 'não, não, não'", me fez arrepiar.

quinta-feira, 1 de março de 2018

Insônia

Acordo na madrugada com o peito esmagado pela velha insônia. Acaricio o travesseiro implorando que me devolva a paz perdida. Olhos fechados para não abrir mão do fiapo de esperança, ilusão de que posso acalmar a agitação da vida que urge à minha revelia.

sábado, 2 de dezembro de 2017

Cartarresenha do livro Pai, Pai

Campo Grande, 02 de dezembro de 2017.

Querido João,

       Espero que não te assuste a intimidade com que esta leitora te escreve, mas é que tenho cultivado o hábito de escrever cartas-resenha de livros que me tocam e cujos autores são contemporâneos. Não sei como te agradecer pela publicação de Pai, Pai. Ele me caiu em mãos num momento muito oportuno, pois estou às voltas tentando entender a minha própria relação com meu pai. Sim, estou em análise faz um tempo. Inclusive, veja que coincidência: sou psicanalista.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Como curar ressaca literária?




Dias atrás estava eu com uma puta ressaca literária após o término d’O lobo da Estepe. Com o intuito de procurar no google um meme para dizer sobre minha ressaca, eis que uma das coisas mais pesquisadas era: “como curar ressaca literária?”. Fiquei intrigada com isso e fui estudar a fundo sobre o assunto fazendo uma pesquisa muito séria e confiável pelo facebook. Lancei para meus amigos a seguinte questão: O que você faz para curar-se de uma ressaca literária? Encontrei algumas boas respostas, mas descobri, concomitantemente, que meus amigos, ou grande parte deles, são bons cachaceiros. Transcrevo aqui algumas das dicas encontradas, vai que ajuda (omiti os nomes dos sujeitos da pesquisa para não causar constrangimento):

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Resenha do livro Entropia, de Alexandre Marques Rodrigues



Quem acompanha meu blog sabe que, geralmente, minhas resenhas são cartas para os autores. Mas desta vez farei diferente, até porque fiquei algum tempo às voltas com Entropia e minha resenha é uma tentativa de montar um quebra-cabeças. Entropia caiu em minhas mãos porque fui convidada a mediar um bate-papo pelo Sesc em que o autor estaria presente. Este romance é daqueles que você começa a ler e, conforme os capítulos vão passando, em algum momento sente a necessidade de voltar ao início do jogo porque as coisas não estão fazendo muito sentido. Você volta e percebe que precisa anotar algumas coisas para não se perder na leitura.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Prefácio do livro Alma Desnuda



Conheci Gabriela em 2013, quando fui sua professora no curso de psicologia da UFMS. Depois nos reencontramos em outro contexto, por causa da literatura na fronteira com a psicanálise. Gabriela bateu asas e voou com suas letras e aqui está o resultado da poesia que corre em suas veias. Neste seu livro de estreia, a menina desnuda a alma diante do leitor e mostra a grandiosidade do que há do lado de dentro, desse avesso que tanto insiste. Os temas da dor de existir, do ser mulher em um mundo que nos tenta colocar cerca, da loucura, do amor, da paixão, dentre outros, estão presentes para capturar nossos olhos para além da efêmera beleza daquilo que um dia, certamente, morrerá. O eu lírico deixa turvamente claro, com seus gritos e paradoxos, que não há nada para além das palavras, coisa nenhuma para além dos buracos que nos preenchem e das dúvidas em que nos agarramos. A dúvida é sempre melhor do que a certeza – pressuposto psicanalítico.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

O tempo do fantasma em Meu malvado favorito 3

Quem me conhece sabe que eu adoro animações. Quem gosta de animações sabe que muitas delas não são feitas para crianças, mas para os pais, que têm nos filhos uma boa desculpa para ir ao cinema ver desenho. Pois bem, por que estou falando essa baboseira toda? Porque dias atrás, depois de uma abstinência de quatro meses, fomos ao cinema levar nosso sobrinho para assistir Meu malvado favorito 3. Se você não conhece, vou resumir o enredo da trilogia em algumas palavras.