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segunda-feira, 11 de maio de 2020

SOBRE A ANÁLISE, A CASTRAÇÃO E A PANDEMIA.



Além da felicidade de poder trabalhar com chinela e roupa “véia", tem uma coisa que ainda não disse sobre o privilégio de continuar sustentando as análises on-line: isto tem trazido alegria e sentido aos meus dias de confinamento. Ainda que como analista eu precise estar na posição de objeto causa de desejo, isto é, mesmo que não seja uma relação sujeito-sujeito, tem sido incrível dar alguma sustentação às falas dos analisantes. Nada disso é novidade, pois já é o que um analista faz em seu consultório "presencial” todo santo dia, mas agora, diante do escancaramento do real da morte e da castração, da falta de garantias, sustentar as transferências é poder esquecer um pouco do caos e apostar na vida.

Em meio a uma pandemia, mesmo que os analisantes saibam que o analista, enquanto Sujeito Suposto Saber, não sabe de nada mesmo, continuam apostando na pulsão de vida. E como apostam! Cada um, a seu modo, ludibriando o real da morte, elaborando, tentando acomodar isso que se expande e que não caberá novamente no mesmo lugar. O Covid-19 está esfregando na nossa cara a possibilidade da morte. Ora, o que é possível diante da morte? Viver, viver, viver. A vida pede pressa.

Agora de novo: isso já é o que acontece quando se faz uma análise. Certa vez, li em algum lugar que "fazer análise é economizar tempo de vida”. Ora, uma análise nos coloca para lidar com nossa castração. Nos faz olhar de frente para aquilo que somos em função dos (O)outros e, como na música do Belchior, trata-se de "uma roupa que não nos serve mais". Então, dentre muitas coisas, a análise nos leva a elaborar o luto daquilo que já não somos, nos faz colocar a libido em outras coisas, porque há muito desejo, há muita vida, ainda que o fim seja sempre a morte. Quem faz análise sabe que é preciso saber perder, deixar cair, abandonar o gozo a cada volta que se dá. Sabe também que não se pode abrir mão do desejo em detrimento da aposta no gozo, pois o jogo já está perdido por esta via, resta o sintoma.

A pandemia também nos apressa em querer viver, escrever todos os livros que carregamos na cabeça inteirinhos, ler todos os clássicos da nossa imensa lista, declarar o amor que está engasgado, fazer uma carta de despedida para quem fica. Não há tempo para os ressentimentos, tampouco para os amores longamente impossíveis. Quando a morte chega perto, a pulsão de vida se torna fervilhante para aqueles que querem viver. Ou, como disse hoje minha analista: "Uma vida é sempre curta para o desejo de viver”.

Se eu morresse amanhã, vivi todas as vidas.
Se eu morresse amanhã, entreguei todos os beijos.
Se eu morresse amanhã, levei todas as cores em meus olhos.
Se eu morresse amanhã, desejei.               

OS QUE NOS DENOMINAMOS PSICANALISTAS



OS QUE NOS DENOMINAMOS PSICANALISTAS,
inúmeras vezes já ouvimos de caminhantes que chegam com suas bagagens, prontos para a peregrinação psicanalítica: "Para onde este caminho me levará? Quanto tempo demorará a viagem?". Tão famosas as perguntas, que Freud já nos advertia delas desde seus mais importantes textos sobre a técnica. Desde então, psicanalistas pelo mundo sabem que a única resposta possível é: “caminhe!".

Esta é a única resposta possível e aceitável, não somente porque de fato não sabemos para onde o caminho leva, mas, sim, porque o caminhar nos interessa mais do que seu fim (e me refiro a um determinado fim que não é ainda o final de análise, pois que o final de análise é o fim depois do fim). Este percurso está longe de seguir uma linha reta, progressiva. Com a segunda tópica e textos como Além do princípio do prazer (1920), nos quais Freud diz da pulsão de morte e da compulsão à repetição, entendemos como quase nada pode se produzir em linha reta, pois as melhores produções estão nos momentos em que caímos, tropeçamos, falhamos, paramos para contemplar nossos próprios abismos. E tudo isso depende das voltas e voltas que damos em torno daquilo que nos mantêm fixados a um determinado jeito de gozar.

Antes que surja a sempre presente crítica de que a psicanálise só se dispõe a dar conta do indivíduo, é bom lembrar que em textos como A psicologia das massas e análise do eu (1921), O futuro de uma ilusão (1927), O mal-estar na civilização (1930), dentre outros, Freud é bastante claro em dizer que "a psicologia individual é, ao mesmo tempo, também psicologia social" (1921, p. 81). Ora, haveria alguma operação de nível milimetricamente cirúrgico capaz de recortar o indivíduo de seu contexto, seja ele o das mínimas relações, ou da grande humanidade como categoria expandida? A família ou uma pequena comunidade pode ser descolada de um contexto histórico, social, antropológico, religioso, etc., etc., etc.? Se alguém tiver criado um bisturi capaz de realizar esta cirurgia, me avise, pois que seria a cura definitiva para a tendência neurótica de dobrar-se tanto aos desígnios do Outro.

Com isso, poderíamos resolver ao menos uma das (no mínimo) três grandes questões postuladas por Freud sobre o que causa sofrimento aos sujeitos e, com alguma sorte, os levam ao consultório de um psicanalista: "nossos relacionamentos com os outros homens" (1930, p. 85). Fonte inesgotável de conflitos, ele chega a dizer que o sofrimento que provém dela "talvez nos seja mais penoso do que qualquer outro" (IDEM). Talvez porque ao corpo e sua decrepitude possamos enganar: uma pelanca que cai e podemos mandar cortá-la fora, um sulco que se faz na pele e podemos preenchê-lo com algum ácido, os cabelos brancos que nascem e podemos arrancar ou apagá-los com tinta, os peitos que se esvaziam e podemos inflá-los com silicone; ou lidamos com isso conforme caminhamos para nos distanciar cada vez mais de uma posição de corpo-objeto a serviço de outros (haja análise). Neste momento, com a pandemia, o mundo externo volta-se "contra nós com forças de destruição esmagadoras e impiedosas" (IBIDEM) e temos que lidar com mais esta fonte de sofrimento implacável, que nos esfrega na cara a fonte citada anteriormente: corpos em decrepitude literalmente aos montes, não pelo escoamento da juventude, mas porque já ultrapassam a barreira que faz diferença entre se tornarem carniças e não mais cadáveres.

Especificamente em nosso país estamos rodeados de grandes urubus sentados em suas cadeiras do poder, mas não só aí, porque suas vozes somente ecoam uma grande massa de outros abutres que tratam mortos como números e não como sujeitos em pura potência, desejantes, com uma história já vivida e muito ainda para viver. Mais de cinco mil mortes? "E daí?". Os mortos pelos vinte anos de ditadura? “Pessoas morrem todos os dias!”. Estamos na escuridão, cambaleando em corpos cujas vidas ceifadas pela crueldade dos abutres poderiam ter sido poupadas.

Como humanidade, atravessamos um momento que nos coloca diante de todas as fontes possíveis mencionadas por Freud em seu tão lindo texto sobre o mal-estar, com o acréscimo de ter que encarar ainda a crueldade de muitos. Alguns conseguem fechar os olhos a fim de não ter que enxergar tudo isso, lavam as mãos, viram as costas, afinal, estamos diante de mais uma fonte de sofrimento. Como suportar tudo isso? A vida, tal como já "a encontramos, é árdua demais para nós; [...] A fim de suportá-la, não podemos dispensar as medidas paliativas. [...] Existem talvez três medidas desse tipo: derivativos poderosos, que nos fazem extrair luz de nossa desgraça; satisfações substitutivas, que a diminuem; e substâncias tóxicas, que nos tornam insensíveis a ela. Algo desse tipo é indispensável." (FREUD, 1930, p. 83). Tanto é indispensável que muitos temos feito uso de bebidas alcoólicas, por exemplo, ou outras substâncias. Isso quer dizer que uma das possibilidades de lidar com o tanto de sofrimento é, segundo Freud, chapar o coco.

A terceira medida a que ele se refere é a religião (que não deixa de ser um opióide, como disse Marx), mencionada no Mal-estar e anteriormente aprofundada n’O futuro de uma ilusão. Ainda que muitos façam uso deste remédio, talvez seu uso abusivo seja um tanto perigoso, pois que se trata de uma saída infantil, segundo Freud, para lidar com o desamparo a que estamos submetidos, por ser a religião um "sistema de doutrinas e promessas que, por um lado, lhe explicam os enigmas deste mundo com perfeição invejável, e que, por outro, lhe garantem que uma Providência cuidadosa velará por sua vida e o compensará, numa existência futura, de quaisquer frustrações que tenha experimentado aqui." (1930, p. 82). Sabemos bem até onde a necessidade de um Pai potente pode nos levar: eleger um imbecil que se diz O provedor da justiça, da verdade, O Messias, ainda que seja agora um Messias fajutinho, que “não faz milagres”.

O que resta, então, diante do pandemônio, já que a religião não serve para todos, já que ficar cego, como Édipo, também não? Queria eu ter a garantia de que, furando meus próprios olhos deixaria de enxergar. Morrer parece uma saída, pois "alguns, achando bárbaro o espetáculo, prefeririam (os delicados) morrer" (DRUMMOND em Os ombros suportam o mundo). Temos notícias de artistas e outros que estão optando por cair fora, algo compreensível desde nossa ética como psicanalistas de que há algo de irredutível no desejo, ainda que seja o de morrer. Mas, "chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem" (IDEM). Sobre aqueles que enfrentam a morte autoinfligida, Freud cita Grabbe para dizer que “não pularemos para fora deste mundo”, não porque acreditamos em uma outra vida, ou outro plano como quer prometer a religião, mas porque há uma beleza que é própria da caminhada. Como encontrar alguma satisfação diante de tanto sofrimento? Nas "dicas de como enfrentar uma pandemia” pregada por pessoas E profissionais que nunca passaram por uma? Obviamente que não, pois o que vale para um não vale para nenhum outro. Talvez a beleza esteja naquilo que poderemos contar, se não morrermos de covid, claro. O passado como o conhecíamos continua a existir, já que está em nós, em nossas histórias. O passado é presente, se lembrarmos do que Freud coloca como fundamento do inconsciente: não há distinção temporal aí. Quanto ao futuro? Podemos fazer projeções de como será o mundo pós pandemia? Não acredito, porque ainda não estamos no momento de concluir nada, por ora somos obrigados ao instante de ver, que se demora mais do que gostaríamos.

Eventualmente me sinto esburacada, de onde a angústia escorre aos litros. A princípio achei que isso fosse muito ruim de sentir, e de fato é. Mas ao me ver esburacada, lembrei que nós psicanalistas, estudantes eternos da psicanálise, sabemos que é olhando para nossos abismos e suportando nossos lugares vazios é que temos a chance de preenchê-los com algo novo, inédito, genuíno, e não mais com aquilo que nos quiseram fazer engolir goela abaixo. Isso não se faz sem caminhar, então, caminho!

Referências (que não seguem direito nem as normas da ABNT nem da APA porque aqui quem faz as regras sou eu):

DRUMMOND, Carlos. Os ombros suportam o mundo, disponível em: http://www.releituras.com/drummond_osombros.asp, 09 de maio de 2020.

FREUD, S. Além do princípio do prazer (1920). Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

______.  A psicologia das massas e análise do eu (1921). Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

______. O futuro de uma ilusão (1927). Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

______. O mal-estar na civilização (1930). Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

sábado, 16 de novembro de 2019

Sobre o Coringa, ainda e mais




De tanto que falei do filme, fui convidada por um colega da psicanálise para fazermos um debate sobre o tão aclamado Coringa. Virou motivo de chacota o fato de eu ter ido três vezes ao cinema, até para mim, que nunca tinha ido mais de uma vez para ver a mesma coisa. Então, enquanto pensava no que falar durante o debate, para além daquilo que já havia escrito, pensei: mas por que diabos tive que ver três vezes, perigando ir a quarta vez?
Quando criança, eu tinha medo de palhaços. Claro que na época não entendia, mas depois, pensando e pensando já adulta, me parece que a figura de um palhaço é triste porque carrega um sorriso forjado e, ao mesmo tempo, uma lágrima, que está desenhada para expor a contradição entre o imperativo do riso enquanto o que se quer, no fim das contas, é chorar. Afinal, qual é a graça?

Na adolescência, meu livro favorito se chamava O dia do curinga (Jostein Gaarder – o mesmo autor d’O mundo de Sofia). Também tive que ler pelo menos umas três vezes, não porque fosse difícil de entender, mas porque em cada releitura podia enxergar coisas que não tinham sido possíveis antes. Trata-se da história de um menino em uma viagem com o pai, e o que motiva a viagem é a busca pela mãe/esposa que os deixou quando o filho tinha quatro anos e saiu pelo mundo para se encontrar. Lá pelas tantas da viagem, Hans-Thomas ganha uma lupa e um mini-livro, temos então uma história dentro da história e, obviamente, ambas estão entrelaçadas. Em uma ilha, um marinheiro náufrago vive sozinho por muitos anos até que as cartas do baralho que carregava numa caixinha de madeira ganham vida em forma de anões, cada um com seu naipe. Tudo está em perfeita ordem quando chega o Curinga. Cito um trecho:

Todas as cinquenta e duas figuras eram diferentes, mas tinham uma coisa em comum: nenhuma delas jamais perguntou quem era ou de onde tinha vindo. E por agirem assim, todas viviam em perfeita harmonia com a natureza à sua volta. Elas apenas viviam suas vidas dentro desse jardim exuberante e, como os animais, estavam íntima e despreocupadamente ligadas a ele...Até que chegou o Curinga. Ele se infiltrou no povoado como uma cobra venenosa. (...) Ele não apenas usava roupas engraçadas com guizos nas pontas, mas também não pertencia a nenhuma das quatro famílias, a nenhum dos quatro naipes. E, para completar, conseguia irritar os anões fazendo-lhes perguntas que não eram capazes de responder. (GAARDER, 1996, p. 210).

O Curinga, ou Joker, representa esta figura que faz questão, enquanto as outras cartas vivem sem que precisem fazer perguntas. No filme, há uma transformação de Arthur, esse “garotinho feliz”, de palhaço a joker. Enquanto palhaço, bem ou mal, ele se monta/desmonta e causa riso com suas palhaçadas, mas é alguém que está para ser batido, espancado, achincalhado. Ao fim do dia, remove-se a maquiagem, tira-se a peruca, roupas e sapatos, volta-se a ser triste. Enquanto Coringa/Joker, Arthur é a própria piada, uma piada que não tem graça. Há algo de identidade que passa a compô-lo. Não mais a peruca, mas o próprio cabelo pintado de verde. A maquiagem até por dentro da boca. A dança, o andar confiante, algo que lhe atravessa o corpo, uma verdade que vem à tona.

Arthur não pôde ser ouvido, primeiro por sua mãe (seja por ter sido tomada pela loucura [?], seja pela obsessão por um homem que não quis assumi-la, nem a seu filho). Começa aí a posição de Arthur como este objeto que resta espancado, recusado pelo pai, batido pelo(s) padrasto(s), cujo grito não é ouvido pela mãe. A posição do sujeito se repete na vida. Apesar de não se lembrar dos maus-tratos na infância, segue na vida sendo espancado gratuitamente por ser quem é: um cara estranho que tem um "distúrbio" de riso involuntário. Será coincidência que haja um sintoma assim para alguém que “veio ao mundo para trazer riso e alegria”? Também segue não sendo ouvido pelo patrão, pela assistente social, dentre outros. É uma voz que não tem lugar para o Outro.

Ao saber (como se tomasse um remédio amargo) de sua história, matar a mãe no real, ou seja, fazer uma passagem ao ato, é a saída que encontra para deixar a posição de objeto e colocar-se minimamente como sujeito. Arthur passa a ser visto, a ter uma ex-sistência, a custo da violência e não da elaboração. Sua passagem de palhaço a Coringa não tem como objetivo fazer um levante social, uma revolução de cunho político. É uma transformação que ocorre no nível micro, das primeiras e primordiais relações desse sujeito, mas o que ele reclama é para si, sua filiação, seu lugar. Arthur está matando a mãe, este primeiro Outro no real. Seria preciso fazer metáfora para que esta concretude pudesse ter sido ultrapassada. Que os outros o tenham como símbolo de uma revolução, trata-se de um deslizamento que já não lhe diz respeito.

Tanto no livro O dia do Curinga quanto no filme de Todd Philips, há uma questão com a mãe. No livro, um menino em busca de encontrar a sua, no filme, ao encontrá-la (saber quem ela realmente é e que mentiras carregou), há o deparar-se com o horror e a violência de quando não se é nada para o Outro.

A trilha sonora (que só pude reparar na terceira vez que fui ao cinema e por causa de um comentário que li na internet) remete ao imperativo da felicidade. Smile!!

Em outro comentário, de um psicanalista também, me deparei o com o tocante fato de que Joaquin Phoenix, aos 19 anos viu morrer de overdose em seus braços o irmão (também ator) River Phoenix. Foi ele quem ligou para o socorro enquanto seu irmão agonizava em um beco, como na cena do começo do filme, na qual é espancado por garotos e resta caído num beco. Há algo pungente na atuação de Phoenix que ultrapassa tudo o que é esperado. O artista finge sentir a dor que deveras sente.

Quanto à questão do "somos todos Coringas”, posso afirmar que não é Coringa quem quer. O Coringa é uma carta extra, que está fora do baralho, mas que pode causar um rebuliço e mudar as regras do jogo. Como Jostein Gaarder diz em seu livro: “somos bonecos vivos”, e o Coringa é a única carta que sabe disso.

Obs. 1: Agora juro que eu paro.

Obs. 2: Até a minha próxima ideia fixa. 

Referência:

GAARDER, J. O dia do Curinga. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Resenha do filme Coringa




TODOS OS QUE ACOMPANHAM MINHAS RESENHAS DE FILME
sabem que não está entre minhas preferências os de super-heróis. Primeiro por sempre ser algo muito surreal, segundo, e por isso mesmo, meu raciocínio não conseguir acompanhar todo o enredo, terceiro porque, não acompanhando, minha memória não funciona para que eu possa assistir as continuações. Pois bem, já assisti vários do Batman e sabia da existência do Coringa, mas então hoje fui ao cinema pela segunda vez assistir sobre sua história (eu nunca fui ao cinema duas vezes para ver o mesmo filme).

Logo no começo, primeira cena, Arthur Fleck está se pintando de palhaço, um sorriso forjado com os dedos e uma lágrima descendo pelo rosto. Não se trata daquela famosa lágrima desenhada, é uma real, que desce discretamente. Ele trabalha para uma empresa que “fornece" palhaços para eventos em geral. São tempos de violência gratuita, da banalidade do mal (salve Hannah Arendt), e Arthur é espancado por um grupo de meninos na rua. O motivo: porque querem lhe roubar a placa(?); porque só querem sacaneá-lo mesmo(?); sabe-se lá o que explica o prazer em causar dano gratuitamente ao outro. Ele leva uma bronca do patrão porque o cliente se queixou de seu sumiço, ao passo que ganha uma 38 do colega de trabalho.

Corta para a conversa com a assistente social que o "atende", e a pergunta de Arthur é: "É impressão minha ou o mundo está ficando mais maluco?”.

Arthur veio ao mundo sob a seguinte sentença: "aquele que nasceu para fazer rir e trazer alegria”. Sua mãe o chama de "Feliz”. O local onde trabalha se chama Haha’s e seu slogan é "coloque um sorriso nessa cara”. Há um imperativo à felicidade, à alegria, ao riso indispensável, a que Arthur obedece, tanto se tornando palhaço, como sonhando em ser comediante, mas, sobretudo, colocando o imperativo no real com seus ataques de riso a que ele chama de distúrbio neurológico. E todos perguntam, quando acontece: “do que você está rindo, idiota? Não tem graça". São tentativas de cumprir o destino do dizer da mãe, agora uma senhora que é cuidada (alimentação, banho, etc) por Arthur, desde cedo “o homem da casa”. Ambos vivem uma loucura a dois, para ficar mais chique, folie à deux. A mãe vive repetidamente questionando por que Thomas Wayne não responde suas cartas. Ele, um homem importante, quer se candidatar a prefeito (sim! o pai do Batman!), ela, uma mulher que trabalhou na casa dos Wayne há trinta anos.

Vamos para o segundo momento em que Arthur está de novo como um objeto a ser batido, espancado, gratuitamente. Ele acaba de ser demitido porque a arma cai de sua perna no meio de uma apresentação num hospital infantil. "É um adereço, faz parte do show", mas seu chefe não acredita e o demite aos berros, por telefone. No metrô, três babacas, os típicos cidadãos de bem de Gotham (nada que lembre nossos cidadãos de bem por aqui) estão assediando uma moça e Arthur começa a gargalhar. Não tem graça, nunca tem. Os três homens começam a espancá-lo e ele reage matando os três a tiros. É difícil admitir isso, mas a gente torce e sente um alívio quando ele consegue se levantar do espancamento brutal e mata os três. Talvez isso seja material para a polêmica em torno do filme, de que incitaria à violência. Mas me parece que a arte imita a vida mais do que o contrário, e se sentimos um certo gozo na cena, é porque podemos fantasiar ao invés de ir ao ato (salve a arte!). Depois disso, ele corre, aturdido e entra num banheiro público. Lá se desenrola uma dança que parece quase involuntária, quase tanto quanto seu riso. Uma cena que me fez arrepiar inteira e eu queria abraçar aquele ator por ter escolhido ser ator e fazer aquilo tão bem. O assassinato no metrô causa rebuliço em Gotham e o candidato a prefeito e empresário Wayne (o entojado) diz: “o problema dessas pessoas que fazem esse tipo de coisa é que não suportam as pessoas bem-sucedidas como nós, já que eles continuam sendo meros palhaços”. Arthur ouve esta fala que está sendo transmitida na televisão. Wayne é chamado a dizer algo, pois os três rapazes eram funcionários de sua empresa.

Em seu caderninho de piadas para o show de stand-up comedy que está preparando, escreve: "A pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você aja como se não tivesse uma”. Na conversa com a assistente social, ela sempre lhe faz as mesmas perguntas e ele diz: “Você não escuta o que eu digo. Sempre pergunta como eu me sinto, se tenho pensamentos ruins. Eu sempre tenho pensamentos ruins. Sempre me senti como se não existisse. Você não me ouve". E parece que não ouve mesmo. Ao fim deste encontro, ela lhe dá a notícia de que a verba do programa de saúde foi cortado e, portanto, é o último atendimento. “E como vou conseguir meus remédios?". A pergunta cai no vazio.

A mãe de Arthur pede a ele que poste mais uma carta para Wayne. Ele decide abrir a maldita carta para saber o que tanto esta mulher tem a dizer. Ela pede ajuda: “somente você pode ajudar a mim e a seu filho". Estarrecido, aos berros, Arthur quer saber se aquilo é verdade. A mãe diz que na juventude, quando ela trabalhava na casa dele, se apaixonaram, mas ele achou melhor não ficarem juntos por questões sociais e que a fez assinar uns papéis. E nós ficamos sem saber se é delírio (eu ia dizer “se é verdade ou delírio”, mas um delírio não é uma verdade?). Pois Arthur vai até Wayne, que nega a paternidade e ainda diz que sua mãe é uma louca, que o adotou quando ainda trabalhava para sua família, mas que foi internada num sanatório depois. Decidido a saber de sua verdade (tanto quanto o pobre Édipo que acaba vendo justo aquilo que mais temia enxergar), vai ao sanatório e descobre que sua mãe foi diagnosticada como psicótica, que tinha um filho adotivo (ele) a quem deixava sofrer maus tratos por parte de seus namorados. Nessa cena, tudo acontece muito rápido e as questões que ficam são: a mulher era realmente louca? Ela adotou mesmo o menino ou foi obrigada a assinar papéis falsos segundo a versão da poderosa família Wayne? Se acaso não era louca, ela ficou a partir dali, a ponto de permitir que seu filho sofresse abusos físicos: “Eu nunca o ouvi chorar, ele sempre foi um garotinho tão feliz".

Ser feliz é o imperativo do Outro materno a quem Arthur está absolutamente alienado, sem corte, sem castração, foracluído. Uma psicose não tem como causa as mazelas sociais, ainda que a maneira como a loucura é tratada (ainda) seja um grave problema social, sim. Estando fora do discurso, Arthur se coloca fora da lei e, para romper com o imperativo da mãe, precisa matá-la no real. Enquanto um “neurotiquinho" qualquer passaria anos em análise, deitado no divã, matando o Outro aos poucos, Arthur faz uma passagem ao ato e diz, enquanto a sufoca com o travesseiro: “É muito difícil tentar ser feliz o tempo inteiro. Eu nunca fui feliz nesta minha vida desgraçada. Lembra quando você dizia que meu riso era um distúrbio? Eu descobri que não é, eu sou assim mesmo". Édipo mata o pai sem saber que é seu pai. Arthur mata a mãe porque sabe (o saber psicótico é intransitivo).

Para saber o desfecho (mais do que já abri meu bocão) vocês precisarão ir ao cinema, até porque minhas palavras não conseguem transmitir o impacto que o filme causa. Não relatam sobre a atuação do Joaquin Phoenix (CASA COMIGO, JOAQUIN??). Tenho para mim que ele ganhará o Oscar de melhor ator.

Obs. 1: Alguém quer ir comigo ao cinema pela terceira vez?

Obs. 2: Eu pago a pipoca.

domingo, 25 de novembro de 2018

Religião se discute?



Religião não se discute. (Tomo aqui a posição de Lacan no texto O triunfo da Religião, ao afirmar que “há uma verdadeira religião, é a religião cristã"). Este é um preceito básico caso alguém opte por seguir uma religião: não discutir, não questionar, porque é algo que se sustenta em dogmas, em certezas, apesar do rol das incertezas humanas. E por falar em incertezas humanas, como elas são insuportáveis, não? Para onde nós, pequenos seres limitados, podemos direcionar as perguntas sobre o que é a vida, de onde viemos e para onde vamos? Onde enfiar toda a nossa construção narcísica, necessária para que constituíssemos nosso eu, depois que descobrimos que um dia vamos todos morrer? A ideia da morte é insuportável, a noção de que temos um tempo determinado para viver, pois somos finitos, é angustiante (mais para uns que para outros, basta algum tempo de escuta clínica para sabermos disso).
A religião é algo que dá respostas, que apazigua os questionamentos e traz esperanças sobre um outro lugar, uma continuidade. Aos 16 anos, quando comecei a descobrir isso, me tornei uma pessoa cética e até mesmo debochada em algumas ocasiões, pois carregava aquela arrogância típica dos adolescentes que acham ter feito uma grande descoberta. Hoje, depois da psicanálise, eu acho (mesmo) que a religião é absolutamente necessária para algumas pessoas, justamente aquelas que não suportariam o desamparo que é saber da castração, da finitude, e todas as coisas que nos colocam numa posição de objeto dejeto: só humanos e nothing more (como diria o corvo de Poe). Existe algo mais angustiante do que isso?
Pois bem, a religião traz respostas, dá sentido. Lacan dirá que "ela encontrará correspondência de tudo com tudo”, sendo esta, inclusive, sua principal função. Por isso acredita que triunfará, por ser inquebrantável, por serem "capazes de dar um sentido realmente a qualquer coisa, um sentido à vida humana, por exemplo". A religião secreta sentidos o tempo todo e, para segui-la, não faz sentido questionar, mas, sim, tomar as respostas como verdades e acalmar o coração. Por isso, Lacan diz ser “impossível imaginar quão poderosa ela é”. Talvez não tão impossível para nós que acabamos de eleger um líder político cujo discurso se baseava na limpeza da corrupção, na palavra do Deus justiceiro (o do velho testamento).
Bolsonaro é, segundo ele mesmo acredita, o próprio Messias (está no seu nome). E seus seguidores acreditam no poder dessa "limpeza”. Pelo que me lembro, há pelo menos duas passagens bíblicas em que a humanidade é reiniciada pelos bons: 1. No dilúvio (em que todos morrem exceto a família de Noé),  e 2. A destruição de Sodoma e Gomorra (desta eu não me lembro exatamente como acontece, mas soube recentemente por uma colega psicanalista, que tem um lance das filhas se deitarem com o pai para dar continuidade à humanidade – tá lá gente, o incesto é bíblico). Quando o mundo está muito cheio de liberdades, muito adepto às diversas formas de gozar, o chamado do pai ordenador é necessário. Num contexto de tamanha instabilidade em diversos níveis, as vozes clamam pelo ditador e, no caso do Brasil,  aglutinaram-se no bozo várias coisas: o ditador, o justo, representante de Deus, o mito (só faltaram citar Freud quando fala sobre o pai da horda primeva, aquele mesmo que é devorado pelos filhos).
A religião é uma representação macro para algo que já temos desde nossa formação psíquica, que obviamente é influenciada pelo macro (o contexto histórico e social), isso de estar submetido ao Outro, posição que afinal, teoricamente nos protegeria do desamparo por nos dizer que caminhos devemos seguir. Mas aquilo que é indicado não é a partir de nosso desejo, mas do Outro. Para a psicanálise, o poder deste Outro pode sim ser questionado. Não é o que justamente representa o discurso histérico? Mas este é um questionamento sem volta, porque uma vez começado o processo de travessia do fantasma, cada passo faz ruir um pedaço da ponte que nos garantiria o retorno.
No Discurso aos católicos, Lacan cita Freud para dizer que "o eu é feito das identificações superpostas à maneira de casca, espécie de armário cujas peças trazem a marca do tudo-pronto, embora a combinação não raro seja bizarra". Numa análise trata-se de despir-se, arrancar a casca e deixar as coisas na carne nua, na pele viva, já que essa imagem anterior de nós mesmos não nos contém em nada. Ainda que pareça uma imagem "imóvel, apenas seu esgar, sua flexibilidade, sua desarticulação, seu desmembramento, sua dispersão aos quatro ventos esboçam indicar qual é seu lugar no mundo".
Então, se a religião é para "curar os homens, isto é, para que não percebam o que não funciona", a psicanálise está num lugar completamente diferente, Lacan dirá “de muda”, para olharmos de frente para o que não funciona, para encararmos o real. É preciso uma coragem absurda, brutal, para seguir este caminho de suportar e dar um sentido próprio ao desamparo, à castração. Não ter respostas prontas é das coisas mais difíceis da vida. A religião triunfou, mas e quanto à psicanálise? Enquanto houver resistência, enquanto houver perguntas, enquanto houver espaço para dúvidas, questionamentos, singularidades, estaremos de mãos dadas na contra-mão.

P.S.: Para quem está com os dedos no gatilho para me xingar por este texto, lembre-se que ter uma religião não é o problema, o problema é achar que todos devem pensar de maneira igual, impor uma "república fundamentalista", nos termos de Vladimir Safatle, em seu texto na Folha: (https://www1.folha.uol.com.br/colunas/vladimirsafatle/2018/11/republica-fundamentalista.shtml).

Isloany Machado, 25/11/2018.

sábado, 17 de novembro de 2018

Será que meu amigo psicanalista fica me analisando?



Esta é uma dúvida que muitas pessoas têm e uma frase que nós da área psi sempre ouvimos logo que conhecemos alguém, seja na rua, na balada, no supermercado, na sala de espera do médico, "na chuva, na fazenda, ou numa casinha de sapê”: “Você está me analisando?”. Em geral, as pessoas ficam deconcertadas quando descobrem nossa profissão, porque pensam que nós analisaremos cada palavra que disserem. Nem todas as palavras, mas ah, nós pensamos coisas sim. Pronto, falei. Vou dar uma de Mister M.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Naná Doida




Sábado último conheci Naná Doida. Eu estava com um problema de saúde e fui a uma Unidade de Pronto Atendimento daqui de Campo Grande. Sistema Único de Saúde. Eu sentada no meu canto, tentando me distrair para não ver o tempo passar, vejo uma mulher se deitando no chão, porque estava com dor na coluna. Pergunto: não quer se sentar aqui? Ao que ela responde: "Não, tem que ser no chão, depois tomo um banho de álcool pra limpar as bactérias". Ainda não passamos pela triagem, mas assim que isso acontece, ela senta lá bem longe do lugar onde estou.

Uma escuta que suporta a dor



(Para meus colegas psicanalistas)

Hoje saí do consultório me sentindo moída. Geralmente saio leve, mas hoje, depois de passar o dia ouvindo pessoas assustadas e com medo, tanto quanto eu, percebi que estou envolvida nisso inclusive com meu corpo. O sofrimento com o caos geral afeta os corpos, que se encolhem na poltrona à minha frente, ou no divã. Dias atrás fiz um post no facebook dizendo que possivelmente não haveria lugar para a psicanálise num regime ditatorial, porque num regime assim, não há lugar para a subjetividade, para a liberdade de pensamento. Acontece que a "liberdade caça jeito", como disse Manoel de Barros, e a subjetividade não pode ser suprimida, jamais.

Por que Bolsonaro tem tantos eleitores?



Ontem me deparei com a postagem de um amigo de facebook que, de forma indignada, questionava: "Você que jamais agrediria alguém, mesmo assim você vota num cara desses?? Eu não entendo... juro que não". Eu tenderia a dizer que também não entendo. E você que está lendo este texto agora, entende? Mas não posso negar que sim, entendo. Por que o discurso de ódio de Bolsonaro ganhou tanta força? Para além de todos os motivos históricos, sociais e políticos que explicam essa necessidade de uma figura totalitária, que "salvará" o Brasil de todo o mal (amém), de toda a corrupção, de tudo o que é errado (não à toa compra muitos evangélicos), para além disso há um fato incontestável: o ódio é um afeto humano. Mas o que isso quer dizer?

sábado, 21 de julho de 2018

Haverá reabilitação possível?



Hoje pela manhã, indo para o consultório, ouvia Rehab, da Amy Winehouse. Depois de uma semana de várias conversas com meus amigos sobre a "epidemia" de suicídios, depois de uma semana intensa de atendimentos, depois de alguns anos de uma crise que atravessamos no Brasil e no mundo, num tempo em que tudo ao redor parece estar (e talvez esteja mesmo) em ruínas, ouvir aquela voz que diz: "Tentaram me mandar para a reabilitação, mas eu disse 'não, não, não'", me fez arrepiar.

quinta-feira, 1 de março de 2018

Insônia

Acordo na madrugada com o peito esmagado pela velha insônia. Acaricio o travesseiro implorando que me devolva a paz perdida. Olhos fechados para não abrir mão do fiapo de esperança, ilusão de que posso acalmar a agitação da vida que urge à minha revelia.